{"id":508,"date":"2024-07-24T20:32:08","date_gmt":"2024-07-24T23:32:08","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=508"},"modified":"2024-11-04T12:03:50","modified_gmt":"2024-11-04T15:03:50","slug":"arte-e-cultura-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/07\/24\/arte-e-cultura-3\/","title":{"rendered":"Arte e Cultura"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #000080;\"><strong>O Brasil e seus corpos falantes<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Val\u00e9ria Beatriz Ara\u00fajo<br \/>\n<em>Comiss\u00e3o de arte e cultura XXV EBCF<\/em><\/h6>\n<p><strong><em>Flor do L\u00e1cio, Samb\u00f3dromo Lusam\u00e9rica, latim em p\u00f3<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O que quer<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O que pode esta l\u00edngua?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0(Caetano Veloso)<\/strong><\/p>\n<p>Caetano Galindo, escritor, tradutor, professor de hist\u00f3ria da l\u00edngua portuguesa na UFPR e \u201cpalpiteiro e provedor de servi\u00e7os textuais aleat\u00f3rios\u201d, como ele pr\u00f3prio diz, \u00e9 o convidado para o espa\u00e7o de interc\u00e2mbio desta edi\u00e7\u00e3o do boletim Coda. Autor de <em>Latim em p\u00f3: um passeio pela forma\u00e7\u00e3o do nosso portugu\u00eas<\/em>, uma das refer\u00eancias propostas pela comiss\u00e3o de arte e cultura, \u00e9 tamb\u00e9m citado por Niraldo de Oliveira Santos em seu texto de apresenta\u00e7\u00e3o do XXV EBCF, de onde extra\u00edmos a quest\u00e3o a respeito do que poder\u00edamos chamar um tipo particular de bilinguismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua portuguesa falada no Brasil.<\/p>\n<p>Um portugu\u00eas brasileiro? Um brasileir\u00eas? Um pretogu\u00eas?<\/p>\n<p>Nesse livro incontorn\u00e1vel, Caetano Galindo passeia pela constru\u00e7\u00e3o e pela diversidade dos usos da l\u00edngua falada no Brasil, destacando a marca profundamente racializada e segregativa da clivagem do que seriam duas l\u00ednguas portuguesas, incluindo, de forma efetiva, esse Brasileiro ind\u00edgena e africano. \u201cTodo um Atl\u00e2ntico de diferen\u00e7as\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, como ele aponta. Uma dessas vias destaca a ruptura sistem\u00e1tica imposta pelo discurso dominante do colonizador \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o dos escravizados, o que pode ter ampliado seu impacto na nossa l\u00edngua. Cito alguns fragmentos do livro que apresentam essa quest\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) sabe-se, por\u00e9m, que era pr\u00e1tica recorrente misturar escravizados de origens e culturas diferentes para dificultar sua comunica\u00e7\u00e3o nas senzalas e nas cidades e diminuir seu potencial de organiza\u00e7\u00e3o e rebeli\u00e3o.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 igualmente poss\u00edvel supor que essa ruptura sistem\u00e1tica imposta \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o dos escravizados possa ter, na verdade, ampliado seu impacto na nossa l\u00edngua de todo dia.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>O que certamente dificultou \u00e0 lingu\u00edstica do s\u00e9culo XX lidar com o mapa das fam\u00edlias de l\u00ednguas da \u00c1frica \u00e9 o fato de ter havido no continente, ao que tudo indica, uma preval\u00eancia bem maior de rela\u00e7\u00f5es \u201ctransversais\u201d entre idiomas, ou seja, situa\u00e7\u00f5es em que l\u00ednguas geneticamente n\u00e3o relacionadas, mas que convivem ou passam a conviver num mesmo ambiente, acabam trocando caracter\u00edsticas gramaticais. N\u00e3o apenas palavras \u2013 como vimos, elas s\u00e3o mercadoria barata -, mas tra\u00e7os estruturais do idioma.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ou seja, tal processo deixa uma marca, um \u201cproduto\u201d que escapa \u00e0 norma e ao discurso que aprisiona os corpos, ampliando uma l\u00edngua a partir de m\u00faltiplas vers\u00f5es. Como ruptura, como resto que n\u00e3o cabe neste aprisionamento. Como degluti\u00e7\u00e3o e destila\u00e7\u00e3o. Como subvers\u00e3o. Para sobreviver. Para continuar em cena.<\/p>\n<blockquote><p>A mudan\u00e7a lingu\u00edstica, inexor\u00e1vel, tamb\u00e9m pode ser uma curiosa li\u00e7\u00e3o de democracia. \u201cO que quer, o que pode essa l\u00edngua?<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Em suma, o retrato mais fiel da variabilidade das l\u00ednguas \u00e9 que, no limite, cada pessoa fala uma vers\u00e3o singular do idioma, aquilo que em lingu\u00edstica se chama de idioleto, o idioma de apenas um usu\u00e1rio.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Se \u201cl\u00edngua nenhuma, em nenhum momento, jamais esteve pronta\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, como bem diz o autor, essa aprendizagem viva e imperfeita, esses restos que escapam ao discurso articulam-se com os corpos aprisionados, tema de nosso encontro.<\/p>\n<p>Endere\u00e7amos a Caetano uma quest\u00e3o, para seguirmos conversando:<\/p>\n<p><strong><em>Como podemos pensar os usos da l\u00edngua, \u00e0 boa maneira, sem eliminar as diferen\u00e7as?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Segue o v\u00eddeo com os seus coment\u00e1rios, a partir dessas instiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>Sarav\u00e1!<\/em><\/p>\n<p>Seja bem-vindo, Caetano!<\/p>\n<p>V\u00eddeo Caetano:<\/p>\n<p><span class=\"wpex-responsive-media\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Caetano Galindo\" width=\"980\" height=\"735\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dF-VFC0SgqU?feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Gali<span class=\"wpex-text-sm\">ndo, C. <em>Latim em p\u00f3. Um passeio pela forma\u00e7\u00e3o do nosso portugu\u00eas.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 139.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem, p. 166.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem, p. 172.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem, p. 167.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem, p. 66.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Idem, p. 70.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem, p. 19<\/span>5.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil e seus corpos falantes Val\u00e9ria Beatriz Ara\u00fajo Comiss\u00e3o de arte e cultura XXV EBCF Flor do L\u00e1cio, Samb\u00f3dromo Lusam\u00e9rica, latim em p\u00f3 O que quer O que pode esta l\u00edngua? \u00a0(Caetano Veloso) Caetano Galindo, escritor, tradutor, professor de hist\u00f3ria da l\u00edngua portuguesa na UFPR e \u201cpalpiteiro e provedor de servi\u00e7os textuais aleat\u00f3rios\u201d, como&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-508","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=508"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/508\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":790,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/508\/revisions\/790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=508"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}