{"id":702,"date":"2024-10-22T06:23:21","date_gmt":"2024-10-22T09:23:21","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=702"},"modified":"2024-11-04T12:13:30","modified_gmt":"2024-11-04T15:13:30","slug":"linguagem-e-incidencias-do-real-no-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/10\/22\/linguagem-e-incidencias-do-real-no-corpo\/","title":{"rendered":"Linguagem e incid\u00eancias do real no corpo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Carla Fernandes (EBP\/AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p>O tema do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano abre um campo de investiga\u00e7\u00e3o sobre as no\u00e7\u00f5es de corpo e discurso no ensino de Lacan. Partindo da ideia da linguagem enquanto estrutura<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, uma interroga\u00e7\u00e3o permite trilhar uma via: qual a rela\u00e7\u00e3o entre linguagem e corpo? A no\u00e7\u00e3o de sintoma, que atravessa a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise e a pr\u00f3pria psican\u00e1lise desde seus fundamentos, permite bordejar, n\u00e3o sem um esfor\u00e7o de poesia, a incid\u00eancia do real e seus efeitos.<\/p>\n<p>Lacan, na <em>Confer\u00eancia de Genebra sobre o sintoma<\/em>, indica que a linguagem \u00e9 um cancro que \u201cimplica, desde o in\u00edcio, em uma esp\u00e9cie de sensibilidade\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A linguagem introduz a fun\u00e7\u00e3o da fala, parasita que vem habitar um corpo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, aparelhando gozo e significante. Se por um lado, isso \u00e9 o que produz a experi\u00eancia humana e permite a entrada no discurso, fazer la\u00e7o, por outro, repercute em embara\u00e7os com o corpo. A ancoragem do ser falante na linguagem subverte o programa biol\u00f3gico da sexualidade, que visa a reprodu\u00e7\u00e3o, colocando em circuito o campo pulsional. Isso p\u00f5e em causa uma falha constitutiva no <em>falasser<\/em> [<em>parl\u00eatre<\/em>], correlata \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>O corpo \u00e9 constitu\u00eddo no equ\u00edvoco do encontro com significantes que marcam e ordenam o modo de gozo, junto com a imagem pela qual o homem \u00e9 capturado<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Aqui o imagin\u00e1rio adquire consist\u00eancia, \u00e9 o que permite em torno do furo fazer um mundo. \u00c9 a partir disso que se constroem fic\u00e7\u00f5es, a capacidade de elucubrar um saber em torno do que \u00e9 produzido como marca, <em>lal\u00edngua<\/em> [<em>lalangue<\/em>]. Essas fic\u00e7\u00f5es, produtos da maquinaria de sentido, regem o ser falante. Trata-se de algo que se opera no fundamento da falha estrutural do Outro do significante.<\/p>\n<p>Desde o princ\u00edpio da psican\u00e1lise, a experi\u00eancia freudiana nos ensina que o corpo \u00e9 afetado pela linguagem. O inconsciente \u00e9 uma engrenagem que incide no corpo, produzindo sintomas. Essa foi a li\u00e7\u00e3o das pacientes hist\u00e9ricas de Freud. Durante as sess\u00f5es de an\u00e1lise da paciente Elisabeth von R., Freud constata que as \u201csuas pernas doloridas come\u00e7aram a participar da conversa\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, ou seja, aparece a\u00ed a dimens\u00e3o da sensibilidade do corpo \u00e0 palavra, sob transfer\u00eancia. Ele ficava surpreso ao se dar conta de que, por meio de uma pergunta \u00e0 paciente, surgia o sintoma do qual se queixava. Sobre isso, afirma: \u201ca dor assim despertada persistia enquanto a paciente estivesse sob influ\u00eancia da lembran\u00e7a; alcan\u00e7ava seu cl\u00edmax quando ela estava no ato de me contar a parte essencial e decisiva do que tinha que comunicar, e com a \u00faltima palavra desse relato, desaparecia\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise desta paciente, Freud j\u00e1 evidencia o paradoxo de uma esp\u00e9cie de satisfa\u00e7\u00e3o na dor e um doloroso sentimento de desamparo que se liga \u00e0 impot\u00eancia de \u201cdar um \u00fanico passo \u00e0 frente\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Disso depreende-se que a palavra tem o poder, em termos da rela\u00e7\u00e3o com o discurso, de fazer um sintoma entrar na conversa. O que capturava o corpo dessa paciente, impossibilitada de seguir em frente, se endere\u00e7ava ao analista. Entretanto, na tentativa de produ\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o para enunciar a verdade sobre o sintoma, decifrando um sentido, Freud<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> foi se deparando com os impasses no tratamento, chegando \u00e0 perspectiva de que h\u00e1 uma vertente do sintoma que persiste, em termos de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, que \u00e9 da ordem de um incur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Lacan promove uma tor\u00e7\u00e3o, propondo no horizonte da psican\u00e1lise algo distinto da preval\u00eancia simb\u00f3lica na histeria: \u201co real como ideia limite, a ideia do que n\u00e3o tem sentido\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Nessa perspectiva, o sintoma \u00e9 o parceiro sexual e esse parceiro, \u00e9 o pr\u00f3prio modo de gozo do <em>falasser<\/em>. Segundo Miller: \u201c\u00e9 evidente que o parceiro fundamental do sujeito n\u00e3o \u00e9 o Outro como pessoa, nem como lugar da verdade. Ao contr\u00e1rio, o parceiro do sujeito, o que a psican\u00e1lise sempre percebeu, \u00e9 algo dele pr\u00f3prio: a sua imagem (&#8230;) seu objeto <em>a<\/em>, seu mais-de-gozar e fundamentalmente o sintoma\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Como favorecer, no horizonte de uma an\u00e1lise, que o real do sintoma seja tocado, indo al\u00e9m do adormecimento do sentido, da estrutura de fic\u00e7\u00e3o que o analisante construiu em torno do furo? Trata-se de uma aposta sustentada por Lacan, na medida em que prop\u00f5e o discurso anal\u00edtico apoiado na l\u00f3gica, ci\u00eancia do real: \u201clembro que \u00e9 pela l\u00f3gica que esse discurso toca o real, ao reencontr\u00e1-lo como imposs\u00edvel, donde \u00e9 esse discurso que a eleva a sua pot\u00eancia extrema: ci\u00eancia, disse eu, do real\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Lacan nos ensina que \u00e9 preciso arriscar por essa via, extrair as consequ\u00eancias de uma abordagem que visa o real.<\/p>\n<p>Em uma Confer\u00eancia proferida em Salvador, Pierre Skriabine p\u00f4de transmitir a incid\u00eancia, na an\u00e1lise com Lacan, da presen\u00e7a do analista, em corpo, e o ato perturbando a defesa com um for\u00e7amento em dire\u00e7\u00e3o ao real:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Lacan n\u00e3o tinha medo do ato. E ele batia com for\u00e7a. Ele operava em um mundo t\u00f3rico. Ele conduzia o sujeito analisando neste espa\u00e7o a-esf\u00e9rico (&#8230;) no avesso do ponto onde acredit\u00e1vamos estar, e onde era necess\u00e1rio aprender a se orientar de forma diferente (&#8230;). E ele lhes colava significantes, os de voc\u00eas. Ele os colocava sem defesa face ao desejo de voc\u00eas, sem se preocupar com o resto. Lacan operava sobre a estrutura, t\u00e3o feroz quanto gentil.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. \u201cO aturdito\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. \u201cConfer\u00eancia de Genebra sobre o sintoma\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>. S\u00e3o Paulo: Eolia, n. 23, dezembro 1998, p. 2.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. (1975-1976). <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: o Sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Skriabine, P. \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Lacaniana: a estrutura topol\u00f3gica da experi\u00eancia humana\u201d. In: <em>Agente Digital<\/em>. Revista de Psican\u00e1lise, nova s\u00e9rie, n. 8, ano 2, abril de 2003.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Freud, S. <em>Estudos sobre a Histeria<\/em> (1893-1895). In:___. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. II. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 173.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Idem, p. 177.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Freud, S. <em>Inibi\u00e7\u00e3o, Sintoma e Ang\u00fastia<\/em> (1926). In:___. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Vol. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Laurent, E. <em>Falar com seu sintoma, falar com o corpo.<\/em> VI ENAPOL. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/portfolio-items\/falar-com-seu-sintoma-falar-com-seu-corpo\/\">Falar com seu sintoma, falar com seu corpo \u2013 VI ENAPOL<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Miller, J-A. \u201cA teoria do parceiro\u201d. In: <em>Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise<\/em>. EBP: Contra Capa Livraria, 2000, p. 156.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Lacan, J. \u201cO aturdito\u201d. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Skriabine, P. \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Lacaniana: a estrutura topol\u00f3gica da experi\u00eancia humana\u201d. <em>Op. cit.<\/em>, p. 16.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carla Fernandes (EBP\/AMP) O tema do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano abre um campo de investiga\u00e7\u00e3o sobre as no\u00e7\u00f5es de corpo e discurso no ensino de Lacan. Partindo da ideia da linguagem enquanto estrutura[1], uma interroga\u00e7\u00e3o permite trilhar uma via: qual a rela\u00e7\u00e3o entre linguagem e corpo? 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