{"id":693,"date":"2024-10-22T06:13:08","date_gmt":"2024-10-22T09:13:08","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=693"},"modified":"2024-11-04T12:13:53","modified_gmt":"2024-11-04T15:13:53","slug":"triunfo-yoruba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/10\/22\/triunfo-yoruba\/","title":{"rendered":"Triunfo Yorub\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Wilker Fran\u00e7a<br \/>\n<\/em><em>Integrante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura<\/em><\/span><\/p>\n<p>Para iniciar, conto a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do mundo pela cultura Yorub\u00e1 que \u00e9 explicado por meio de uma rica mitologia, que envolve divindades chamadas Orix\u00e1s. As hist\u00f3rias desses deuses s\u00e3o contadas a partir de it\u00e3ns, os relatos m\u00edticos (lendas), transmitidas principalmente pela oralidade. Contudo, relatarei trechos de uma hist\u00f3ria que est\u00e1 presente no livro de Prandi<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Olodumare, deus supremo, encarregou Obatal\u00e1 (Oxal\u00e1) de criar a Terra, que inicialmente consistia apenas de \u00e1gua e caos. Antes de iniciar sua miss\u00e3o, Obatal\u00e1 foi aconselhado por Orunmil\u00e1, o s\u00e1bio <em>orix\u00e1<\/em> do destino, a fazer oferendas, mas ignorou o conselho, confiando apenas em seu poder. Seu irm\u00e3o, Odudua, seguiu as instru\u00e7\u00f5es de Orunmil\u00e1 e fez as oferendas.<\/p>\n<p>No dia da cria\u00e7\u00e3o, Exu, ofendido por n\u00e3o receber oferendas de Obatal\u00e1, quis se vingar e o fez sentir uma sede insaci\u00e1vel, levando-o a beber vinho de palma e adormecer. Odudua, aproveitando a situa\u00e7\u00e3o, tomou o saco da cria\u00e7\u00e3o e criou o mundo com a permiss\u00e3o de Olodumar\u00e9.<\/p>\n<p>Quando Obatal\u00e1 despertou, ficou ciente do ocorrido e ouviu de Olodumar\u00e9: \u201cO mundo j\u00e1 est\u00e1 criado. Perdeste uma grande oportunidade\u201d. Como consequ\u00eancia de sua falha, nem Obatal\u00e1 nem seus descendentes podem beber vinho de palma. Contudo, a miss\u00e3o n\u00e3o estava completamente finalizada. Olodumar\u00e9 lhe confiou a tarefa de moldar os corpos humanos, enquanto ele soprava o sopro da vida, dando origem \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>O mito da cria\u00e7\u00e3o na cultura Yorub\u00e1 se faz com o drama narrativo pr\u00f3prio, um corpo moldado que antes de receber o sopro da vida j\u00e1 era falado, j\u00e1 era disputado e vingado. Se no in\u00edcio era o verbo e se somos filhos do discurso, como nos assinala Lacan no <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, o mito da cria\u00e7\u00e3o pela cultura Yorub\u00e1 j\u00e1 apontava a fraternidade na origem e circunscreve o que claudica como efeito do discurso.<\/p>\n<p>O candombl\u00e9, religi\u00e3o de matriz africana, tem suas ra\u00edzes na tradi\u00e7\u00e3o religiosa e cultural dos povos Iorub\u00e1s. Essa religi\u00e3o \u00e9 ancorada no universo simb\u00f3lico dos mitos, dos c\u00e2nticos e das narrativas, bem como dos mist\u00e9rios, daquilo que \u00e9 da ordem da experimenta\u00e7\u00e3o e que nenhuma palavra \u00e9 capaz de capturar.<\/p>\n<p>Importante destacar que a no\u00e7\u00e3o de alma, como aquilo que transcende, \u00e9 indissoci\u00e1vel da no\u00e7\u00e3o de corpo nessa religi\u00e3o. F\u00e1bio Lima, antrop\u00f3logo baiano, nos diz que no candombl\u00e9 \u201co corpo \u00e9 mais que \u201crepresenta\u00e7\u00f5es\u201d (&#8230;) est\u00e1 entrela\u00e7ado \u00e0 no\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia (&#8230;) fundamentada nos mitos e nas experi\u00eancias corporificadas\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Nos rituais do Candombl\u00e9, a dimens\u00e3o da comunicabilidade est\u00e1 ligada \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de tempo, na medida em que o ritmo que ser\u00e1 seguido, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 previsto com anteced\u00eancia. Letieres Leite, grande m\u00fasico brasileiro, de forma po\u00e9tica, d\u00e1 ind\u00edcios da dimens\u00e3o do corpo, do ritmo e da m\u00fasica no candombl\u00e9: \u201ca dan\u00e7a vem antes. A m\u00fasica olha e toca\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Letieres evidencia que os tambores respondem \u00e0 dan\u00e7a demarcando, assim, uma \u00edntima conex\u00e3o entre a m\u00fasica e os movimentos do corpo. Importante destacar que o corpo n\u00e3o \u00e9 visto como pertencente exclusivamente ao sujeito, nem com fronteiras fixas. A rela\u00e7\u00e3o entre o toque do atabaque, o ritmo e a corporeidade revelam um corpo permeado por influ\u00eancias coletivas e\/ou por for\u00e7as de alteridade significativas. A dan\u00e7a, outro elemento central nos rituais, n\u00e3o \u00e9 ensinada formalmente, mas emerge de um movimento r\u00edtmico e gestual entre o corpo e uma presen\u00e7a, a for\u00e7a do <em>orix\u00e1<\/em>, onde tempo e corpo se entrela\u00e7am, revelando um fluxo entre o interno e o externo<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>J\u00e9sus Santiago<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> destaca, a partir de Freud, uma rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica entre a ren\u00fancia pulsional pr\u00f3pria da religi\u00e3o e a festa que consiste em uma concess\u00e3o ao gozo, sendo um excesso de satisfa\u00e7\u00e3o permitido ou prescrito, pois encarna a viola\u00e7\u00e3o da interdi\u00e7\u00e3o. Nos rituais de candombl\u00e9, est\u00e1 no centro da festa a marca daquilo que se faz estrangeiro ao ser. Como poder\u00edamos pensar a festa que ocorre como parte do rito em que corpos s\u00e3o tomados pela experi\u00eancia m\u00edstica?<\/p>\n<p>Para finalizar, trago um trecho de Lacan que demarca que ele conhecia os orix\u00e1s. Ao interrogar sobre a vontade dos deuses, ele relaciona a natureza do amor com as diferentes inicia\u00e7\u00f5es, com as cerim\u00f4nias das divindades:<\/p>\n<p>(&#8230;) o que quer dizer inicia\u00e7\u00e3o (&#8230;) designando cerim\u00f4nias muito precisas (&#8230;) pode-se encontrar sob a forma de transes ou de fen\u00f4menos de possess\u00e3o (&#8230;) Plat\u00e3o nos diz assim que aqueles que tiveram a inicia\u00e7\u00e3o de Zeus n\u00e3o reagem no amor como aqueles que tiveram a inicia\u00e7\u00e3o de Ares. Substituam esses nomes por aqueles que, em tal estado do Brasil, podem servir para designar tal esp\u00edrito da terra, da guerra, tal divindade soberana &#8211; n\u00e3o estamos aqui para fazer exotismo, mas \u00e9 justamente disso que se trata.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, entende-se que a perman\u00eancia do candombl\u00e9, suas festas ritualizadas e a cultura Yorub\u00e1 na cidade ocorrem muito al\u00e9m do arcabou\u00e7o m\u00edtico ou das quest\u00f5es em torno da ontologia, mas sobretudo a partir do exotismo, daquilo que se faz estrangeiro ao ser e que inclui a exist\u00eancia.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Prandi, R. <em>Mitologia dos orix\u00e1s.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lima, F. <em>Corpo e ancestralidade<\/em>. Repert\u00f3rio, Salvador, n. 24, 2015, p. 19.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Leite, L. <em>apud <\/em>Oiveira, B. <em>A dan\u00e7a vem antes.<\/em> A m\u00fasica olha e toca: a palavra percussiva na can\u00e7\u00e3o brasileira. Jornal liter\u00e1rio da companhia editora de Pernambuco, n. 178, dezembro 2020, p. 7.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Klein, T. <em>Cad. Psican\u00e1l.<\/em> (CPRJ), Rio de Janeiro, v. 44 n. 47, p. 69-91, jul.\/dez. 2022.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Santiago, J. <em>A religi\u00e3o \u00e9 sintoma<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/medium.com\/@zadigdocesebarbaros\/a-religi%C3%A3o-%C3%A9-sintoma-76cded813155\">https:\/\/medium.com\/@zadigdocesebarbaros\/a-religi%C3%A3o-%C3%A9-sintoma-76cded813155<\/a> Acessado em: 13\/09\/2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J. (1959-1960). <em>O Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 307. Este trecho foi um precioso achado de Iordan Gurgel e citado no F\u00f3rum La movida Zadig Doces &amp; B\u00e1rbaros, realizado em Salvador no dia 13 de setembro de 2024.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilker Fran\u00e7a Integrante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura Para iniciar, conto a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do mundo pela cultura Yorub\u00e1 que \u00e9 explicado por meio de uma rica mitologia, que envolve divindades chamadas Orix\u00e1s. 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