{"id":700,"date":"2024-10-22T06:22:12","date_gmt":"2024-10-22T09:22:12","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=700"},"modified":"2024-11-04T12:13:35","modified_gmt":"2024-11-04T15:13:35","slug":"ha-um-corpo-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/10\/22\/ha-um-corpo-memoria\/","title":{"rendered":"<em>H\u00e1 Um<\/em>: corpo \u2013 mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Renato C. Vieira (EBP\/AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p>Pretendo abordar a dimens\u00e3o de um corpo aprisionado pelos discursos atrav\u00e9s da conting\u00eancia de um encontro e seus efeitos no campo do Outro. Acontecimento \u00fanico, traum\u00e1tico e assem\u00e2ntico que produz efeitos de um gozo persistente. Um dizer silencioso da puls\u00e3o que deixa marcas indel\u00e9veis.<\/p>\n<p>Uma experi\u00eancia anal\u00edtica vai do sintoma \u00e0 fantasia e seu retorno \u2013 retorno que pressup\u00f5e o conceito de <em>Sinthoma<\/em>. O <em>Sinthoma, <\/em>chave do \u00faltimo ensino de Lacan, \u201cdesigna o que h\u00e1 de comum entre sintoma e fantasia, a saber, o modo singular de um sujeito gozar\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o para o singular ultrapassa o trabalho de mem\u00f3ria. Este trabalho pertence a um outro registro, \u00e0quele que visa a balizar as repeti\u00e7\u00f5es e a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Ana vem \u00e0 an\u00e1lise com um diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico, uma defesa contra o real. Defesa que emergiu em seu primeiro encontro sexual, <em>uma besteira<\/em>. Seu parceiro toca uma parte de seu corpo de forma memor\u00e1vel, prazerosa e repulsiva. A partir desse instante, uma s\u00e9rie de sintomas brota em seu corpo e a leva a uma interna\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, onde um diagn\u00f3stico cai como uma luva para alimentar suas fantasias, que passam a ser interpretadas como alucina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Meu m\u00e9dico \u00e9 aquele que aceita, de um modo geral, que eu o instrua sobre o que somente eu estou fundamentado para lhe dizer, ou seja, o que meu corpo me anuncia por meio dos sintomas e cujo sentido n\u00e3o me \u00e9 claro. Meu m\u00e9dico \u00e9 aquele que aceita que eu veja nele um exegeta antes de v\u00ea-lo como reparador.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>A an\u00e1lise visa ao<em> X <\/em>desse acontecimento memor\u00e1vel. Acontecimento que lhe faz sofrer e, paradoxalmente, serve como modo de gozar do sintoma. Isolar o <em>X<\/em> da <em>besteira<\/em> \u00e9 uma estrat\u00e9gia adotada para que Ana possa construir um saber-fazer com o seu trauma inaugural.<\/p>\n<p>Lacan indaga de onde parte o que \u00e9 capaz de responder pelo gozo do corpo do Outro. Ele afirma que n\u00e3o \u00e9 do amor e sim do <em>amuro<\/em>, isto \u00e9, daquilo que aparece em signos bizarros no corpo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">S\u00e3o esses caracteres sexuais que v\u00eam do al\u00e9m, desse local que temos acreditado podermos ocular no microsc\u00f3pio sob a forma de g\u00e9rmen \u2013 a respeito do qual &#8230; n\u00e3o se pode dizer que seja a vida, pois aquilo tamb\u00e9m porta a morte, a morte do corpo, por repeti-lo. \u00c9 de l\u00e1 que vem o mais, o em-corpo, o A inda. \u00c9, portanto, falso dizer que h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o do soma e do g\u00e9rmen, pois, por alojar esse g\u00e9rmen, o corpo leva seus tra\u00e7os. H\u00e1 tra\u00e7os no amuro. (&#8230;) s\u00e3o tra\u00e7os apenas. O ser do corpo certamente que \u00e9 sexuado, mas \u00e9 secund\u00e1rio, como se diz. E como a experi\u00eancia o demonstra, n\u00e3o s\u00e3o desses tra\u00e7os que depende o gozo do corpo, no que ele simboliza o Outro.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Ler o sintoma leva a perceber o gozo no sofrimento. Ainda n\u00e3o estamos, contudo, na dimens\u00e3o do gozo do corpo. At\u00e9 aqui, situamo-nos pela economia de um condensador de gozo, estritamente ornamentado pela castra\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Na perspectiva da economia do corpo que se goza, h\u00e1 um real, isto \u00e9, \u201co mist\u00e9rio do corpo falante, o mist\u00e9rio do inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Na experi\u00eancia anal\u00edtica, algo do sintoma escapa \u00e0 dimens\u00e3o sem\u00e2ntica e faz ecoar uma repeti\u00e7\u00e3o que indica um real como marca do encontro faltoso. Algo que, para Ana, ressoa no corpo para, logo em seguida, ser recoberto como defesa do real trauma. Aqui, sintoma e fantasia se alinham visando a ofuscar o mist\u00e9rio do corpo falante. Todavia, a puls\u00e3o insiste \u2013 h\u00e1 um n\u00e3o-sei irredut\u00edvel que repercute, apesar das muralhas erigidas pela m\u00e1quina de diagnosticar.<\/p>\n<p>De acordo com Lacan, a presen\u00e7a do analista se inclui no conceito de inconsciente. Todavia, ele nos adverte que a fun\u00e7\u00e3o do ratear est\u00e1 no centro da repeti\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. O Encontro \u00e9 sempre faltoso. Logo, \u201co que pode, no final das contas, levar o paciente a recorrer ao analista para lhe pedir algo que se chama sa\u00fade, quando seu sintoma (&#8230;) \u00e9 feito para lhe trazer certas satisfa\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>O analista trata a insatisfa\u00e7\u00e3o que surge do sintoma, advertido de que tudo o que os pacientes s\u00e3o, mesmo os seus sintomas, dependem de uma satisfa\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o se contentam com seu estado de sofrimento, mas, mesmo assim, eles <em>se<\/em> contentam com esse estado pouco contentador. A quest\u00e3o est\u00e1 nesse <em>se<\/em>, que est\u00e1 a\u00ed contentado<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">N\u00f3s sabemos que as formas de arranjo que existem entre o que funciona bem e o que funciona mal constituem uma s\u00e9rie cont\u00ednua. O que temos diante de n\u00f3s, em an\u00e1lise, \u00e9 um sistema onde tudo se arranja, e que atinge seu tipo pr\u00f3prio de satisfa\u00e7\u00e3o. Se n\u00f3s nos metemos com isto, \u00e9 na medida em que pensamos que h\u00e1 outras vias (&#8230;). Em todo caso, se nos referimos \u00e0 puls\u00e3o, \u00e9 na medida em que \u00e9 no n\u00edvel da puls\u00e3o que o estado de satisfa\u00e7\u00e3o deve ser retificado.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Para a psican\u00e1lise, o sujeito n\u00e3o \u00e9 aquele que pensa. \u201cO sujeito \u00e9, propriamente, aquele que engajamos, n\u00e3o, como dizemos a ele para encant\u00e1-lo, a dizer tudo \u2013 n\u00e3o se pode dizer tudo \u2013 mas a dizer besteiras, isso \u00e9 tudo. (&#8230;) com essas besteiras vamos fazer an\u00e1lise e entramos no novo sujeito que \u00e9 o do inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Com efeito, a subst\u00e2ncia do corpo se define apenas como isso que se goza. \u201cEis a propriedade de um corpo vivo, mesmo n\u00e3o sabendo o que \u00e9 estar vivo \u2013 um corpo, isso <em>se<\/em> goza. Isso s\u00f3 se goza por corporiz\u00e1-lo de maneira significante\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Desse modo, os efeitos que um significante primevo produz no corpo capturam e perturbam o ser falante. Por sua vez, os efeitos memor\u00e1veis desse acontecimento repercutem no campo do Outro.<\/p>\n<p>Aprisionados pelos discursos, somos aquilo que achamos que dizemos o que queremos.<\/p>\n<p>Todavia, uma an\u00e1lise pode nos levar aos restos sintom\u00e1ticos e a cingir um gozo n\u00e3o vari\u00e1vel. Na psican\u00e1lise, um corpo vivo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o do gozo opaco ao sentido. Definitivamente, Lacan nos ensina que o gozo da fala (do sentido) \u00e9 distinto do gozo do corpo (subst\u00e2ncia gozante). Ana, em an\u00e1lise, diz: <em>ou\u00e7o vozes, mas ningu\u00e9m me diz nada<\/em>. A seguir ela se indaga: <em>ser\u00e1 que essas vozes s\u00e3o minhas?<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. <em>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 70.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Canguilhem, G. <em>Escritos sobre a medicina<\/em>. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2005, p. 45.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J<em>. <\/em>(1972-1973).<em> O Semin\u00e1rio<\/em>, <em>livro 20: mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 13.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J-A. <em>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan<\/em>. <em>Op. cit.,<\/em> pp. 70-71.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan, J<em>. <\/em>(1972-1973).<em> O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>. <em>Op. cit.,<\/em> p. 178.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J.<em> O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, pp. 123-131.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem, p. 158.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Lacan, J. (1972-1973). <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>. <em>Op. cit.<\/em>, p. 33.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Idem, p. 35.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato C. Vieira (EBP\/AMP) Pretendo abordar a dimens\u00e3o de um corpo aprisionado pelos discursos atrav\u00e9s da conting\u00eancia de um encontro e seus efeitos no campo do Outro. Acontecimento \u00fanico, traum\u00e1tico e assem\u00e2ntico que produz efeitos de um gozo persistente. Um dizer silencioso da puls\u00e3o que deixa marcas indel\u00e9veis. 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