{"id":618,"date":"2024-09-24T18:07:07","date_gmt":"2024-09-24T21:07:07","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=618"},"modified":"2024-11-04T12:07:17","modified_gmt":"2024-11-04T15:07:17","slug":"a-cicatriz-da-evaporacao-do-pai-e-a-segregacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/09\/24\/a-cicatriz-da-evaporacao-do-pai-e-a-segregacao\/","title":{"rendered":"A cicatriz da evapora\u00e7\u00e3o do pai e a segrega\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Elisa Alvarenga (AME da EBP\/AMP)<\/p>\n<p>A \u201cNota sobre o pai\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> de Jacques Lacan foi um coment\u00e1rio realizado por Lacan sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de Michel de Certeau \u2013 jesu\u00edta, fil\u00f3sofo e historiador das religi\u00f5es que participou da cria\u00e7\u00e3o da Escola Freudiana de Paris \u2013 sobre \u201cO que Freud fez da hist\u00f3ria\u201d, comentando o texto de Freud sobre \u201cUma neurose demon\u00edaca no s\u00e9culo XVII\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud estuda o caso do pintor Christoph Haizmann, que tinha dificuldades de sustentar-se e que afirmava ter vendido a alma ao dem\u00f4nio em troca de dinheiro. O pai havia adoecido e morrido. O sujeito aproxima-se de uma comunidade de padres, pelos quais \u00e9 exorcizado. Ele lhes apresenta um documento que seria o pacto assinado com o diabo, conseguindo guarida junto a essa comunidade religiosa. O \u00f3dio reprimido ao pai se traduz na deprecia\u00e7\u00e3o do pai, transformado em diabo afeminado nos desenhos do pintor. Para Freud, ao retroceder diante de uma posi\u00e7\u00e3o feminina frente ao pai, ele usaria esse artif\u00edcio para castrar o pai, denegando sua pr\u00f3pria castra\u00e7\u00e3o. A feminiza\u00e7\u00e3o do diabo revelaria tamb\u00e9m uma fixa\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e todo-poderosa, defendendo-o da castra\u00e7\u00e3o materna. Embora fosse um homem acometido por convuls\u00f5es e alucina\u00e7\u00f5es visuais, numa suposta possess\u00e3o demon\u00edaca, Freud o considera um caso de neurose em busca da prote\u00e7\u00e3o paterna, que conseguiu junto \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o dos Irm\u00e3os da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Em sua nota, Lacan diz que a possess\u00e3o no s\u00e9culo XVII deve ser compreendida em certo contexto relativo ao pai, mas a quest\u00e3o que Michel de Certeau coloca \u2013 o que acontece quando n\u00e3o h\u00e1 mais pai a quem se votar?\u00a0 \u2013 \u00e9 de saber onde estamos em rela\u00e7\u00e3o ao pai. \u00c9 a\u00ed que Lacan enuncia a c\u00e9lebre frase: \u201cParece-me que, em nossa \u00e9poca, o vest\u00edgio, a cicatriz da evapora\u00e7\u00e3o do pai \u00e9 o que poder\u00edamos situar sob a rubrica e o t\u00edtulo geral de segrega\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao substituir o Nome do Pai pelo S<sub>1<\/sub>, significante mestre, Lacan aponta que o efeito de interdi\u00e7\u00e3o ou de castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exercido pelo pai, mas pela linguagem. Desde 1938, nos &#8220;Complexos familiares&#8221;<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, ele anunciava o decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna e, no final do Semin\u00e1rio 10, ao pluralizar o Nome do Pai, antecipa que ele vai se tornar um predicado, uma fun\u00e7\u00e3o de amarra\u00e7\u00e3o, enfim, um sintoma. A amarra\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas registros, borromeana ou n\u00e3o, \u00e9 uma radical redu\u00e7\u00e3o do sentido edipiano e uma maneira de anunciar que o sintoma pode cifrar o gozo, em vez de nos enviar uma mensagem.<\/p>\n<p>Como seriam ent\u00e3o produzidos os efeitos de segrega\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o pela linguagem, ou pelas marcas de gozo que nos foram feitas pelo banho do corpo em lal\u00edngua? Sobre essa marca primeira, aquilo que \u00e9 mais pr\u00f3prio ao falasser, por\u00e9m mais desconhecido por ele, se constroem as identifica\u00e7\u00f5es aos significantes do Outro, assim como a fantasia, rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o objeto do seu gozo. As identifica\u00e7\u00f5es, por um lado, e as fantasias, por outro, s\u00e3o eminentemente segregativas de modos de gozo diferentes daquele do sujeito. Por isso a an\u00e1lise, ao percorrer o caminho inverso ao da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 marca de gozo do sinthoma, permite ao falasser encontrar a alteridade que o habita e consentir com a alteridade do corpo que tem. Se os arranjos inconscientes levam o falasser \u00e0 demanda de an\u00e1lise, podemos pensar que as marcas do inconsciente real, ao endere\u00e7ar-se a um analista, podem fazer existir o inconsciente transferencial para tratar o real do gozo.<\/p>\n<p>Freud, em \u201cAs puls\u00f5es e seus destinos\u201d, considera o amor e o \u00f3dio como destinos da puls\u00e3o, que reproduzem a polaridade prazer-desprazer. \u201cO amor adv\u00e9m da capacidade do eu de satisfazer de modo autoer\u00f3tico uma parte de suas mo\u00e7\u00f5es pulsionais\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Originalmente narc\u00edsico, passa para os objetos incorporados, expressando os esfor\u00e7os em dire\u00e7\u00e3o a esses objetos fontes de prazer e posteriormente \u00e0 atividade das puls\u00f5es sexuais. O \u00f3dio, em rela\u00e7\u00e3o com um objeto, \u00e9 mais antigo que o amor: ele brota do rep\u00fadio primordial do eu narc\u00edsico perante o mundo externo. Como exterioriza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de desprazer provocada pelos objetos, ele permanece em rela\u00e7\u00e3o com as puls\u00f5es de autoconserva\u00e7\u00e3o, que junto \u00e0s puls\u00f5es sexuais, reproduziriam a oposi\u00e7\u00e3o entre o \u00f3dio e o amor na primeira teoria das puls\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, a segrega\u00e7\u00e3o primeira e fundamental, para cada um, \u00e9 da subst\u00e2ncia gozante que o habita. A matriz segregativa da identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 antes de tudo contra si mesmo, na medida em que \u00e9 um modo de recusa do objeto ao qual se est\u00e1 identificado e que \u00e9 Um mesmo. O que se segrega \u00e9 o gozo encapsulado na identifica\u00e7\u00e3o, alimento privilegiado do \u00f3dio. Com a dilui\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es, a satisfa\u00e7\u00e3o pode separar-se do \u00f3dio e \u00e9 poss\u00edvel reconhecer a alteridade radical do Outro: o gozo do Outro n\u00e3o \u00e9 o gozo do Um.<\/p>\n<p>Como diz Christiane Alberti, a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise conduz a distanciar-se das identifica\u00e7\u00f5es de massas, sempre segregativas, para considerar o m\u00faltiplo das escolhas do desejo e do gozo. A resposta da psican\u00e1lise \u00e9 sempre anti-segregativa, pois leva o sujeito a tomar dist\u00e2ncia das identifica\u00e7\u00f5es que empurram os indiv\u00edduos a situar-se em um grupo contra outro. A psican\u00e1lise nos conduz a apostar em um coletivo que d\u00ea lugar a esta pluralidade do Um que inclui o m\u00faltiplo, um coletivo fundado sobre a solid\u00e3o de cada um. Atrav\u00e9s da transfer\u00eancia, o tratamento traz uma resposta para cada sujeito, em sua diferen\u00e7a absoluta, diante dos impasses que encontra no la\u00e7o social<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. \u201cNota sobre o pai\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, <\/em>n. 71. S\u00e3o Paulo: Eolia, nov. 2015, pp. 7-8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Freud, S. \u201cUma neurose demon\u00edaca do s\u00e9culo XVII\u201d. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de S. Freud<\/em>, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996, pp. 87-120.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. \u201cNota sobre o pai\u201d. <em>Op. cit.<\/em>, p. 7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. \u201cOs Complexos familiares na forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, pp.29-90.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Freud, S. <em>As puls\u00f5es e seus destinos<\/em>. <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2013, p. 61.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Alberti, C. <em>El lazo entre los que hablan<\/em>, Conferencia en el Taller Cl\u00ednico de Cochabamba. Texto de Orientaci\u00f3n hacia las 31 Jornadas Anuales de la EOL.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elisa Alvarenga (AME da EBP\/AMP) A \u201cNota sobre o pai\u201d[1] de Jacques Lacan foi um coment\u00e1rio realizado por Lacan sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de Michel de Certeau \u2013 jesu\u00edta, fil\u00f3sofo e historiador das religi\u00f5es que participou da cria\u00e7\u00e3o da Escola Freudiana de Paris \u2013 sobre \u201cO que Freud fez da hist\u00f3ria\u201d, comentando o texto de Freud&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[13,7],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-notas-e-tons","category-textos","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=618"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":802,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/618\/revisions\/802"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=618"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}