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A Comissão de Referências Bibliográficas vem selecionando diversas passagens extraídas de livros e artigos orientadores para as pesquisas em torno do tema do XXV EBCF: Corpos aprisionados pelo discurso …e seus restos.

Algumas dessas passagens, comentadas por colegas que gentilmente toparam o desafio de avançar um pouco mais ou de nos provocar com novas questões,  serão publicadas nos boletins .

Orlan. “Self-Hybridations Maya”, n.13, 2022.

Estou falando da variável aparente. A variável aparente x constitui-se de que o x marca um lugar vazio naquilo de que se trata. A condição para isso funcionar é que coloquemos exatamente o mesmo significante em todos os lugares reservados vazios. Essa é a única maneira da linguagem chegar a alguma coisa. E foi por isso que me expressei nesta formulação: não existe metalinguagem” (Lacan, J. [1971-1972] O seminário, livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 12).

Romildo do Rêgo Barros (AME da EBP/AMP)

O sintoma, entre o sim e o não

Começo lembrando uma resposta dada por Ariano Suassuna, bem à sua maneira, para alguém que estranhava o seu medo de avião:

Ariano, dizia esse amigo, carro é muito mais perigoso do que avião… Se numa curva topa com um buraco pode sofrer um acidente, muitas vezes fatal.

E avião, respondeu Ariano com outra pergunta, que para onde vai leva embaixo dele um buraco…?[1]

Até aí, temos uma boa anedota, feita para rir, como todo sintoma neurótico quando é usado como argumento. Torna-se um pouco mais sisuda se acrescentarmos uma conclusão: o buraco onipresente sob o avião é condição do voo. Não há voo sem buraco. Enquanto o carro na curva depende da contingência de haver ou não um buraco (nunca é garantido que haja), o voo do avião tem o buraco como necessidade, uma vez que surge justamente na separação entre a massa do avião e o solo. Suassuna, talvez sem querer, aponta para um além do vazio, para um ponto em que já não há só uma piada, mas condição da linguagem e do sintoma.

Lacan diz, na sua frase, que “A variável aparente x constitui-se de que o x marca um lugar vazio naquilo de que se trata”. Ou seja, aquilo de que se trata (“ce dont il s’agit” – expressão francesa difícil de se encontrar um correspondente elegante em português), só opera se houver um lugar vazio, marcado por Lacan com um x.

Como no argumento fóbico de Ariano, o negativo é condição do positivo. É a partir daí que surge um terceiro termo como defesa sintomática: a esperança de percorrer uma estrada sem rupturas, para o carro, ou a defesa que o fóbico encontra no próprio medo, para o avião.

O terceiro termo, naturalmente, é variável. Pode-se ter medo de carro, assim como se pode ser mais ou menos indiferente às incertezas do avião. O que se pode dizer é que não há linguagem sem o vazio que Lacan representou com a incógnita.

Essa discussão se torna particularmente importante nos nossos tempos, quando a civilização, e nossa clínica em consequência, põe em confronto o desejo e o gozo, o que altera muitas vezes o estatuto do sintoma.


[1] Para aproveitar a anedota contada por Ariano Suassuna, não vou distinguir neste comentário o vazio do buraco.

“Mas persiste o fato de que, no nível em que funciona o discurso que não é o discurso analítico, coloca-se a questão de como esse discurso conseguiu aprisionar [attraper] corpos. No nível do discurso do mestre/senhor, (…) vocês, como corpos, estão petrificados [pétris] (Lacan, J. [1971-1972] O seminário, livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 220).

Maria Helena Barbosa (EBP/AMP)

Quando Lacan afirma que “No nível do discurso do mestre/senhor, vocês, como corpos, estão petrificados”, está aludindo a uma certa homologia que ele produziu a respeito da estrutura entre Michelangelo e sua obra, e o discurso do mestre/senhor.

Lembramos da famosa frase dita por Michelangelo ao ser indagado por Leonardo Da Vinci quando do término da escultura de Davi: “Eu apenas tirei da pedra de mármore tudo que não era Davi”.

Lacan, na introdução do capítulo XVI do Seminário 19: …ou pior, aborda o escultor e sua obra para apontar que, até para Michelangelo, a obra sempre vem sob um comando. “O que comanda é o Um. O Um cria o Ser. (…) o Um não é o Ser, ele constitui [fait] o Ser” (p. 214).

Ele segue dizendo que: “A relação do homem com um mundo seu (…) nunca foi mais que uma presunção a serviço do discurso do mestre/senhor” (p. 215).

Também vale lembrar outra das principais obras do artista, abordada por Freud em um extenso artigo de 1914. Conta-se que ao terminar de esculpir a estátua de Moisés, Michelangelo, fascinado diante da beleza da imponente escultura, bateu com um martelo no joelho direito dela produzindo uma fratura no mármore e gritou: “Parla!” [Fala!]

Michelangelo é um dos grandes nomes do Renascimento italiano que despontou no século XV, caracterizando uma nova concepção sobre a vida humana. Sua formação humanista e a forte influência da cultura clássica se refletem na produção de suas pinturas e esculturas.

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