{"id":614,"date":"2024-09-24T18:05:20","date_gmt":"2024-09-24T21:05:20","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=614"},"modified":"2024-11-04T12:07:22","modified_gmt":"2024-11-04T15:07:22","slug":"a-segregacao-enraizada-na-fraternidade-do-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/09\/24\/a-segregacao-enraizada-na-fraternidade-do-corpo\/","title":{"rendered":"A segrega\u00e7\u00e3o enraizada na fraternidade do corpo"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e9sus Santiago (AME da EBP\/AMP)<\/p>\n<p>A religi\u00e3o define-se, em Freud, como uma experi\u00eancia que tem como condi\u00e7\u00e3o a<em> ren\u00fancia pulsional<\/em> (<em>Triebversizicht<\/em>), que se constitui como o terreno sob o qual floresce o que \u00e9 essencial na subjetividade do religioso, ou seja, a dimens\u00e3o da cren\u00e7a. A cren\u00e7a (<em>Glauben<\/em>) aparece problematizada a partir do que se conceitua como <em>ilus\u00e3o <\/em>(<em>Illusion<\/em>), visto que, nesta, a realiza\u00e7\u00e3o de desejo passa para o primeiro plano e, assim fazendo-se, o religioso desiste de sua rela\u00e7\u00e3o com a realidade e mesmo da comprova\u00e7\u00e3o de sua veracidade.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> A delimita\u00e7\u00e3o do elemento subjetivo da \u201cilus\u00e3o\u201d exige o pressuposto do diagn\u00f3stico nada otimista do mal-estar na cultura, do qual se deduzem impasses e fracassos para estabelecer o la\u00e7o social civilizado. Isso se explica pelos encontros sucessivos do \u201ctrabalho da cultura\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> (<em>Kulturarbeit<\/em>) com a <em>Anank\u00ea <\/em>(necessidade), concebida como a Deusa da inevitabilidade, personifica\u00e7\u00e3o do real que emerge no car\u00e1ter, ao mesmo tempo, necess\u00e1rio e imprevis\u00edvel do destino. Esse fracasso do \u201ctrabalho da cultura\u201d sobre os seres falantes se formula, segundo Freud, como a impossibilidade de dom\u00ednio das for\u00e7as que prov\u00eam da \u201crealidade exterior\u201d (<em>Anank\u00ea<\/em>) e da extra\u00e7\u00e3o destas de seus bens para a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>A religi\u00e3o em face da necessidade de discurso (<em>Anank\u00ea<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto discurso, a religi\u00e3o \u00e9 concebida como resposta a esse real que se manifesta no fator de impot\u00eancia e de desamparo dos humanos, frente ao trabalho imposs\u00edvel do Outro da cultura (<em>Logos<\/em>: raz\u00e3o).<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Para Freud, a cultura se mostra inapta para dar conta do que adv\u00e9m como \u201ca implac\u00e1vel lei da natureza\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, que ele pr\u00f3prio ousou nomear por meio da divindade grega denominada <em>Anank\u00ea<\/em>. A qualifica\u00e7\u00e3o dessa tend\u00eancia implac\u00e1vel segundo a figura de uma lei perempt\u00f3ria e impositiva n\u00e3o nos autoriza, por outro lado, a reduzi-la a uma mera necessidade proveniente da natureza. Quando o princ\u00edpio do prazer se mostra insuficiente para interpretar os fen\u00f4menos diversos da vida civilizada, a <em>Anank\u00ea <\/em>emerge, no texto de Freud, como a vontade de um Deus que se incrusta no homem por meio das \u201cpot\u00eancias, as mais obscuras do destino\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Lacan, por\u00e9m, d\u00e1 prosseguimento \u00e0s constru\u00e7\u00f5es freudianas de \u201cO futuro de uma ilus\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> segundo uma outra perspectiva, ao propor que a <em>Anank\u00ea<\/em> apenas tem o seu come\u00e7o no ser falante e tudo o que se produz a partir dela \u00e9 sempre obra do discurso.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Para al\u00e9m de uma divindade que encarna a vontade de Deuses furiosos e obscuros, a <em>Anank\u00ea <\/em>se imp\u00f5e como um atributo do destino no ser falante e, portanto, ela emerge como puro <em>automatismo de repeti\u00e7\u00e3o<\/em>, inerente \u00e0 puls\u00e3o de morte, isto \u00e9, como \u201cnecessidade do discurso\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>. Em outros termos, a <em>Anank\u00ea<\/em> n\u00e3o est\u00e1 fora do ser falante, como se ela fosse uma representante da realidade exterior ou de uma suposta lei da natureza. A <em>Anank\u00ea<\/em> \u00e9, em si mesma e por si mesma, a pr\u00f3pria <em>repeti\u00e7\u00e3o,<\/em> ou seja, em sua rela\u00e7\u00e3o <em>moebiana <\/em>com o real, ela faz parte da vida que se demonstra ser apenas \u201cnecessidade de discurso\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>. A religi\u00e3o s\u00f3 tem lugar na vida dos homens em raz\u00e3o de que s\u00e3o dotados de parcos recursos para resistir ao que se concebe como a puls\u00e3o de morte e, por consequ\u00eancia, \u00e0s in\u00fameras conting\u00eancias advindas da <em>insist\u00eancia repetitiva<\/em> do real.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Enfim, para n\u00e3o sucumbirem \u00e0 lei implac\u00e1vel da <em>Anank\u00ea<\/em> \u2013<em> necessidade do retorno ao zero do inanimado<\/em><a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> <em>\u2013<\/em>, \u00e9 exigido deles esse aparelho dos semblantes que s\u00e3o os discursos.<\/p>\n<p>Assim, h\u00e1 um desacordo e mesmo uma discord\u00e2ncia fundamental entre os aparelhos de discurso e a <em>insist\u00eancia repetitiva<\/em> do real, sendo que a cren\u00e7a religiosa se ergue em fun\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de descontinuidade entre elas. A ilus\u00e3o de que existe um Outro onipotente e absoluto <em>\u2013 Deus-Pai \u2013<\/em> \u00e9, no fundo, uma <em>denega\u00e7\u00e3o<\/em> do que foi perdido para sempre e que se presentifica na impossibilidade de os discursos pr\u00f3prios ao la\u00e7o civilizat\u00f3rio abarcarem tudo aquilo que adv\u00e9m dessa figura sem rosto e enigm\u00e1tica do destino que \u00e9 a <em>Anank\u00ea. <\/em>Se a cren\u00e7a religiosa existe para preservar a ilus\u00e3o dos homens na onipot\u00eancia do Outro, a religi\u00e3o apenas se funda em torno dessa perda fundamental, considerada como a presen\u00e7a do real contingente no \u00e2mbito do la\u00e7o social.<\/p>\n<p><strong>Opera\u00e7\u00e3o discursiva de dar sentido ao real <\/strong><\/p>\n<p>Logo, Freud constr\u00f3i o que ele mesmo nomeia como o \u201cmito cient\u00edfico do pai da horda origin\u00e1ria\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> para dar conta desse efeito da perda origin\u00e1ria sobre os homens \u2013 verdadeira figura do furo no real \u2013 que, segundo ele, \u00e9 a fonte \u00faltima da cren\u00e7a religiosa. Esse mito relata que, uma vez consumada a morte do pai, os filhos, tomados de remorso, arrumam-se para dar vida ao morto. Para dar vida ao pai morto, Lacan prop\u00f5e, inicialmente, nome\u00e1-lo como o <em>pai simb\u00f3lico <\/em>que, em momentos cruciais da exist\u00eancia, assume a vestimenta do <em>pai imagin\u00e1rio<\/em>, o qual \u00e9, nada mais, nada menos, que a ressurg\u00eancia fantasm\u00e1tica do <em>pai real<\/em> do estado de natureza pr\u00f3pria da horda primitiva. A cren\u00e7a religiosa se apresenta, assim, referida por um <em>Deus-Pai <\/em>que, sob as suas diversas vers\u00f5es \u2013 inclusive a do <em>pai imagin\u00e1rio <\/em>\u2013, torna poss\u00edvel manter a ilus\u00e3o de poder recuperar uma parte do gozo de si, supostamente perdido.<\/p>\n<p>Lacan, no entanto, pretende ir al\u00e9m da concep\u00e7\u00e3o freudiana da religi\u00e3o como sintoma no sentido do retorno do recalcado, considerando que a figura de <em>Deus-Pai,<\/em> nesse caso, restringe-se a ser um substituto ilus\u00f3rio do pai terr\u00edvel e onipotente. O processo que a psican\u00e1lise pode levar adiante acerca do discurso religioso busca tom\u00e1-lo como sintoma, n\u00e3o apenas no sentido de uma <em>forma\u00e7\u00e3o substitutiva<\/em>, mas, sobretudo, interrogar as rela\u00e7\u00f5es do discurso religioso com o real. Com efeito, a religi\u00e3o \u00e9 sintoma, na medida em que se constitui como um discurso em condi\u00e7\u00f5es de lidar com as irrup\u00e7\u00f5es do real nas falhas do saber e por meio da conjun\u00e7\u00e3o entre a verdade e o sentido. Na qualidade de discurso, ela visa a curar os homens do <em>imposs\u00edvel de suportar<\/em>, pr\u00f3prio ao que, na vida civilizada, n\u00e3o funciona, isto \u00e9, fazer com que os homens n\u00e3o percebam isso que <em>n\u00e3o funciona<\/em>.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> A esse respeito, em \u201cO triunfo da religi\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>, Lacan fornece um esclarecimento essencial, pois \u00e9 preciso, segundo ele, diferenciar o que<em> funciona <\/em>do que <em>n\u00e3o funciona.<\/em> Se \u201co que funciona \u00e9 o mundo, o que n\u00e3o funciona \u00e9 o real\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>. Apesar da presen\u00e7a maci\u00e7a da ci\u00eancia no mundo, isso que <em>n\u00e3o funciona<\/em> se estende cada vez mais e se intromete em nossas vidas e, por isso mesmo, a religi\u00e3o \u00e9 convocada para apaziguar os cora\u00e7\u00f5es.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Se a ci\u00eancia introduz um monte de coisas perturbadoras na vida de todos, a religi\u00e3o encontra a sua chance e seus recursos em seu ato de conferir sentido \u00e0s idas e vindas do que <em>n\u00e3o funciona.<\/em> Para Lacan, o essencial da religi\u00e3o \u00e9 sua efic\u00e1cia em dar sentido a qualquer coisa por meio de uma opera\u00e7\u00e3o discursiva que faz equivaler o sentido com a verdade. Em outros termos, o sentido da cren\u00e7a religiosa apenas se sustenta se ele \u00e9 vivido como verdadeiro. Como vamos tratar mais adiante, \u00e9 somente ao reconhecer a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a verdade que se p\u00f4de afirmar que desde \u201co seu come\u00e7o, tudo o que \u00e9 religi\u00e3o consiste em dar sentido \u00e0s coisas que outrora eram coisas naturais\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>. Por essa raz\u00e3o, Lacan emprega, de forma arriscada, a no\u00e7\u00e3o de \u201creligi\u00e3o verdadeira\u201d<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> para o cristianismo, tendo em vista que seu aparelho de semblantes manifesta uma grande pot\u00eancia em produzir sentido. Afirmar que existe uma religi\u00e3o verdadeira n\u00e3o quer dizer que exista <em>A<\/em> religi\u00e3o. Ou seja, as religi\u00f5es existem, uma a uma, e fazem sintoma de um modo diverso uma das outras. Evidentemente que, diante disso, cada religi\u00e3o v\u00ea a si pr\u00f3pria como verdadeira e v\u00ea as outras como parcialmente ou totalmente falsas. Se as religi\u00f5es constituem uma variedade em que cada uma faz sintoma \u00e0 sua maneira, sendo que cada uma se v\u00ea como verdadeira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras, por que, ent\u00e3o, afirmar que existe uma religi\u00e3o verdadeira?<\/p>\n<p><strong>Da ilus\u00e3o \u00e0 verdade\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Em recente entrevista, Jacques-Alain Miller, na tentativa de esclarecer o problema das rela\u00e7\u00f5es da religi\u00e3o com a verdade, pergunta ao fil\u00f3sofo R\u00e9mi Brague, especialista na filosofia da religi\u00e3o: \u201cLacan apenas reconhecia ao catolicismo a qualidade de religi\u00e3o propriamente dita. O que voc\u00ea acha disto?\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>. O fil\u00f3sofo responde que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">[&#8230;]h\u00e1 bastante verdade nessa ideia de Lacan, mesmo se n\u00e3o estou seguro sobre a compreens\u00e3o exata do que ele quis dizer. Sob o meu ponto de vista, eu diria que o cristianismo (cat\u00f3lico, mas tamb\u00e9m protestante ou ortodoxo) \u00e9 talvez a \u00fanica religi\u00e3o que n\u00e3o seja nada mais que uma religi\u00e3o. As religi\u00f5es gregas ou romanas eram aquelas da cidade e, logo, insepar\u00e1veis da pol\u00edtica. O juda\u00edsmo \u00e9 certamente uma religi\u00e3o, mas tamb\u00e9m um povo. O isl\u00e3 \u00e9 tamb\u00e9m uma religi\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma lei, um c\u00f3digo moral. O cristianismo n\u00e3o acrescenta ao Dec\u00e1logo novos mandamentos que seriam pr\u00f3prios, pois se contenta com a moral comum.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Tudo indica que a resposta do fil\u00f3sofo comprova a tese acerca do modo variado com o qual as religi\u00f5es se constituem como sintoma e, por consequ\u00eancia, como resposta ao real. Justamente, como resposta ao real, a religi\u00e3o \u00e9 vista para al\u00e9m do fator alienante da ilus\u00e3o, na medida em que ela \u00e9 o terreno no qual se capta efeitos de verdade, tais como a sua condi\u00e7\u00e3o de gerar o pertencimento a um povo, ou mesmo de produzir leis que funcionem como um c\u00f3digo moral dispon\u00edvel para a conviv\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Se Lacan opta por tratar o fen\u00f4meno religioso por meio da quest\u00e3o da verdade \u00e9 porque sabe que o fato decisivo para aquele que cr\u00ea e adere, por escolha ou por tradi\u00e7\u00e3o, a uma religi\u00e3o, diz respeito ao objeto mesmo de sua cren\u00e7a. Ao fazer uso do verdadeiro para qualificar o cristianismo, Lacan, a meu ver, n\u00e3o busca estabelecer uma oposi\u00e7\u00e3o entre uma cren\u00e7a que seria falsa ou fict\u00edcia e, outra, que seria verdadeira. A verdade de uma cren\u00e7a, tendo ela surgido no interior da religi\u00e3o judaica, crist\u00e3, ou mu\u00e7ulmana, liga-se \u00e0 verdade suposta do objeto da cren\u00e7a, presente em cada uma delas. Essa determina\u00e7\u00e3o fundamental da cren\u00e7a sobre ela pr\u00f3pria remete ao car\u00e1ter intr\u00ednseco do discurso religioso, de tal modo que cada religi\u00e3o se coloca, para si mesma, como verdadeira. Com a \u00eanfase na quest\u00e3o da verdade, rompe-se com o sil\u00eancio de uma quest\u00e3o nevr\u00e1lgica e fundamental para os rumos e o futuro da cren\u00e7a religiosa, pois, como afirma o fil\u00f3sofo, a religi\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o precisou de outros recursos al\u00e9m da pr\u00f3pria cren\u00e7a religiosa. Por isso mesmo, ela adquiriu uma certa pot\u00eancia para conferir sentido \u00e0s ocorr\u00eancias contingenciais do real.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Freud, em \u201cO mal estar da cultura\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>, d\u00e1 provas de que \u00e9 preciso ir al\u00e9m de sua abordagem da cren\u00e7a religiosa centrada no fator imagin\u00e1rio da ilus\u00e3o, na medida em que procura defini-la como uma \u201cconstru\u00e7\u00e3o substitutiva\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a> (<em>Hilfskonstruktion<\/em>), que permite ao homem suportar as press\u00f5es da vida civilizada. Isso quer dizer que a cren\u00e7a religiosa se suporta sob a forma de uma aparelhagem de semblantes que, em sua pretens\u00e3o de responder sobre o sentido da vida, visa a tratar o real do sofrimento humano. Para al\u00e9m da quest\u00e3o da ilus\u00e3o, em que a religi\u00e3o aparece como fator de aliena\u00e7\u00e3o, Lacan demonstra que \u00e9 preciso enxerg\u00e1-la como uma modalidade de discurso cujo centro de gravidade s\u00e3o seus efeitos de verdade. Como discurso que captura sujeitos por meio de seus efeitos de verdade, opera-se um deslocamento na abordagem da cren\u00e7a como ilus\u00e3o, pois esta deixa de ser um atributo exclusivo da religi\u00e3o. Se todo discurso \u00e9 uma fonte geradora de efeitos de verdade, \u00e9 inevit\u00e1vel admitir a presen\u00e7a, neles, do componente da cren\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que, ao se perguntar sobre os efeitos de verdade do discurso religioso, Lacan \u00e9 conduzido a tomar como pressuposto a disjun\u00e7\u00e3o entre cren\u00e7a e religi\u00e3o. A cren\u00e7a faz parte de todas as formas de discurso, inclusive, e, sobretudo, do discurso da ci\u00eancia. O cientista, para Lacan, acredita em Deus sob o modo do <em>sujeito-suposto-saber<\/em>, pois ele \u00e9 portador da cren\u00e7a de que o real \u00e9 regido por leis e, por consequ\u00eancia, nele, aloja-se um saber. A sua insist\u00eancia em mostrar que \u201ctodo mundo \u00e9 religioso, mesmo os ateus\u201d<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>, \u00e9 uma prova de que n\u00e3o h\u00e1 equival\u00eancia entre cren\u00e7a e religi\u00e3o. Em fun\u00e7\u00e3o dessa disjun\u00e7\u00e3o, as formula\u00e7\u00f5es que o ensino de Lacan promove sobre a religi\u00e3o levam em conta a sua confronta\u00e7\u00e3o com outras formas de discursos, como \u00e9 o caso da magia, da ci\u00eancia e da psican\u00e1lise. Em \u201cA ci\u00eancia e a verdade\u201d, a verdade \u00e9 interrogada na qualidade de causa, n\u00e3o no sentido da \u201ccausa como categoria l\u00f3gica, mas como causando todo efeito\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>. Com o advento do discurso da ci\u00eancia, institui-se, de modo prevalente, uma concep\u00e7\u00e3o da <em>verdade como causa<\/em>, pois, nesse caso, a obten\u00e7\u00e3o do saber exige colocar em suspenso a verdade confundida com a ordem do sentido. Esse ponto, de que a verdade em si n\u00e3o corresponde a um saber, ou seja, a separa\u00e7\u00e3o entre o que pertence ao dom\u00ednio da verdade e ao do sentido, \u00e9 o que justifica a ruptura entre a ci\u00eancia e outras formas de discursos, salvo o discurso anal\u00edtico. A esse respeito, cabe acrescentar que a separa\u00e7\u00e3o entre verdade e saber \u00e9 o que torna a exist\u00eancia da psican\u00e1lise dependente da ci\u00eancia. Vale dizer que, tanto a ci\u00eancia, quanto a psican\u00e1lise, tomam a <em>verdade como causa<\/em>, ou seja, ao contr\u00e1rio da religi\u00e3o, h\u00e1 nelas \u201csepara\u00e7\u00e3o de poderes entre a verdade como causa e o saber posto em pr\u00e1tica\u201d<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a>. No tocante \u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica, a presentifica\u00e7\u00e3o da <em>verdade como causa <\/em>se deduz da pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do tratamento do sujeito neur\u00f3tico, na medida em que a verdade de seu sofrimento \u00e9 ter a verdade como causa.<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a><\/p>\n<p>Por conseguinte, na tradi\u00e7\u00e3o operat\u00f3ria do sujeito religioso, a quest\u00e3o da verdade aparece de modo radicalmente distinto. O ponto de partida da religi\u00e3o \u00e9 tomar como verdade o Deus que se revela, sem, no entanto, torn\u00e1-lo vis\u00edvel, reservando a sua manifesta\u00e7\u00e3o para um tempo futuro que se anuncia, embora indeterminado, motivando, no religioso, a espera infind\u00e1vel pelo Messias salvador. A verdade como revela\u00e7\u00e3o est\u00e1 no posto de comando da religi\u00e3o, visto que n\u00e3o se colocam em quest\u00e3o as causas do desvelamento da presen\u00e7a escondida de Deus que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o judaica, manifesta-se aos patriarcas e aos profetas como o Deus \u00fanico. O mesmo acontece com o cristianismo, ainda que a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus se d\u00ea como realizada na pessoa de Jesus Cristo, que \u201cabre o segredo escondido em suas profundezas, desde a origem dos tempos e agora desvelado\u201d<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a>. Se a verdade da revela\u00e7\u00e3o se realiza na figura do Messias \u2013 concebido como o verbo encarnado de Deus \u2013, ela se abre tamb\u00e9m para a manifesta\u00e7\u00e3o \u00faltima de Deus, simbolizada pelo retorno do Cristo no dia do Ju\u00edzo Final.<\/p>\n<p>Ao alojar-se no cora\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, a revela\u00e7\u00e3o \u00e9 exemplar do quanto a religi\u00e3o denega o que d\u00e1 fundamento ao sujeito da ci\u00eancia que, ao colocar a verdade como causa, torna poss\u00edvel aceder ao saber que reside no real. Se, na religi\u00e3o, a verdade apresenta-se como revela\u00e7\u00e3o, ela \u00e9, portanto, remetida \u2013 diz Lacan \u2013 \u201ca fins escatol\u00f3gicos, o que quer dizer que ela aparece apenas como <em>causa final<\/em> no sentido de ser reportada a um ju\u00edzo de fim de mundo\u201d<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a>. Ao faz\u00ea-lo, o religioso interrompe o seu pr\u00f3prio acesso \u00e0 <em>verdade como causa<\/em>, entregando a Deus a incumb\u00eancia da causa. Por isso, ele \u00e9 levado a atribuir a Deus a causa de seu desejo, o que \u00e9 propriamente uma posi\u00e7\u00e3o sacrificial, em que a incid\u00eancia da ren\u00fancia pulsional se mostra com toda a sua for\u00e7a e alcance. \u00c9 o <em>sujeito-suposto-saber<\/em> que se apresenta nessa submiss\u00e3o do religioso ao desejo suposto de um Deus que, por conseguinte, instala a verdade em um <em>status<\/em> de culpa.<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a><\/p>\n<p>Pelo fato de a verdade da religi\u00e3o estar mergulhada nas \u00e1guas do sentimento de culpa \u00e9 que se pode demonstrar que a fraternidade \u00e9 o mais importante <em>efeito de verdade <\/em>do discurso religioso. \u00c9 a efic\u00e1cia da culpabilidade extra\u00edda do mito freudiano \u2013 do assassinato da figura primordial do pai da horda, todo poderoso e gozador, por seus filhos \u2013 que torna poss\u00edvel a institui\u00e7\u00e3o de um contrato social baseado nos sentimentos de fraternidade. Desde ent\u00e3o, a perda de gozo proveniente da extin\u00e7\u00e3o desse lugar de exce\u00e7\u00e3o do pai \u2013 perda que, em Freud, aparece figurada pelo relato m\u00edtico da interdi\u00e7\u00e3o \u2013 sobrev\u00e9m por meio da culpabilidade ocasionada pelo crime primordial. O sentimento de culpa \u00e9 eficaz porque, sobre a base dessa perda de gozo, institui-se um regime de fraternidade entre os homens, cujo alicerce \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o ao pai morto. Como se sabe, Freud fez muita quest\u00e3o de que a hist\u00f3ria darwiniana do assassinato do pai tivesse efetivamente sucedido; por\u00e9m, o que importa frisar nesse mito de \u201cTotem e tabu\u201d \u00e9 que esse \u201cassassinato do pai \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do gozo\u201d<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a>, no sentido de que a exist\u00eancia do gozo sup\u00f5e uma perda ou uma limita\u00e7\u00e3o. A comunidade fraterna se funda em torno da identifica\u00e7\u00e3o ao pai morto. Isto \u00e9, o mito quer dizer que o gozo apenas ser\u00e1 poss\u00edvel se houver uma perda ou limita\u00e7\u00e3o, e \u00e9 por meio dessa perda de gozo que \u201cos irm\u00e3os se descobrem irm\u00e3os\u201d<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>A cren\u00e7a na fraternidade do corpo e a segrega\u00e7\u00e3o ramificada <\/strong><\/p>\n<p>Em \u201cPsicologia das massas e an\u00e1lise do Eu\u201d<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[33]<\/a>, segundo refer\u00eancia expl\u00edcita \u00e0 religi\u00e3o crist\u00e3, Freud retorna ao problema das raz\u00f5es que levam a \u201cmassa fraternal\u201d<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[34]<\/a> a se manter coesa ap\u00f3s a morte do pai. Nesse caso, a fraternidade desempenha um papel crucial na forma\u00e7\u00e3o das massas crist\u00e3s, tendo em vista sua tend\u00eancia a se reunir em comunidades em torno de um l\u00edder, figura do pai morto \u2013 Jesus Cristo \u2013, que vem no lugar do Ideal do Eu. A fraternidade se localiza mais aqu\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o vertical do religioso com o Cristo, na medida em que \u00e9 exigido do crist\u00e3o \u201camar os outros crist\u00e3os como Cristo os amou\u201d<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[35]<\/a>. Enquanto uma identifica\u00e7\u00e3o estritamente horizontal entre os irm\u00e3os, a fraternidade adquire uma import\u00e2ncia tal que o pr\u00f3prio Freud observa que \u00e9 poss\u00edvel ser um \u201cbom crist\u00e3o\u201d sem se estar identificado ao Cristo, mas, como ele, saber acolher com amor todos os seus irm\u00e3os.<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[36]<\/a><\/p>\n<p>Ainda em \u201cPsicologia das massas e an\u00e1lise do Eu\u201d<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[37]<\/a>, demonstra-se que \u00e9 sempre poss\u00edvel a forma\u00e7\u00e3o de massas, para al\u00e9m do ideal fraterno do <em>amor entre os irm\u00e3os<\/em>, ou seja, grande parte dos religiosos pode estabelecer um la\u00e7o comunit\u00e1rio entre si, por meio dessa caracter\u00edstica inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, que \u00e9 a sua \u201cprontid\u00e3o para o \u00f3dio\u201d<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\">[38]<\/a>. \u00c9 o que se verifica nas desaven\u00e7as e nos conflitos religiosos, em que o efeito unificador das comunidades se faz para al\u00e9m do amor ao Pai e em fun\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia mort\u00edfera do \u00f3dio. \u00c9 o paradoxo que Freud assinala em \u201cO mal-estar na cultura\u201d<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[39]<\/a>, pois o prop\u00f3sito do ap\u00f3stolo Paulo, de fazer do \u201camor universal pela humanidade\u201d o fundamento de sua comunidade crist\u00e3, n\u00e3o evitou a matan\u00e7a dos judeus e a extrema intoler\u00e2ncia e \u00f3dio contra aqueles que permaneceram de fora de sua cren\u00e7a religiosa.<a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\">[40]<\/a> A exist\u00eancia do povo judeu, ao longo dos s\u00e9culos, e a concomit\u00e2ncia da a\u00e7\u00e3o segregativa que sempre lhe foi exercida e executada s\u00e3o uma indica\u00e7\u00e3o evidente da perda e da falha irredut\u00edvel que comporta o gozo e do quanto essa perda n\u00e3o \u00e9 trat\u00e1vel segundo uma pol\u00edtica do universal, que se encarna no ideal da fraternidade.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso levar em conta o quanto a cultura, nos dias de hoje, se mostra cada vez mais atingida pelas muta\u00e7\u00f5es que t\u00eam lugar no la\u00e7o social e que concernem \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o dos grandes mitos que gravitavam em torno das diversas figuras do patriarcado. Destaca-se, aqui, como consequ\u00eancia da atomiza\u00e7\u00e3o do social, o m\u00faltiplo das comunidades e das identifica\u00e7\u00f5es que, nesse contexto, tornam-se fluidas, irredut\u00edveis umas \u00e0s outras e, portanto, segregativas. Diante da aus\u00eancia dos operadores externos e antin\u00f4micos, como \u00e9 o caso do mito do pai e das fortes identifica\u00e7\u00f5es que da\u00ed advinham, prevalecem os excessos e o desvario do gozo que obrigam o sujeito a recorrer a uma identidade e, ao mesmo tempo, rejeitar para fora de sua comunidade aquele que se considera portador de um gozo distinto do seu. Se uma comunidade se constitui sob a base de uma identidade segregativa, \u00e9 de se esperar que o fator unificador do l\u00edder se torne menos importante e mesmo dispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para a tenta\u00e7\u00e3o fundamentalista das religi\u00f5es, \u201co crime fundador n\u00e3o \u00e9 o assassinato do pai, mas a vontade de morte daquele que encarna o gozo que eu rejeito e odeio\u201d<a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\">[41]<\/a>. Por essa raz\u00e3o, Lacan afirma que o racismo \u201cse enra\u00edza no corpo, na fraternidade do corpo\u201d<a href=\"#_ftn42\" name=\"_ftnref42\">[42]<\/a>, isto \u00e9, na cren\u00e7a da exist\u00eancia de um la\u00e7o social que seja comunit\u00e1rio e que tenha valor identificat\u00f3rio para os seus membros. Esse tipo de la\u00e7o social, baseado na identifica\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, narc\u00edsica, que, enquanto tal, \u00e9 uma identifica\u00e7\u00e3o ao semelhante, s\u00f3 pode fundar-se sobre a exclus\u00e3o do corpo e do gozo de um outro. Uma identidade que se quer consistente est\u00e1 condenada a se apoiar sobre uma demarca\u00e7\u00e3o face ao que, apesar de estar bem pr\u00f3xima, \u00e9 percebida como estrangeira. A promo\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o social identificat\u00f3rio s\u00f3 pode produzir efeitos de segrega\u00e7\u00e3o que, no fundo, remontam ao \u00fanico fundamento da fraternidade, que \u00e9 o \u201cde estarmos isolados juntos, isolados do resto\u201d<a href=\"#_ftn43\" name=\"_ftnref43\">[43]<\/a>.<\/p>\n<p>A obstina\u00e7\u00e3o do discurso religioso com o amor universal entre os irm\u00e3os recobre algo que apenas o psicanalista est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de apreender, a saber, isso que Lacan d\u00e1 como a \u00fanica defini\u00e7\u00e3o poss\u00edvel desse efeito de verdade que \u00e9 a fraternidade: o fato de <em>estarmos isolados juntos<\/em>,<em> isolados do resto.<\/em> Assim, o triunfo da religi\u00e3o exige o componente do enorme disp\u00eandio libidinal, para atestar que somos todos irm\u00e3os. A fraternidade \u00e9 esse esfor\u00e7o obstinado por parte do discurso religioso para nos convencer de que somos uma comunidade universal de irm\u00e3os \u2013 obstina\u00e7\u00e3o que, para Lacan, \u00e9 uma evid\u00eancia de que n\u00e3o o somos.<a href=\"#_ftn44\" name=\"_ftnref44\">[44]<\/a> A acep\u00e7\u00e3o lacaniana da fraternidade \u00e9, antes de tudo, a cr\u00edtica da cren\u00e7a no universalismo, que se faz presente nos espectros pol\u00edticos que clamam por \u201cuma igualdade fundamental dos cidad\u00e3os, impondo-se \u00e0 hierarquia tradicional, desconstruindo-a\u201d<a href=\"#_ftn45\" name=\"_ftnref45\">[45]<\/a>.<\/p>\n<p>O escrito \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d<a href=\"#_ftn46\" name=\"_ftnref46\">[46]<\/a> conclui pela afirma\u00e7\u00e3o surpreendente de que, frente \u00e0 ideologia da igualdade universal, a \u00fanica fraternidade poss\u00edvel \u00e9 a que reabre \u201co caminho de seu sentido numa <em>fraternidade discreta <\/em>em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual sempre somos por demais desiguais\u201d<a href=\"#_ftn47\" name=\"_ftnref47\">[47]<\/a>. O uso do qualificativo \u201c<em>discreto<\/em>\u201d interessa de perto \u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica de desidentifica\u00e7\u00e3o do sujeito, tendo em vista que o funcionamento menos consistente do la\u00e7o social abranda seus efeitos de grupo e os processos de massifica\u00e7\u00e3o. No sentido matem\u00e1tico, as estruturas alg\u00e9bricas <em>discretas<\/em>, que s\u00e3o constitu\u00eddas por partes distintas, op\u00f5em-se \u00e0s estruturas <em>cont\u00ednuas<\/em>, que s\u00e3o cont\u00ednuas e sem mudan\u00e7as bruscas. Ao visar \u00e0 <em>fraternidade discreta<\/em>, refor\u00e7a-se a tese de que n\u00e3o somos irm\u00e3os por sermos filhos de Deus-Pai, somos irm\u00e3os por sermos \u201cfilhos do discurso\u201d<a href=\"#_ftn48\" name=\"_ftnref48\">[48]<\/a> e, enquanto tais, n\u00e3o somos \u201cmassas\u201d, mas partes distintas, dotadas de singularidade e alteridade.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o nos tempos da evapora\u00e7\u00e3o do pai n\u00e3o abandona o princ\u00edpio do universalismo, em que a for\u00e7a do ideal da fraternidade vem homogeneizar as rela\u00e7\u00f5es entre os homens. E o mais alarmante \u00e9 que essa presen\u00e7a do religioso se insinua pela via segregat\u00f3ria das formas fundamentalistas do <em>pior. <\/em>Lacan privilegia o fato de que o irm\u00e3o, nas suas formas atuais do novo evangelismo crist\u00e3o, est\u00e1 em todos os cantos da cidade, pois, tendo sua origem na vers\u00e3o latina do <em>fraternitas<\/em>, ajunta-se aos ideais fluidos de liberdade e igualdade. A ideia do irm\u00e3o, t\u00e3o solidamente instalada como uma verdade dos prop\u00f3sitos \u00faltimos da religi\u00e3o, ao longo dos s\u00e9culos, \u201cmant\u00e9m tamponado o seu retorno sobre o que se toma como o suporte do la\u00e7o social\u201d<a href=\"#_ftn49\" name=\"_ftnref49\">[49]<\/a>, que \u00e9 a solid\u00e3o do <em>Um<\/em>, concebida como parte intr\u00ednseca do <em>falasser<\/em>. Se a solid\u00e3o do <em>Um<\/em> \u2013 correlato da <em>n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual \u2013<\/em> \u00e9 o que d\u00e1 suporte ao la\u00e7o social, ela \u00e9 tamb\u00e9m o que faz a nossa \u00e9poca profundamente marcada pela segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O nosso s\u00e9culo \u00e9 constitu\u00eddo por formas de segrega\u00e7\u00e3o renomeadas por Lacan como \u201csegrega\u00e7\u00e3o ramificada, refor\u00e7ada, que multiplica as barreiras\u201d<a href=\"#_ftn50\" name=\"_ftnref50\">[50]<\/a> para que o la\u00e7o social possa ter lugar. Essa segrega\u00e7\u00e3o ramificada decorre, tanto da evapora\u00e7\u00e3o do pai, quanto do fator desagregador do discurso da ci\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9 mais a segrega\u00e7\u00e3o de outrora. \u00c9 ineg\u00e1vel que a religi\u00e3o toca as estruturas mais profundas do pai, mas, nos \u00faltimos tempos, a evapora\u00e7\u00e3o do pai deixa vest\u00edgio e cicatriz na pr\u00f3pria cren\u00e7a, gerando o fen\u00f4meno atual da segrega\u00e7\u00e3o religiosa fundamentalista. Com a leitura do <em>Semin\u00e1rio, livro 19: \u2026ou pior<\/em><a href=\"#_ftn51\" name=\"_ftnref51\">[51]<\/a>, vimos que a fraternidade \u00e9 um de seus personagens principais, pois, a partir dela, postula-se que a cren\u00e7a religiosa \u00e9 uma resposta \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. A fraternidade, por\u00e9m, com sua pretens\u00e3o dos bons sentimentos universalistas de que somos todos irm\u00e3os, enra\u00edza-se no corpo e promove o racismo. Ao longo das li\u00e7\u00f5es do Semin\u00e1rio, \u00e9 not\u00f3ria a tens\u00e3o entre \u201cum dizer ou o pior\u201d: se o <em>dizer <\/em>se apresenta do lado do imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual, o <em>pior<\/em>, por sua vez, recobre as tentativas de fazer existir essa rela\u00e7\u00e3o. O verdadeiro nervo da cren\u00e7a na fraternidade religiosa \u00e9 que ela pode, facilmente, por seu apego inabal\u00e1vel ao saber sobre quem \u00e9 puro (sagrado) ou impuro, ou sobre quem est\u00e1 dentro ou fora (her\u00e9tico) de suas verdades, desviar-se ao <em>pior<\/em>. O discurso anal\u00edtico mant\u00e9m a sua aposta no <em>dizer<\/em> sobre o imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual, para escapar do <em>pior.<\/em> Enfim, crer na chance do <em>dizer <\/em>da solid\u00e3o do <em>Um<\/em> n\u00e3o leva ao <em>pior.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Freud, S. (1927). \u201cO futuro de uma ilus\u00e3o\u201d. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020, p. 264.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem, p. 245.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem, p. 234.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem, p. 290.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Freud, S. (1920). \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2021, p. 151.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Freud, S.<em> (1901) \u201c<\/em>Psicopatologia da vida cotidiana \u2013 Sobre esquecimentos, lapsos verbais, a\u00e7\u00f5es equivocadas, supersti\u00e7\u00f5es e erros\u201d. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2023, p. 286.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Freud, S. (1927). \u201cO futuro de uma ilus\u00e3o\u201d. <em>Op. cit.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Lacan, J. (1971-72). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;<em>ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012, p. 49.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem, p. 51.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Idem, p. 51.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> \u201cFreud [&#8230;] articula que a <em>repeti\u00e7\u00e3o fundamental do desenvolvimento da vida <\/em>n\u00e3o seja mais que a deriva\u00e7\u00e3o de uma puls\u00e3o compacta, abissal, que ele chama, nesse n\u00edvel, de puls\u00e3o de morte, e onde nada mais resta sen\u00e3o essa <em>anank\u00ea,<\/em> a necessidade do retorno ao zero do inanimado\u201d (<em>Id<\/em>. (1960-61). <em>Semin\u00e1rio, livro 8<\/em>: a transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992, p. 188.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Idem<em>.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Freud, S. (1921). \u201cPsicologia das massas e an\u00e1lise do Eu\u201d. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020, p. 215.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Lacan, J. (1974) \u201cO triunfo da religi\u00e3o\u201d. In: <em>O triunfo da religi\u00e3o, precedido de Discurso aos cat\u00f3licos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 72.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Idem<em>.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Idem, p. 63.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Idem, p. 65.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Idem, p. 66.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Idem, p. 67.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Brague, R. \u201cEntretien sur l\u2019Islam\u201d. In: <em>Ornicar? Croire <\/em>\u2013 Revue du Champ freudien, n. 57, p. 63-64, 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Freud, S. (1930). \u201cO mal-estar na cultura\u201d. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Idem, p. 318.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Lacan, J. \u201cYale University \u2013 Entretiens avec des \u00e9tudiens. R\u00e9ponses \u00e0 leurs questions. 24 novembre 1975\u201d. In: <em>Scilicet<\/em>, n. 6\/7, 1976, p. 32.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> Lacan, J. (1966) \u201cA ci\u00eancia e a verdade\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 883.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> Idem, p. 885.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> B\u00cdBLIA. <strong>Ef\u00e9sios<\/strong>. In: <strong><em>B\u00edblia Sagrada<\/em><\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Vida, 2021. Ef\u00e9sios 3:5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> Lacan, J. (1966) \u201cA ci\u00eancia e a verdade\u201d. <em>Op. cit.<\/em>, p. 887.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> Idem, p. 887.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> Lacan, J, (1969-70). <em>O Semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 113.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> Idem, p. 107. A esse respeito, ver tamb\u00e9m: Lacan, J. (1971-72). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. <em>Op. cit.<\/em>, p. 44, onde se diz que o mito de Totem e tabu foi feito para mostrar que \u201co gozo sexual ser\u00e1 poss\u00edvel, mas ser\u00e1 limitado\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a> Freud, S. (1921) \u201cPsicologia das massas e an\u00e1lise do Eu\u201d. <em>Op. cit.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> Idem, p. 215.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> Idem, p. 14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[36]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[37]<\/a> Idem<em>.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[38]<\/a> Idem, p. 175.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\">[39]<\/a> Freud, S. (1930). \u201cO mal-estar na cultura\u201d. <em>Op. cit.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\">[40]<\/a> Idem, p. 367.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref41\" name=\"_ftn41\">[41]<\/a> Laurent, \u00c9. \u201cRacismo 2.0\u201d In: <em>Lacan Cotidiano<\/em>, n. 371, 2014. Dispon\u00edvel em: https:\/\/uqbarwapol.com\/lacan-cotidiano-n-371-portugues\/. Acesso em: 01 ago. 2024.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref42\" name=\"_ftn42\">[42]<\/a> Lacan, J. (1971-72). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: <\/em>&#8230;ou pior. <em>Op. cit.<\/em>, p. 227.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref43\" name=\"_ftn43\">[43]<\/a> Lacan, J. (1969-70). <em>O Semin\u00e1rio, livro 17: <\/em>o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992, p. 107.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref44\" name=\"_ftn44\">[44]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref45\" name=\"_ftn45\">[45]<\/a> Miller, J.-A. \u201cTodo mundo \u00e9 louco \u2013 AMP 2024\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 85, p. 8-18, dez. 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref46\" name=\"_ftn46\">[46]<\/a> Lacan, J. (1948). \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref47\" name=\"_ftn47\">[47]<\/a> Idem, p. 126.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref48\" name=\"_ftn48\">[48]<\/a> Lacan, J. (1969-70)<em> O Semin\u00e1rio, livro 17: <\/em>o avesso da psican\u00e1lise. <em>Op. cit.<\/em>, p. 226.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref49\" name=\"_ftn49\">[49]<\/a> Lacan, J. (1971-72) <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: <\/em>&#8230;ou pior. <em>Op cit.<\/em>, p. 227.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref50\" name=\"_ftn50\">[50]<\/a> Lacan, J. \u201cNota sobre o pai\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 71, 2015, p. 7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref51\" name=\"_ftn51\">[51]<\/a> Lacan, J. (1971-72) <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: <\/em>&#8230;ou pior. <em>Op cit.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e9sus Santiago (AME da EBP\/AMP) A religi\u00e3o define-se, em Freud, como uma experi\u00eancia que tem como condi\u00e7\u00e3o a ren\u00fancia pulsional (Triebversizicht), que se constitui como o terreno sob o qual floresce o que \u00e9 essencial na subjetividade do religioso, ou seja, a dimens\u00e3o da cren\u00e7a. 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