{"id":696,"date":"2024-10-22T06:18:42","date_gmt":"2024-10-22T09:18:42","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=696"},"modified":"2024-11-04T12:13:48","modified_gmt":"2024-11-04T15:13:48","slug":"os-corpos-aprisionados-pelos-discursos-e-seus-restos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/10\/22\/os-corpos-aprisionados-pelos-discursos-e-seus-restos\/","title":{"rendered":"Os corpos aprisionados pelos discursos&#8230; e seus restos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Maria Josefina Sota Fuentes (AME da EBP\/AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer \u00e0s inst\u00e2ncias envolvidas por este convite, que me colocaram diante do desafio de comentar o tema do 25\u00ba Encontro Brasileiro, cujo t\u00edtulo foi extra\u00eddo do \u00faltimo cap\u00edtulo do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> de Lacan.<\/p>\n<p>Sendo esta uma atividade preparat\u00f3ria<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, pensei em trazer alguns pontos que me chamaram a aten\u00e7\u00e3o neste cap\u00edtulo que \u00e9 bastante complexo, pois ele se d\u00e1 no momento que Lacan muda de paradigmas, mas sem anunciar que edif\u00edcio te\u00f3rico se sustentar\u00e1 em novas bases. Tais mudan\u00e7as acompanham, inclusive, as novas formas civilizat\u00f3rias com as quais o gozo \u00e9 tratado pela linguagem, isto \u00e9, a maneira como os corpos s\u00e3o dominados pelos discursos.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> A pluraliza\u00e7\u00e3o do S1s no discurso do mestre contempor\u00e2neo<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Tal como comenta Miller nas <em>Intui\u00e7\u00f5es milanesas<\/em>, mal Lacan havia isolado no <em>Semin\u00e1rio 17<\/em> o S1 do discurso do inconsciente como o significante mestre da autoridade patriarcal, central na identifica\u00e7\u00e3o e no agrupamento dos indiv\u00edduos numa sociedade organizada a partir da interdi\u00e7\u00e3o do gozo, ele o questiona para pulveriz\u00e1-lo, pluralizando-o. \u00c9 o enxame de S1s que aparecer\u00e1 no <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, justamente quando n\u00e3o vivemos mais sob o reinado do pai que fundava o conjunto, limitando o gozo e introduzindo uma falta, segundo a l\u00f3gica da sexua\u00e7\u00e3o masculina. Quando \u201cO pai j\u00e1 n\u00e3o assombra mais a fam\u00edlia\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, a sociedade passa a ser governada pelo que Miller chamou de \u201cm\u00e1quina do n\u00e3o-todo\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, cujo paradigma \u00e9 o gozo feminino. Sem centro, nem barreiras que sirvam de anteparo ao desvario do gozo ilimitado, o n\u00e3o-todo arrasta o sujeito, ausente de si mesmo, ali onde ele n\u00e3o se mais se encontra. O enxame de S1s pluralizado chega na forma de significantes fragment\u00e1rios, como no bombardeamento fren\u00e9tico de informa\u00e7\u00f5es aos sujeitos sem refer\u00eancias, desarticulados e dispersos, que criam estrat\u00e9gias para se sustentarem num mundo regido pelo empuxo ao gozo.<\/p>\n<p>Com o decl\u00ednio da organiza\u00e7\u00e3o coletiva, Miller destaca, entre os sintomas da \u00e9poca, os apelos desesperados \u00e0 ordem e \u00e0 volta do reinado do significante mestre, bem como as bolhas de certeza que se consolidam nas comunidades ensimesmadas, as micro-totalidades dos nichos que restituem um certo dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Por isso, foi preciso a Lacan introduzir uma variante do discurso do mestre, o discurso do capitalismo, que promove o sujeito, n\u00e3o mais dividido entre os significantes que o representam, simbolicamente, mas \u00e0 merc\u00ea dos <em>gadgets<\/em> que o consomem.<\/p>\n<p>Assim, Lacan termina o <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> dizendo: \u201cEm tudo isto, n\u00e3o lhes falei em absoluto do pai, porque considerei que isso j\u00e1 lhes tinha sido suficientemente dito e explicado, ao lhes mostrar que \u00e9 em torno daquele que <em>unia<\/em>, daquele que diz n\u00e3o [&#8230;] que deve basear-se tudo o que h\u00e1 de universal\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. E ent\u00e3o anuncia o pior: um futuro sombrio na civiliza\u00e7\u00e3o com o incremento do racismo e dos processos segregativos levados \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> O retorno ao fundamento do corpo<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Um segundo ponto fundamental deste cap\u00edtulo \u00e9 o tema do corpo, bastante complexo no ensino e particularmente neste Semin\u00e1rio, onde Lacan elabora o gozo do corpo do <em>H\u00e1 Um<\/em>. Trata-se de um canteiro de obras para as passagens de Lacan pela sexualidade feminina, das quais ele extrair\u00e1 o gozo n\u00e3o-todo fora do discurso, que acontece num corpo <em>Outro<\/em> distinto do f\u00e1lico, infinito e ilimitado, para depois localiz\u00e1-lo no cora\u00e7\u00e3o do <em>sinthoma<\/em> como um acontecimento de corpo inerente ao <em>falasser<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Ainda no \u00faltimo cap\u00edtulo do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, Lacan volta a explorar as rela\u00e7\u00f5es do corpo com o discurso, com aquilo que \u201cmant\u00e9m todos voc\u00eas juntos\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, ele diz, o \u201cengate social\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, que \u201cse passa no n\u00edvel de um certo n\u00famero de capturas que n\u00e3o se d\u00e3o por acaso\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. N\u00e3o se trata for\u00e7osamente de <em>um <\/em>corpo, ele esclarece, mas do corpo como suporte do discurso e que permite a circula\u00e7\u00e3o do gozo no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Lacan j\u00e1 o havia desenvolvido com o paradigma dos quatro discursos, a rela\u00e7\u00e3o primitiva e circular que pode se dar entre gozo e significante, sendo o la\u00e7o social o lugar onde se recupera o gozo mortificado pela linguagem por meio do <em>mais-de-gozar<\/em>, alojado no tecido da civiliza\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 o gozo corpo a corpo\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, diz Lacan, o gozo que circula dando subst\u00e2ncia ao tra\u00e7o. \u201c\u00c9 isso que faz com que possa haver nessa hist\u00f3ria v\u00e1rios corpos aprisionados, e at\u00e9 s\u00e9rie de corpos\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o seria exatamente uma novidade naquele momento dizer que os corpos s\u00e3o marcados ou at\u00e9 mesmo \u201caprisionados\u201d pelos discursos \u2013 deixando de lado as pol\u00eamicas em torno da tradu\u00e7\u00e3o brasileira do termo <em>atrapper<\/em>. Lacan assinala nessa aula que essa novidade foi Freud quem a trouxe com a sobredetermina\u00e7\u00e3o do inconsciente. Contudo, foi com Lacan que aprendemos que n\u00e3o se nasce com um corpo; \u00e9 preciso fabric\u00e1-lo com a linguagem.<\/p>\n<p>Inicialmente, ele demonstrou que o inconsciente como discurso do Outro, estruturado como uma linguagem, \u00e9 a coluna vertebral e o tecido com o qual se veste o corpo. Este \u00e9 fabricado no imagin\u00e1rio do espelho, mas n\u00e3o sem a media\u00e7\u00e3o da palavra do Outro da linguagem, os significantes mestres que fornecem as vias identificat\u00f3rias que enla\u00e7am o real do caos do corpo fragmentado ao discurso do Outro. Para se ter um corpo \u00e9 preciso, pois, consentir com a aliena\u00e7\u00e3o primordial ao Outro da linguagem, encarnada pela primeira e grande arrebatadora de corpos que \u00e9 a m\u00e3e, simbolizando sua aus\u00eancia no c\u00e9lebre jogo significante do <em>Fort-da<\/em>. Isto implica a inscri\u00e7\u00e3o dessa aus\u00eancia no real do corpo e o consentimento com um perda, a extra\u00e7\u00e3o do gozo pela linguagem que se materializa no objeto <em>a.<\/em> S\u00e3o esses peda\u00e7os de corpo, os objetos pulsionais recortados pela linguagem que entram em circula\u00e7\u00e3o no la\u00e7o social, dando consist\u00eancia \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es primordiais e ao sentimento de possuirmos um corpo.<\/p>\n<p>Aprendemos que a interdi\u00e7\u00e3o do gozo pelo Nome e amor ao Pai, no regime masculino, funcionavam classicamente para o neur\u00f3tico como a armadura corp\u00f3rea, e vimos a que ponto a sintomatologia hist\u00e9rica \u2013 aquela que h\u00e1 tempos se rebela contra a ditadura do discurso do mestre tirando literalmente o corpo fora \u2013 mostra a dificuldade de se ter um corpo sem ter que apelar para a Outra mulher, quando justamente a identifica\u00e7\u00e3o para A mulher n\u00e3o existe no inconsciente.<\/p>\n<p>A inconsist\u00eancia e fragilidade do corpo \u2013 passando pela cl\u00ednica das psicoses e as dificuldades de se fabricar um corpo quando n\u00e3o conta com o apoio do discurso \u2013, culminam no avesso do est\u00e1dio do espelho que \u00e9, precisamente, o estado de ang\u00fastia: \u201cDe que temos medo?\u201d \u2013 pergunta Lacan na <em>Terceira<\/em>. \u201cDo nosso corpo\u201d <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Trata-se da suspeita de que nos reduzimos a um resto ca\u00eddo do discurso, o aborto de um desejo que nos separa do Outro, ditando o luto a ser feito de todos os objetos e identifica\u00e7\u00f5es que sustentavam o corpo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por um lado, a precariedade corp\u00f3rea d\u00e1 a dimens\u00e3o da urg\u00eancia do sujeito em ser tomado e, at\u00e9 mesmo, \u201caprisionado\u201d pelos discursos, quanto mais os significantes mestres da \u00e9poca se pluralizam e o sujeito, em puro estado de ang\u00fastia, \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima da aus\u00eancia de refer\u00eancias.<\/p>\n<p>Por outro, acompanhando as mudan\u00e7as da \u00e9poca, com a posterior elabora\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica borromeana e seus in\u00fameros arranjos poss\u00edveis para fabricar-se um corpo, Lacan, ao seguir as pistas de algu\u00e9m como James Joyce, desabonado do inconsciente, carente do apoio do discurso do Outro, indica poss\u00edveis caminhos na constru\u00e7\u00e3o de um corpo que prescinda do aprisionamento nas ins\u00edgnias identificat\u00f3rias do Outro social. Ou seja, a subst\u00e2ncia corp\u00f3rea pode ser extra\u00edda n\u00e3o do Outro, mas de uma identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o segregativa ao <em>sinthoma<\/em>, permitindo uma ancoragem e o desprendimento dos corpos \u00e1vidos pelas capturas dos mestres da vez. Para tanto, em vez de segregar, ser\u00e1 preciso consentir com o abismo da singularidade da diferen\u00e7a absoluta que habita em cada um, o real de um gozo fora do sentido, louco e enigm\u00e1tico, imposs\u00edvel de ser dito e coletivizado \u2013 nem mesmo nas mais bem intencionadas sociedades fraternas onde reinam os melhores sentimentos.<\/p>\n<p>Precisamente, diz Lacan ainda ao final do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, o pior se anuncia na forma\u00e7\u00e3o de uma l\u00f3gica coletiva baseada na sociedade dos irm\u00e3os, da igualdade fraterna dos corpos que rejeita o real da diferen\u00e7a absoluta, onde se enra\u00edza o racismo. Seu fundamento se d\u00e1 na rejei\u00e7\u00e3o \u00e0queles que encarnam um gozo intoler\u00e1vel, na afirma\u00e7\u00e3o das bolhas de certeza dos \u201cn\u00f3s\u201d na guerra mortal contra \u201celes\u201d. A come\u00e7ar, na grande bolha de certeza masculina que foi a cl\u00e1ssica <em>difama\u00e7\u00e3o<\/em> contra as mulheres, segregadas por encarnarem um modo de gozo fora do alcance e que, desde sempre, \u00e9 preciso dominar.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica, <em>encore<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Esta frase, enunciada no <em>Semin\u00e1rio 14<\/em> na aula \u201cO Outro \u00e9 o corpo\u201d, d\u00e1 o alcance sempre atual e pol\u00edtico do discurso anal\u00edtico, desde que o analista seja capaz de interpretar os significantes mestres que se renovam na civiliza\u00e7\u00e3o, sem ser ele mesmo arrastado pela espiral da \u00e9poca. A meu ver, esse \u00e9 o esfor\u00e7o de Lacan ao falar sobre o \u201caprisionamento\u201d dos corpos pelo discurso. Neste cap\u00edtulo, novamente, \u00e9 o analista quem est\u00e1 na berlinda.<\/p>\n<p>\u201cO Outro, caso voc\u00eas ainda n\u00e3o tenham adivinhado, \u00e9 o corpo\u201d, diz Lacan, ainda no <em>Semin\u00e1rio 14<\/em>. \u201cEle \u00e9 feito para ser marcado\u201d <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Com efeito, se o inconsciente \u00e9 o discurso do Outro, n\u00e3o h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o do campo individual do social e pol\u00edtico. O inconsciente \u00e9 transindividual e o corpo necessariamente social. Mas, al\u00e9m disso, ali Lacan j\u00e1 come\u00e7a a explorar o que seria a incid\u00eancia da letra no real do corpo, que carrega as marcas do tecido social da \u00e9poca, tocando a singularidade.<\/p>\n<p>Eric Laurent, analisando <em>A sociedade do sintoma<\/em>, indica que em 1966-67 tratava-se para Lacan de encontrar outra forma de pensar o inconsciente, n\u00e3o mais a partir do pai, mas como algo a definir e, nesse mesmo contexto em que afirma que o <em>Inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica<\/em>, enuncia poeticamente, surpreendendo seu p\u00fablico americano que esperava ouvir sobre o estruturalismo, que o <em>inconsciente \u00e9 Baltimore ao amanhecer<\/em>. Eu cito Laurent: \u201cDe sa\u00edda, Lacan se dirige ao p\u00fablico dizendo que o lugar do inconsciente \u00e9 aquele onde vivem aqueles a quem ele se dirige. Tu, que me escutas, sabes que est\u00e1s submerso, est\u00e1s no pr\u00f3prio lugar do inconsciente. Ele est\u00e1 em ti, tu est\u00e1s nele; est\u00e1s submerso no inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>Como localizar o sujeito do inconsciente? \u2013 Pergunta ent\u00e3o Lacan. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio situ\u00e1-lo como um objeto perdido\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Ele est\u00e1 em todos os lugares e disperso, n\u00e3o se prende a nenhum. Ou seja, ele n\u00e3o aparece aqui representado pelo significante mestre articulado \u00e0 cadeia simb\u00f3lica que o captura, mas na pr\u00f3pria pulsa\u00e7\u00e3o do tecido da repeti\u00e7\u00e3o, na cidade que atualiza o n\u00e3o-todo. Ausente de si, o sujeito \u00e9 arrastado no pr\u00f3prio movimento de \u00eaxtase da repeti\u00e7\u00e3o da \u201cmesmice da marca\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, celebrando a repeti\u00e7\u00e3o de um gozo inesquec\u00edvel. Trata-se do \u201csujeito do gozo\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>, comandado por aquilo que Lacan l\u00ea na placa luminosa de <em>neon<\/em>, na madrugada adentro olhando a cidade pela janela do quarto do hotel, enquanto preparava sua confer\u00eancia: \u201c<em>Enjoy Coca-cola<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel, ao menos para o analista, despertar desse sonho ao \u201camanhecer em Baltimore\u201d? Lacan reitera ao final do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> que \u201co sujeito continua a sonhar em sua vida\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>, olhando o mundo desde a janela de seu fantasma com a tela do discurso do mestre da vez. Portanto, o despertar imposs\u00edvel do inconsciente n\u00e3o deixa de afetar tamb\u00e9m o analista, j\u00e1 que ele mesmo tamb\u00e9m est\u00e1 submerso no inconsciente, no lugar e no tempo em que vive, no inconsciente sempre a definir, jamais plenamente identific\u00e1vel e \u00e0 servi\u00e7o dos mestres da vez. Ele n\u00e3o deixa ser \u201cirm\u00e3o do seu paciente\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>, pois, diz Lacan, \u201ccomo ele, somos filho do discurso\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a>.<\/p>\n<p>Portanto, o analista estar\u00e1 tanto mais \u00e0 altura de sustentar a psican\u00e1lise no mundo, seja aonde for, quanto mais for capaz de dar corpo, com sua presen\u00e7a e seu dizer, n\u00e3o \u00e0 fratria dos corpos, \u00e0 <em>Sociedade de Assist\u00eancia M\u00fatua Contra o Discurso Anal\u00edtico<\/em>, mas a um objeto precioso, ausente no mercado: o vazio em causa do desejo, ali onde qualquer rela\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio queira dele se apossar.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><span style=\"font-size: 10px;\">[1]<\/span><\/a><span style=\"font-size: 10px;\"> Texto apresentado no dia 14 de agosto de 2024 durante a atividade preparat\u00f3ria, na EBP \u2013 Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, para o XXV EBCF.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. (1971-1972) <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; ou pior.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 185.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J.-A. \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas II\u201d<em>. Op\u00e7\u00e3o lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>, ano 2, n. 6, nov.\/2011, p.10.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. (1971-1972) <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; ou pior. <\/em><em>Op. cit<\/em>., p. 227.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. \u201cL\u2019un est lettre\u201d, <em>La Cause du De\u0301sir:<\/em> revue de psychanalyse, n. 107, Navarin. 2021, p. 34.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J. (1971-1972) <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; ou pior. Op. cit<\/em>., p. 221.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem, p. 217.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Lacan, J. \u201cA terceira\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em>, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, Ed. E\u00f3lia, n. 62, dez. 2011, p. 29.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Lacan, J. <em>Le S\u00e9minaire de Jacques Lacan, Livre XIV<\/em>: <em>la logique du fantasme.<\/em> Paris, \u00c9ditions du Seuil, 2023, p. 328 (tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Laurent, \u00c9. <em>A sociedade do sintoma. <\/em>Rio de Janeiro: Contra-capa, 2007, pp.93-94,<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Lacan, J. \u201cConfer\u00eancia em Baltimore\u201d. <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em>, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, Ed. E\u00f3lia, n.77, ag.\/2017, p. 13.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Idem, p. 16.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Idem, p. 19.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Idem, p. 20.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; ou pior<\/em>. <em>Op. cit.<\/em>, p. 226.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Josefina Sota Fuentes (AME da EBP\/AMP) Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer \u00e0s inst\u00e2ncias envolvidas por este convite, que me colocaram diante do desafio de comentar o tema do 25\u00ba Encontro Brasileiro, cujo t\u00edtulo foi extra\u00eddo do \u00faltimo cap\u00edtulo do Semin\u00e1rio 19 de Lacan. Sendo esta uma atividade preparat\u00f3ria[1], pensei em trazer alguns&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-696","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas-e-tons","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=696"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/696\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":811,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/696\/revisions\/811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=696"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}