{"id":563,"date":"2024-08-27T06:49:29","date_gmt":"2024-08-27T09:49:29","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=563"},"modified":"2024-11-04T12:06:00","modified_gmt":"2024-11-04T15:06:00","slug":"o-corpo-nao-aprisionado-pelo-discurso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/08\/27\/o-corpo-nao-aprisionado-pelo-discurso\/","title":{"rendered":"O corpo n\u00e3o aprisionado pelo discurso"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"wpex-text-sm\">Bartyra Ribeiro de Castro (EBP\/AMP)<\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 sujeito fora da linguagem, mas o autista est\u00e1 fora do discurso<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Estas afirmativas de Lacan abrem um campo de debate sobre a estrutura aut\u00edstica.<\/p>\n<p>No final dos anos 1990, Rosine e Robert Lefort publicaram, em <em>A distin\u00e7\u00e3o do autismo<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, o que puderam recolher da revisita ao caso de Marie-Fran\u00e7oise<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, das leituras das autobiografias de autistas e das biografias de algumas figuras p\u00fablicas, propondo o autismo como uma quarta estrutura ps\u00edquica. Distinta da neurose, da psicose e da pervers\u00e3o, sua principal caracter\u00edstica seria a emerg\u00eancia do S1 sozinho, que n\u00e3o faz la\u00e7o com S2, chegando a se poder pensar em uma <em>a-estrutura<\/em>.<\/p>\n<p>Para podermos sustentar esta hip\u00f3tese, precisamos das ferramentas do \u00faltimo ensino de Lacan: dos conceitos de S1 sozinho, de corpo falante e da puls\u00e3o como eco da linguagem no corpo, assim como do Um anterior ao Outro.<\/p>\n<p>Assim sendo, quanto ao autismo, n\u00e3o se pode falar de sujeito do inconsciente. O sujeito do inconsciente \u00e9 aquele que, tendo assentido ao Outro simb\u00f3lico e \u00e0s suas consequ\u00eancias, encarna a linguagem que lhe configura um corpo simbolizado, uma localiza\u00e7\u00e3o do gozo no corpo e a queda do objeto <em>a<\/em> como resto da articula\u00e7\u00e3o de S1 com S2. O autista, portanto, est\u00e1 fora do discurso.<\/p>\n<p>Quanto ao autismo, s\u00f3 podemos falar de <em>falasser<\/em>. Tocado pelo eco do fato de que h\u00e1 um dizer, o autista ouve o murm\u00fario de <em>lal\u00edngua<\/em>, sem tradu\u00e7\u00e3o pela m\u00e1quina simb\u00f3lica. \u00c9 uma linguagem feita para gozar, a c\u00e9u aberto. Um simb\u00f3lico sem sistema e sem significa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 enxame de S1 e que, pela impossibilidade de incorpora\u00e7\u00e3o, itera. A quest\u00e3o central, nos afirma Patr\u00edcio Alvarez Bay\u00f3n, \u00e9 a materialidade sonora<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>: o significante ressoa no corpo sem localizar o gozo. Com o gozo difuso, h\u00e1 um corpo sem recorte das zonas er\u00f3genas, e n\u00e3o h\u00e1 destacamento completo da letra, nem um furo constitu\u00eddo.<\/p>\n<p>Nesta investiga\u00e7\u00e3o sobre o autismo, duas vertentes se apresentam. A primeira o toma como <em>a-estrutura<\/em>, conforme a leitura dos Lefort e de J.-A. Miller, segundo a qual h\u00e1 um S1 como itera\u00e7\u00e3o, sem efeito de significa\u00e7\u00e3o, em uma \u201cmetamorfose multiplicativa em um enxame\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Um S1 b\u00edfido, que tem a cavilha do significante-mestre foraclu\u00edda, que demarca um excesso, mas n\u00e3o uma falta \u2013 o que segue Lacan no <em>Semin\u00e1rio 19: &#8230;ou pior<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. A segunda vertente toma a indica\u00e7\u00e3o de Lacan nas duas \u00fanicas vezes em que falou de autismo, referindo-se a um congelamento do significante. Esta vertente \u00e9 tomada por Jean-Claude Maleval e considera que, no autismo, h\u00e1 um tempo da aliena\u00e7\u00e3o congelada, em que o Um n\u00e3o se remete ao Outro.<\/p>\n<p>Segundo Neus Carbonel, \u201ca foraclus\u00e3o do S1 no autismo sup\u00f5e que o corpo est\u00e1 obturado, sem furos para indicar os orif\u00edcios da puls\u00e3o, sem fronteiras entre exterior e interior (&#8230;) que demarquem o exterior como sendo distinto, isto \u00e9, diferente e descont\u00ednuo de um interior\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>O que faz a fun\u00e7\u00e3o de localiza\u00e7\u00e3o e de processamento do gozo \u00e9 o estabelecimento de uma borda aut\u00edstica como defesa e media\u00e7\u00e3o, por interm\u00e9dio dos objetos aut\u00edsticos, da constitui\u00e7\u00e3o de duplos e\/ou do estabelecimento de interesses espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Assim, o autista \u00e9 um <em>falasser<\/em> que entra na linguagem pela ecolalia, atravessado pelo enxame de <em>lal\u00edngua<\/em>. S\u00e3o significantes reais, s\u00e3o signos, uma vez que se colam a um referente. O autista, pois, est\u00e1 em uma rela\u00e7\u00e3o com a linguagem pelo signo, n\u00e3o pela articula\u00e7\u00e3o significante.<\/p>\n<p>A l\u00edngua dos signos \u00e9 a marca de que o inconsciente freudiano n\u00e3o est\u00e1 fundado. N\u00e3o h\u00e1 recalque, desejo, fantasia ou equivocidade significante. Trata-se de um inconsciente real, de uma rela\u00e7\u00e3o com a linguagem pela via da aliena\u00e7\u00e3o, sem separa\u00e7\u00e3o. O S1 retido provoca uma aliena\u00e7\u00e3o congelada que, igualmente retida, gera um congelamento do significante-mestre que itera, mas que pode, segundo Maleval, chegar a um descongelamento, promovendo uma \u201cenuncia\u00e7\u00e3o expressiva\u201d, como testemunham os relatos autobiogr\u00e1ficos de autistas de alto rendimento.<\/p>\n<p>Maleval prop\u00f5e que, a partir de um acontecimento traum\u00e1tico, opera-se um esvaziamento de gozo na borda aut\u00edstica. Algo se descongela no S1 e o <em>falasser<\/em> autista pode servir-se do significante para se expressar por uma enuncia\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>J.-A. Miller, no entanto, fala de uma itera\u00e7\u00e3o provocada por um algoritmo, fadada a retornar sempre ao ponto de partida, no mesmo tempo e no mesmo lugar, sem espa\u00e7o, e prop\u00f5e um matema para o autismo: (S1)\u00ba \u00e0 S1 S1 S1 S1 &#8230;<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Segundo Patr\u00edcio Alvarez, o autismo est\u00e1 entre <em>lal\u00edngua<\/em> e a letra, n\u00e3o na linguagem, uma vez que n\u00e3o est\u00e1 submetido \u00e0s regras sustentadas pelas leis da met\u00e1fora e da meton\u00edmia. O autista estaria na linguagem somente se considerarmos <em>lal\u00edngua<\/em> como a subst\u00e2ncia constituinte da linguagem, que banha o <em>falasser<\/em>.<\/p>\n<p>Quando o <em>falasser<\/em> autista extrai de <em>lal\u00edngua<\/em> uma letra, esta \u00e9 inequ\u00edvoca e n\u00e3o permite uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber, n\u00e3o permite a constitui\u00e7\u00e3o da linguagem como um saber. Um dos sinais mais observados no autismo \u2013 a fuga do olhar do outro, logo nos primeiros meses de vida \u2013 evidencia um efeito parasit\u00e1rio da linguagem sobre o <em>falasser<\/em> autista.<\/p>\n<p>O autista \u00e9 habitado pela linguagem sem fazer uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber sobre <em>lal\u00edngua<\/em>. Sem o destacamento completo da letra, S1 n\u00e3o se liga a S2, mas pode vir a se ligar a outro S1, possibilitando-o sair da itera\u00e7\u00e3o infernal que tanto o toma em sua exist\u00eancia \u2013 e isto pode ser uma orienta\u00e7\u00e3o de tratamento. Segundo Neus Carbonel<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, \u00e9 visar \u00e0 passagem da itera\u00e7\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a uma descontinuidade, \u00e0 inser\u00e7\u00e3o do Outro, de um espa\u00e7o, de um deslocamento, na busca da constitui\u00e7\u00e3o de um circuito que n\u00e3o passe pelo mesmo lugar e que introduza uma temporalidade.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J.\u00a0(1975). \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d. In:\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana. <\/em><em>Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, n. 23, dez. 1998, p. 6-17.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lefort, R.; Lefort R. <em>A distin\u00e7\u00e3o do autismo<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Ana Lydia Santiago e Cristina Vidigal.\u00a0 Belo Horizonte: Relic\u00e1rio Edi\u00e7\u00f5es, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lefort, R.; Lefort R. <em>O nascimento do Outro<\/em>. Salvador: Ed. Fator, 1984.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Bay\u00f3n, P. A. <em>O autismo, entre al\u00edngua e a letra<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Bartyra Ribeiro de Castro. Vit\u00f3ria: Ed. C\u00e2ndida, 2024, p. 90.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. \u201cPr\u00e9face\u201d. In: Maleval, J.-C. <em>La Difference autistique<\/em>. Paris\u00a0: Ed. Presses Universitaires de Vincennes, 2021, p. 13.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J. (1971-1972).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: <em>&#8230;ou pior.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 130.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Carbonel, N. Matin\u00e9e du CERA, 17 de abril de 2024. Transcri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o livres.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Maleval, J.-C. <em>La Differenca autistique<\/em>. Paris: Ed. Presses Universitaires de Vincennes, 2021.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Miller, J.-A. \u201cPr\u00e9face\u201d. <em>Op. Cit<\/em>., p. 13.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Carbonel, N. (2024). <em>Op.cit<\/em>.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bartyra Ribeiro de Castro (EBP\/AMP) N\u00e3o h\u00e1 sujeito fora da linguagem, mas o autista est\u00e1 fora do discurso[1]. 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