{"id":680,"date":"2024-10-22T06:09:21","date_gmt":"2024-10-22T09:09:21","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=680"},"modified":"2024-11-04T12:14:04","modified_gmt":"2024-11-04T15:14:04","slug":"a-ciranda-de-lia-uma-roda-ante-o-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/10\/22\/a-ciranda-de-lia-uma-roda-ante-o-racismo\/","title":{"rendered":"A ciranda de Lia: uma roda ante o racismo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Nelson Matheus<br \/>\n<\/em><em>Integrante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura<\/em><em>\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p>\u201c<em>Na ciranda me batizei e estou aqui com a ciranda no meio do mundo<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. \u00c9 assim que Lia de Itamarac\u00e1 apresenta sua rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com essa express\u00e3o da cultura popular nordestina, a ciranda, uma conjuga\u00e7\u00e3o entre dan\u00e7a e musicalidade, uma causa para sua vida. Foi atrav\u00e9s da ciranda que Lia fez um nome que deu um contorno \u00e0 sua exist\u00eancia e se tornou, ela mesma, um <em>Patrim\u00f4nio Vivo da Cultura de Pernambuco<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup><strong>[2]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Seu reconhecimento, a partir da d\u00e9cada de 1960, advindo por meio de suas parcerias de trabalho com a compositora Teca Calazans, entretanto, n\u00e3o blindou Lia da experi\u00eancia de racismo que sofreu ao longo de sua vida. &#8216;Escurinha&#8217;, &#8216;boneca de piche&#8217; e &#8216;empregadinha&#8217; foram alguns dos adjetivos utilizados pelo jornalista que escreveu uma mat\u00e9ria, de 1973, onde descreve pela primeira vez a exist\u00eancia de Lia de Itamarac\u00e1, at\u00e9 ent\u00e3o conhecida em todo o pa\u00eds somente como personagem de uma famosa ciranda, intitulada &#8220;<em>Quem me deu foi Lia<\/em>&#8220;, de 1969. Esse recorte revela a naturaliza\u00e7\u00e3o do racismo e da tentativa de segrega\u00e7\u00e3o que visava apresentar Lia e faz\u00ea-la desaparecer, a um s\u00f3 tempo.<\/p>\n<p>Freud, em seu &#8220;<em>Mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>&#8220;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>,\u00a0 j\u00e1 havia apontado para a segrega\u00e7\u00e3o como tendo sua raiz naquilo que se articularia ao gozo. Ser\u00e1 sobre &#8220;<em>uma poderosa quota de agressividade<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> que girar\u00e1 a sua tese sobre o tema. Sobre a possibilidade de considerar o amor uma via pela qual a segrega\u00e7\u00e3o pudesse ser superada, ele escreve que o outro s\u00f3 \u201c<em>merecer\u00e1 meu amor, se for de tal modo semelhante a mim, que eu possa me amar nele<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Os efeitos desse narcisismo das pequenas diferen\u00e7as demonstram na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o as marcas terr\u00edveis que fizeram do outro, incont\u00e1veis vezes, um objeto de abuso, de viol\u00eancia, de submiss\u00e3o, pass\u00edvel de entrar numa l\u00f3gica utilitarista, de explora\u00e7\u00e3o e de morte.<\/p>\n<p>Nessa mesma dire\u00e7\u00e3o, Lacan vai falar da palavra <em>irm\u00e3o<\/em>, um paradoxo quando se toma como refer\u00eancia o discurso comum. Ele o faz a fim de sublinhar aquilo que se enra\u00edza no corpo, a saber, o gozo. Sobre isso, dir\u00e1 que \u00e9 numa \u201cfraternidade do corpo\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> que reside a raiz do racismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para pensar que o racismo \u00e9 um tema menor, ou mesmo que n\u00e3o pertence \u00e0 atualidade. Nossa pr\u00e1xis n\u00e3o deixa de nos revelar exatamente a sua presen\u00e7a constante e insistente nos enredos pelos quais a l\u00edngua faz a civiliza\u00e7\u00e3o existir. O que parece incontorn\u00e1vel \u00e9 saber o que poderia se instalar como poss\u00edvel tratamento dos racismos que se apresentam e seguir\u00e3o se apresentando no mundo, se haveria uma solu\u00e7\u00e3o universal para tratar desse gozo em sua pluralidade a partir de nossa \u00e9tica.<\/p>\n<p>Filha de cirandeira, Lia, que sempre morou em Pernambuco \u2013 estado com maior tradi\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a de roda \u2013, na Ilha cujo nome carrega como seu, j\u00e1 nasceu dan\u00e7ando e cantando! A Ciranda representa, por suas m\u00fasicas e por meio de seus movimentos, os ciclos da vida, o balan\u00e7o do mar e as brincadeiras de crian\u00e7a. Nela, os que ali est\u00e3o se d\u00e3o as m\u00e3os em um c\u00edrculo fechado e dan\u00e7am numa \u00fanica dire\u00e7\u00e3o. &#8220;<em>Minha ciranda n\u00e3o \u00e9 minha s\u00f3 \/ Ela \u00e9 de todos n\u00f3s [&#8230;] Pra se dan\u00e7ar ciranda \/ Juntamos m\u00e3o com m\u00e3o \/ Formando uma roda \/ Cantando uma can\u00e7\u00e3o<\/em>&#8220;<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O mar, elemento central da vida de Lia de Itamarac\u00e1, adv\u00e9m entrela\u00e7ado \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 ancestralidade que ela canta e dan\u00e7a. Sua for\u00e7a est\u00e1 em buscar na valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular um modo de reafirmar o que da cultura afro-brasileira se faz presente ao longo das gera\u00e7\u00f5es. Em um dos passos da ciranda, no compasso da m\u00fasica, o p\u00e9 esquerdo avan\u00e7a, depois dois atr\u00e1s e mais um \u00e0 frente, voltando para o centro da roda de novo. Ao centro, todos erguem as m\u00e3os. Cada passo com o p\u00e9 esquerdo se alinha com o ritmo da zabumba; os ombros balan\u00e7am na dire\u00e7\u00e3o da roda onde o corpo segue um movimento de vai e vem, imitando uma onda do mar.<\/p>\n<p>Lia parece de algum modo ter encontrado um enganche entre o que \u00e9 do universal, aquilo que pertence \u00e0 cultura, com o que lhe seria pr\u00f3prio, ao saber dar dignidade \u00e0s marcas de sua diferen\u00e7a. Fez dessa tentativa de fazer dela algo de abjeto o objeto de seu trabalho. Em entrevista \u00e0 Continente, diz que \u201c<em>a ciranda n\u00e3o tem preconceito. Dan\u00e7a preto, dan\u00e7a branco, dan\u00e7a pobre, dan\u00e7a todo mundo. <\/em>Caiu na roda, dan\u00e7a!&#8221;<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. E que o racismo se enfrenta de frente. \u201cLia morre, mas fica a nota no mundo, o trabalho que Lia fez no mundo, j\u00e1 ficou\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>, ela diz. E canta: &#8220;<em>Eu sou Lia da beira do mar \/ Morena queimada do sal e do sol \/ Da Ilha de Itamarac\u00e1<\/em>&#8220;<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"wpex-responsive-media\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"\u00c1frica de Itamarac\u00e1\" width=\"980\" height=\"551\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vvJhZSJsdng?feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/span><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> \u201cLia de Itamarac\u00e1 e cultura popular brasileira\u201d. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/reportagens\/lia-de-itamaraca-e-cultura-popular-brasileira\/\">https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/reportagens\/lia-de-itamaraca-e-cultura-popular-brasileira\/<\/a><\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Lia de Itamarac\u00e1 foi uma das contempladas como Patrim\u00f4nio Vivo de Pernambuco, atrav\u00e9s da Lei estadual n\u00ba 12.196 de 2 de maio de 2002.<\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Freud, S. (1930). \u201cMal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 1976.<\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Idem, p. 133.<\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Idem, p. 131.<\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: \u2026ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 227.<\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> M\u00fasica: \u201c<em>Minha ciranda<\/em>\u201d. Composi\u00e7\u00e3o: Capiba.<\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> \u201cUm Espa\u00e7o para a Itamarac\u00e1 de Lia\u201d. Link de Acesso: <a href=\"https:\/\/revistacontinente.com.br\/secoes\/reportagem\/um-espaco-para-a-itamaraca-de-lia\">https:\/\/revistacontinente.com.br\/secoes\/reportagem\/um-espaco-para-a-itamaraca-de-lia<\/a><\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> \u201cLia de Itamarac\u00e1 e cultura popular brasileira\u201d. Link de acesso: <a href=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/reportagens\/lia-de-itamaraca-e-cultura-popular-brasileira\/\">https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/reportagens\/lia-de-itamaraca-e-cultura-popular-brasileira\/<\/a><\/span><\/h6>\n<h6><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> M\u00fasica: \u201c<em>Eu Sou Lia (Ciranda de Lia)<\/em>\u201d. Composi\u00e7\u00e3o: Paulo Viola do Recife.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Matheus Integrante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura\u00a0 \u201cNa ciranda me batizei e estou aqui com a ciranda no meio do mundo\u201d[1]. \u00c9 assim que Lia de Itamarac\u00e1 apresenta sua rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com essa express\u00e3o da cultura popular nordestina, a ciranda, uma conjuga\u00e7\u00e3o entre dan\u00e7a e musicalidade, uma causa para sua vida. 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