{"id":502,"date":"2024-07-24T20:23:03","date_gmt":"2024-07-24T23:23:03","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=502"},"modified":"2024-11-04T12:03:46","modified_gmt":"2024-11-04T15:03:46","slug":"na-atualidade-o-que-dizer-sobre-o-imaginario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/07\/24\/na-atualidade-o-que-dizer-sobre-o-imaginario\/","title":{"rendered":"Na atualidade o que dizer sobre o Imagin\u00e1rio?"},"content":{"rendered":"<h6>Renata Lucindo Ferreira Mendon\u00e7a (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>A partir do que escutamos em nossa cl\u00ednica na atualidade, gostaria de fazer uma pequena provoca\u00e7\u00e3o, uma convoca\u00e7\u00e3o ao trabalho em um ponto que nos concerne e vem nos instigando: a segrega\u00e7\u00e3o a partir do racismo. Esse tema j\u00e1 est\u00e1 presente em nossos trabalhos, tem um caminho longo a ser percorrido e quest\u00f5es a serem investigadas.<\/p>\n<p>Em um texto de J\u00e9sus Santiago, ele afirma:<\/p>\n<blockquote><p>Enfrentar a quest\u00e3o do racismo constitui um dos maiores desafios para a consolida\u00e7\u00e3o dos impasses atuais da democracia, concebida sob a \u00e9gide do princ\u00edpio republicano das liberdades p\u00fablicas e da toler\u00e2ncia ao Outro. Dentre esses impasses devo destacar que as democracias atuais lutam contra suas duas doen\u00e7as internas: a tirania da maioria e a tirania das v\u00e1rias minorias.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Podemos afirmar que, nos dias atuais, estamos marcados por v\u00e1rios discursos do mestre. Esse fen\u00f4meno abala o discurso universal da l\u00f3gica da exist\u00eancia do Outro em que o universal \u201cbranco\u201d, mas sem cor, sustentava o discurso do colonizador, decidindo quem era homem e quem n\u00e3o era, estabelecendo quais seriam os modos de gozo considerados civilizados. Esse discurso n\u00e3o \u00e9 mais o \u00fanico a ocupar o lugar da verdade.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que o Discurso do Mestre n\u00e3o esteja presente, mas sim, que est\u00e1 pluralizado. O Discurso do Mestre surge, a cada vez, quando uma verdade tenta universalizar o gozo, quando um modo de gozo recha\u00e7a outro modo de gozo, destitui ou tenta normatizar o gozo do Outro.<\/p>\n<p>Sendo assim, como ler as quest\u00f5es imagin\u00e1rias dos corpos, as quest\u00f5es que implicam a segrega\u00e7\u00e3o e o racismo de um modo que inclua os corpos pretos e questione a universalidade branca ainda existente?<\/p>\n<p>Precisamos localizar como cada sujeito adere ou n\u00e3o ao caldo cultural presente em nossa \u00e9poca. Precisamos nos perguntar sobre os la\u00e7os sociais regidos pelo saber do discurso capitalista com o discurso da ci\u00eancia e sobre o discurso racista e suas estrat\u00e9gias ligadas ao discurso capitalista.<\/p>\n<p>Assim, localizando esses pontos, lendo como o sujeito adere \u00e0 cultura, como ele faz la\u00e7o na atualidade, \u00e9 poss\u00edvel ler o momento em que a identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria faz a exist\u00eancia de um corpo vivo, como uma nomea\u00e7\u00e3o pode forjar um novo lugar de um corpo preto, n\u00e3o s\u00f3 social, mas tamb\u00e9m, singular. Isso implica um lugar in\u00e9dito de sujeito que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma aliena\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, mas um modo de se perguntar sobre o seu inconsciente, sua hist\u00f3ria, sua exist\u00eancia e a constitui\u00e7\u00e3o de seu Eu. O Eu como essa representa\u00e7\u00e3o que faz la\u00e7o e circula pelo mundo. A partir dessa nova leitura de si e do mundo \u2013 \u201csou preto\u201d, \u201cisso \u00e9 racismo\u201d \u2013, um sujeito pode estar entre os outros de outra forma, se posicionar no mundo de uma nova maneira.<\/p>\n<p>Ao pensar na experi\u00eancia de an\u00e1lise de um sujeito com um analista avisado do racismo estrutural, separado da \u201ctirania da maioria\u201d \u2013 que lemos aqui como \u201cbranca\u201d colonizadora \u2013, podemos apostar em um lugar in\u00e9dito, uma nomea\u00e7\u00e3o que pode separar esse sujeito da tirania do Outro, seja o discurso da \u201ctirania da maioria\u201d, seja o da \u201ctirania das minorias\u201d, e permitir que ele caminhe com seu corpo e sua singularidade.<\/p>\n<p>Tomo essas quest\u00f5es como importantes, pois temos um eixo de trabalho que levanta perguntas sobre o mundo regido pelas imagens e o lugar do imagin\u00e1rio. O Imagin\u00e1rio que cabe \u00e0 psican\u00e1lise \u00e9 aquele que faz parte do inconsciente, da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito e de seu Eu.<\/p>\n<p>O Eu \u00e9 uma inst\u00e2ncia do imagin\u00e1rio, \u00e9 a imagem especular. Sua transforma\u00e7\u00e3o e constitui\u00e7\u00e3o se d\u00e3o no caldo cultural no qual tanto a crian\u00e7a quanto o Outro materno est\u00e3o mergulhados, onde o romance familiar se constitui. O Imagin\u00e1rio \u00e9 um dos barbantes que comp\u00f5em o n\u00f3 borromeano junto com o Real e o Simb\u00f3lico, fazendo uma fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se trata mais de uma hierarquia entre esses tr\u00eas registros.<\/p>\n<p>Esse novo lugar do Imagin\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 especular, n\u00e3o prop\u00f5e, por exemplo, uma leitura do fen\u00f3tipo, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de pele. Algo do Imagin\u00e1rio tamb\u00e9m se refere ao para-al\u00e9m do especular, do identitarismo ou do Eu, podendo ser mais alguma coisa, uma quest\u00e3o de corpo, de ter um corpo. Com isso, o psicanalista precisa ler o Imagin\u00e1rio para al\u00e9m da l\u00f3gica especular, podendo ir al\u00e9m da desidentifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao pensar no Imagin\u00e1rio para al\u00e9m do especular, poder\u00edamos nos perguntar: o que resta a ser lido em rela\u00e7\u00e3o a um corpo que tem cor e que vive sob os discursos que sabem disso? O Discurso do Mestre, o discurso capitalista e o Discurso Universit\u00e1rio, por exemplo.<\/p>\n<p>O Discurso do Mestre como o universal \u201cbranco\u201d e \u201ccolonial\u201d. O discurso capitalista que, em parceria com a ci\u00eancia e com o discurso racista, usa esse corpo. E o Discurso Universit\u00e1rio que, na atualidade, quer ter um saber sobre ele.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao Discurso do Mestre, o argumento do Encontro cita Lacan que nos avisa: \u201cNo discurso do mestre, voc\u00eas, como corpos, est\u00e3o petrificados\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Assim, aprisionados.<\/p>\n<p>A partir da cita\u00e7\u00e3o acima, talvez possamos pensar que o Discurso do Mestre, universal ou pluralizado (como acontece no contempor\u00e2neo), petrifica os corpos e que o Discurso do Analista talvez seja aquele que, a partir de uma an\u00e1lise, possa fazer uma tor\u00e7\u00e3o e, assim, permitir ao sujeito fazer outra coisa com o seu corpo, podendo t\u00ea-lo, mas n\u00e3o aprisionado, podendo estar desgarrado do Discurso do Mestre e mais pr\u00f3ximo de sua singularidade.<\/p>\n<p>Com esses marcadores acima, destaco um ponto de trabalho sobre o primeiro Eixo: \u201cquando o imagin\u00e1rio faz obst\u00e1culo \u00e0 entrada em an\u00e1lise\u201d.<\/p>\n<p>Desse modo, podemos nos perguntar: em que momento o imagin\u00e1rio faz obst\u00e1culo \u00e0 entrada em an\u00e1lise? Esse obst\u00e1culo viria do candidato a uma an\u00e1lise ou viria do analista? O analisando estaria agarrado \u00e0 \u201ctirania das minorias\u201d, a um Discurso do Mestre pluralizado ou o analista estaria preso \u00e0 \u201ctirania da maioria\u201d, ao Discurso do Mestre universal marcado pelo mestre colonizador?<\/p>\n<p>A que se referem as identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias? Quando elas se tornam uma solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel? Quando elas fazem fun\u00e7\u00e3o e como atravess\u00e1-las?<\/p>\n<p>A partir dessas perguntas, outros pontos nos instigam: \u00e9 poss\u00edvel atravessar as identifica\u00e7\u00f5es na atualidade? A cor da pele seria um obst\u00e1culo? E de qual lado est\u00e1 esse obst\u00e1culo? \u00c9 poss\u00edvel reler o corpo e dar outro lugar para o imagin\u00e1rio que n\u00e3o seja aprisionado pelo Discurso do Mestre? Quais seriam os restos do imagin\u00e1rio no fim de uma experi\u00eancia de an\u00e1lise?<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Refe<span class=\"wpex-text-sm\">r\u00eancias:<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\">Castro, H., Vieira, M. A. et al. \u201cAcontecimentos pol\u00edticos de corpo: o analista e a segrega\u00e7\u00e3o\u201d. In:<em> Correio: Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: EBP, n. 90, abril 2023, p. 75-108.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\">Cunha, L. F., Gorky, G., Groisman, A. T., Maia, R., Mandil, R., Musse, M., Scofield, L., Veras, M. \u201cOs corpos aprisionados pelo discurso &#8230;e seus restos\u201d. Argumento do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/o-encontro\/argumento\/\">https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/o-encontro\/argumento\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\">Iannini, G. \u201cInterseccionalidades entre sexo, ra\u00e7a e classe na Viena freudiana, 100 anos depois\u201d. In: <em>Freud no s\u00e9culo XXI: Volume I: O que \u00e9 psican\u00e1lise?<\/em> Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2024, p. 115-128.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\">Santiago, J. \u201cRacismo: apenas existem ra\u00e7as de discurso\u201d. In: <em>Revista Derivas anal\u00edticas<\/em>: Revista Digital de Psican\u00e1lise e Cultura da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 MG. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/racismo-discursos\">https:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/racismo-discursos<\/a><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Santiago, J. \u201cRacismo: apenas existem ra\u00e7as de discurso\u201d. In: <em>Revista Derivas anal\u00edticas<\/em>: Revista Digital de Psican\u00e1lise e Cultura da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 MG. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/racismo-discursos\">https:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/racismo-discursos<\/a><\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J.<\/span> (1971-1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 220.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renata Lucindo Ferreira Mendon\u00e7a (EBP\/AMP) A partir do que escutamos em nossa cl\u00ednica na atualidade, gostaria de fazer uma pequena provoca\u00e7\u00e3o, uma convoca\u00e7\u00e3o ao trabalho em um ponto que nos concerne e vem nos instigando: a segrega\u00e7\u00e3o a partir do racismo. 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