{"id":499,"date":"2024-07-24T20:21:17","date_gmt":"2024-07-24T23:21:17","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=499"},"modified":"2024-11-04T12:03:46","modified_gmt":"2024-11-04T15:03:46","slug":"a-marca-do-analista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/07\/24\/a-marca-do-analista\/","title":{"rendered":"A marca do analista"},"content":{"rendered":"<h6>S\u00e9rgio Laia (AME da EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>A frase com que Lacan conclui a \u00faltima li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio <em>\u2026ou pior<\/em> parece-me reiterar o que esse t\u00edtulo apresenta de inquietante<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>*<\/strong><\/a>. Referindo-se de forma surpreendente \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do racismo j\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, ou seja, em uma \u00e9poca culturalmente notabilizada pela difus\u00e3o de v\u00e1rios movimentos culturais libert\u00e1rios e por uma grande reviravolta no \u00e2mbito dos chamados \u201ccostumes\u201d, Lacan<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a> nos deixa o seguinte alerta: \u201cVoc\u00eas ainda n\u00e3o ouviram a \u00faltima palavra a respeito dele\u201d. Em franc\u00eas, inclusive por se tratar da \u00faltima fala de Lacan naquela circunst\u00e2ncia, o tom me parece ainda mais sombrio: \u201c<em>Vous n\u2019avez pas fini d\u2019en entendre parler<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[2]<\/a>, e eu o traduziria assim: \u201cVoc\u00eas mal acabaram de ouvir falar disso\u201d. Em outros termos, e j\u00e1 conjugando com o t\u00edtulo do Semin\u00e1rio: o pior ainda est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>De fato, se considerarmos o que se passa atualmente em nosso mundo, esse alerta de Lacan se efetiva a olhos vistos, inclusive na associa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita entre a escalada do racismo e a prolifera\u00e7\u00e3o dos dizeres sobre a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Sem d\u00favida, n\u00e3o se trata de considerar que, enfim, somos todo(a)s livres, iguais e irm\u00e3os-irm\u00e3s, mas que a expans\u00e3o do racismo se faz mesmo na conquista do que proclamamos como nossos direitos os mais libert\u00e1rios, igualit\u00e1rios e fraternais. Ao mesmo tempo, afirmar que existe tal associa\u00e7\u00e3o tampouco implica, para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana adotar uma postura conservadora e desprezar as conquistas que temos experimentado pol\u00edtica e culturalmente. Trata-se apenas de <em>n\u00e3o nos deixarmos fascinar<\/em> por tais conquistas ou pelo que elas prometem e, aqui, usando nessa advert\u00eancia o verbo <em>fascinar<\/em>, me valho de outro alerta de Lacan<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[3]<\/a>, aquele pelo qual sustentou que, diferente do que acontece ao Coro (essa figura\u00e7\u00e3o, na trag\u00e9dia grega, dos espectadores), os analistas n\u00e3o ficassem enredados pela \u201cimagem&#8230;, fascinante, da pr\u00f3pria Ant\u00edgona\u201d. Essa hero\u00edna, em sua pura determina\u00e7\u00e3o quanto ao desejo, em nome do que lhe era mais \u00fanico e insubstitu\u00edvel, em sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem vigente que acaba por vitim\u00e1-la, antecipa \u2013 no long\u00ednquo s\u00e9culo V a.C. \u2013 muito do que encontramos hoje em nosso mundo tomado pelos imperativos da satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o tom sombrio da \u00faltima frase e do pr\u00f3prio t\u00edtulo do Semin\u00e1rio 19 deixa de conduzir-nos a uma esp\u00e9cie de beco sem sa\u00edda porque, sem perder sua for\u00e7a e mesmo o que eu chamaria de sua dimens\u00e3o real, \u00e9 insepar\u00e1vel \u2013 sobretudo para a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana \u2013 do que j\u00e1 foi dito desde o in\u00edcio mesmo desse Semin\u00e1rio e que aparece na seguinte observa\u00e7\u00e3o sobre as retic\u00eancias que precedem o <em>\u2026ou pior<\/em>: nos \u201ctextos impressos\u201d, elas s\u00e3o usadas comumente \u201cpara marcar ou fazer um lugar vazio\u201d e, ent\u00e3o, tal t\u00edtulo \u201cenfatiza a import\u00e2ncia desse lugar vazio, e demonstra, assim,\u00a0 que essa demarca\u00e7\u00e3o do vazio \u201c\u00e9 a \u00fanica maneira de dizer alguma coisa com a ajuda da linguagem\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[4]<\/a>. Tamb\u00e9m nesse in\u00edcio, Lacan<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[5]<\/a> ressalta que <em>pior<\/em>, como adv\u00e9rbio, apresenta-se \u201cdisjunto de alguma coisa que \u00e9 chamada a algum lugar, justamente o verbo, que est\u00e1 substitu\u00eddo aqui pelas retic\u00eancias\u201d. Para saber qual \u00e9 o verbo aludido por essas retic\u00eancias e que faz uma esp\u00e9cie de contraponto ao adv\u00e9rbio <em>pior<\/em>, \u201cbasta balan\u00e7ar a letra com que come\u00e7a a palavra <em>pior<\/em>\u201d e, nesse balan\u00e7o, o <em>p<\/em> se torna <em>d<\/em>, permitindo que, em franc\u00eas, o que se contrap\u00f5e ao pior (<em>pire<\/em>) se apresente no verbo <em>dire<\/em>, ou seja, \u201cdizer\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[6]<\/a>. Logo em seguida, Lacan<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[7]<\/a> destaca que n\u00e3o se trata pura e simplesmente do <em>dizer, <\/em>mas de \u201c<em>um <\/em>dizer\u201d, aquele que ele havia abordado no Semin\u00e1rio 18 e que, eu acrescentaria, se transformou em um de seus mais famosos aforismos: \u201c<em>n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, se o racismo, como me parece nos indicar Lacan ao final do Semin\u00e1rio 19, \u00e9 uma das faces do pior, inclusive porque ele se fortalece e se expande no avan\u00e7o mesmo dos discursos que proclamam que \u201csomos todo(a)s irm\u00e3os-irm\u00e3s\u201d e que, atualmente, se difundem como ser <em>brother<\/em>, ser <em>bro<\/em>, ser <em>mano <\/em>e, tamb\u00e9m, como <em>brotheragem<\/em>, <em>sororidade<\/em>, \u201cmexeu com uma, mexeu com todas\u201d, \u00e9 ainda mais decisivo que os analistas n\u00e3o se deixem fascinar por tais proclama\u00e7\u00f5es, embora possam reconhecer-lhes \u2013 em circunst\u00e2ncias marcadas pela singularidade \u2013 alguma pertin\u00eancia. Essa dimens\u00e3o decisiva se vale, a meu ver, do que est\u00e1 aludido pelas retic\u00eancias que antecedem o \u201cou pior\u201d e que \u00e9, efetivamente, diverso do que se apresenta como igual, todo(a)s, mesmo. Os analistas, assim, para fazerem frente ao pior, se valem n\u00e3o dos ideais (por mais nobres, justos e libert\u00e1rios que estes sejam), mas de <em>um<\/em> dizer: <em>a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe<\/em>. Em outros termos, a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, de uma propor\u00e7\u00e3o ou paridade entre os sexos, \u00e9 o furo mesmo do qual se vale a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana para se contrapor ao pior.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, essa posi\u00e7\u00e3o que Lacan indica aos analistas n\u00e3o \u00e9 aquela de uma mera exterioridade com rela\u00e7\u00e3o ao mundo e \u00e0queles que o habitam. Por isso, no Semin\u00e1rio 19, tamb\u00e9m vamos encontrar a seguinte formula\u00e7\u00e3o: \u201cn\u00f3s somos irm\u00e3os de nosso paciente na medida em que, como ele, somos os filhos do discurso\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[8]<\/a>. A meu ver, a refer\u00eancia para essa filia\u00e7\u00e3o discursiva comum entre analista e paciente \u00e9 o modo como, por exemplo, o discurso do mestre \u201cpega\u201d, <em>attrape<\/em> ou, na j\u00e1 polemizada tradu\u00e7\u00e3o adotada pelo t\u00edtulo do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e presente na edi\u00e7\u00e3o brasileira do Semin\u00e1rio 19, \u201caprisiona\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[9]<\/a> os corpos, inclusive nas palavras de ordem paradoxalmente subversivas que, por exemplo, desde os anos 1960, povoam os muros e os corpos. Assim, um analista \u2013 particularmente antes de poder aceder a essa posi\u00e7\u00e3o, antes de sua passagem de analisante a analista, antes de poder verificar como o S<sub>1<\/sub>, ou seja, o significante mestre, ordenador, pode ser menos besta \u2013 era, tanto quanto seu paciente (e por ter sido paciente), \u201cmoldado\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[10]<\/a> pelo discurso do mestre, ou seja, pelo inconsciente. Mas tamb\u00e9m quando um analista se deixa tocar pela transfer\u00eancia, quando ele se disp\u00f5e a analisar a \u201cmoldagem\u201d que o discurso do mestre imprime em cada um de seus analisantes, h\u00e1 alguma irmandade sua com rela\u00e7\u00e3o ao paciente, na medida em que, assim, um analista se deixa passar por um dos objetos da vida amorosa inconsciente de quem ele atende.<\/p>\n<p>No entanto, a indica\u00e7\u00e3o lacaniana dessa irmandade entre analista e paciente \u00e9 antecedida, no pr\u00f3prio Semin\u00e1rio 19, por uma quest\u00e3o que vai tamb\u00e9m dissolv\u00ea-la, e de forma, a meu ver, contundente e radical: \u201cDe quem somos irm\u00e3os em todo discurso diferente do discurso anal\u00edtico?\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[11]<\/a> Com essa pergunta, verificamos que a irmandade s\u00f3 \u00e9 mesmo poss\u00edvel <em>fora<\/em> do discurso anal\u00edtico. Tal excepcionalidade do discurso anal\u00edtico, sua diferen\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o aos outros discursos, se d\u00e1, a meu ver, porque apenas ele sustenta e demonstra esse dizer que \u201ca rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d. \u00c0queles cujos corpos o discurso anal\u00edtico impacta (e, aqui, uso um verbo diferente do \u201cpegar\u201d, <em>attraper<\/em>), esse discurso promove a extra\u00e7\u00e3o das mais variadas e singulares consequ\u00eancias desse dizer. Em outros termos, a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual implica a impossibilidade de sermos <em>bro, <\/em>\u201cmano\u201d, \u201cmaninha\u201d, \u201cmiga\u201d e tudo mais que \u2013 mesmo se valendo do justo, do certo, do pr\u00f3ximo, do livre \u2013 pode acabar como: &#8230;<em>ou<\/em> <em>pior<\/em>.<\/p>\n<p>Essa excepcionalidade do discurso anal\u00edtico n\u00e3o confere, entretanto, aos analistas, uma posi\u00e7\u00e3o propriamente privilegiada, embora os marque, um a um, de modo \u00edmpar. Por isso, em 1973, no ano seguinte \u00e0 \u00faltima li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 19, Lacan<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[12]<\/a> afirma que o analista \u00e9 o \u201crebotalho (<em>rebut<\/em>) da dita (humanidade)\u201d, ou seja, daquela que tanto proclama o todo(a)s irm\u00e3os-irm\u00e3s, quanto v\u00ea o racismo se expandir com esse mesmo proferimento. Segundo Lacan<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[13]<\/a>, um \u201canalista deve trazer\u201d esta \u201cmarca\u201d \u2013 ser \u201crebotalho\u201d da humanidade, isto \u00e9 (e volto a evocar o racismo), ser um <em>segregado<\/em>&#8230; do discurso do mestre que, como sabemos, na experi\u00eancia anal\u00edtica, apresenta-se como o pr\u00f3prio inconsciente. Em outros termos, o analista, por trazer esta marca, faz valer, como semblante, no agenciamento do discurso anal\u00edtico, o objeto <em>a<\/em>, essa <em>causa<\/em> que, no discurso do mestre, aparece no lugar do produto e da perda, ou seja, da pr\u00f3pria segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Considero que Lacan tamb\u00e9m nos permite estabelecer uma diferen\u00e7a entre o analista e o que acontece a outros segregados da dita humanidade e, devido a essa diferencia\u00e7\u00e3o, tampouco a marca \u201crebotalho\u201d dar\u00e1 lugar a qualquer irmandade, a qualquer identifica\u00e7\u00e3o, entre o analista e os outros exclu\u00eddos da pr\u00f3pria humanidade. Afinal, enquanto esses exclu\u00eddos assim o s\u00e3o, \u00e0 sua revelia, a seu <em>insu<\/em>, por uma moldagem, uma esp\u00e9cie de manipula\u00e7\u00e3o realizada pelo discurso do mestre em seus corpos, o analista \u00e9 aquele que, para Lacan<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[14]<\/a>, \u201csabe ser um rebotalho\u201d, e eu considero que, esse <em>saber<\/em>, ele extrai \u00fanica e exclusivamente do modo como a experi\u00eancia anal\u00edtica e sua passagem de analisante \u00e0 analista lhe permitem sustentar a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, a imparidade que marca os corpos de cada falasser.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Texto escrito a partir de um convite que me foi feito por Luiz Fernando Carrijo da Cunha, por ocasi\u00e3o da abertura da prepara\u00e7\u00e3o do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, no dia 9 de mar\u00e7o de 2024, e posteriormente formalizado por Gustavo Menezes. A esses dois colegas, meu agradecimento pelo interesse nesta contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> L<span class=\"wpex-text-sm\">acan, J. (1971-1972). <em>O semin\u00e1rio. Livro 19: &#8230;ou pior<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 237.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[2]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>Le s\u00e9minaire. Livre XIX: &#8230;ou pire<\/em>. Texte \u00e9tabli par Jacques-Alain Miller. Paris: Seuil, 2011, p. 236.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[3]<\/a> Lacan, J. (1959-1960). <em>Le s\u00e9minaire. Livre VII: L\u2019\u00e9thique de la psychanalyse<\/em>. Texte \u00e9tabli par Jacques-Alain Miller. Paris: Seuil, 1986, p. 290.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[4]<\/a> Lacan, J. (1971-1972\/2011). <em>Op. cit.<\/em>, p. 11.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[5]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[6]<\/a> Idem, p. 12.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[7]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[8]<\/a> Idem, p. 235.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[9]<\/a> Na discuss\u00e3o que se seguiu \u00e0s apresenta\u00e7\u00f5es do dia 9 de mar\u00e7o de 2024, referentes \u00e0 abertura da prepara\u00e7\u00e3o do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, J\u00e9sus Santiago questionou a tradu\u00e7\u00e3o de <em>attrap\u00e9s<\/em> por \u201caprisionados\u201d e essa problematiza\u00e7\u00e3o ecoou em algumas r\u00e9plicas. Por sua vez, no n\u00famero 2 de <em>Coda,<\/em> boletim eletr\u00f4nico relacionado a esse Encontro, Marcus Andr\u00e9 Vieira, embora concordando que n\u00e3o se trata mesmo da melhor tradu\u00e7\u00e3o, convida-nos a considerar o que ele chamou de \u201cintradu\u00e7\u00e3o lacaniana\u201d que, a meu ver, apesar de ser um recurso diplom\u00e1tico e que tem seu lugar nos estudos sobre tradu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o resolve exatamente a quest\u00e3o: <a href=\"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/boletim\/boletim-coda-02\/\">https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/boletim\/boletim-coda-02\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[10]<\/a> Retiro, tamb\u00e9m do Semin\u00e1rio 19, essa refer\u00eancia a ser \u201cmoldado\u201d pelo discurso do mestre: para \u201co discurso do mestre, voc\u00eas s\u00e3o, como corpos, moldados (<em>p\u00e9tris<\/em>)\u201d (Lacan, 1971-1972\/2011, p. 235). Assinalo que, na edi\u00e7\u00e3o brasileira desse Semin\u00e1rio, o termo <em>p\u00e9tris<\/em> foi erroneamente traduzido por \u201cpetrificados\u201d (Lacan, 1971-1972\/2012, p. 220). N\u00e3o se trata de modo algum de uma <em>petrifica\u00e7\u00e3o<\/em>, mas de uma esp\u00e9cie de <em>moldagem<\/em>, de <em>manipula\u00e7\u00e3o<\/em>. Rodrigo Lyra Carvalho, em um recente <em>podcast<\/em> referente ao XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, \u00e9 sens\u00edvel a essa diferen\u00e7a, mas sua tradu\u00e7\u00e3o (que ele pr\u00f3prio considera discut\u00edvel) de <em>p\u00e9tris por<\/em> \u201csovados\u201d me pareceu demasiadamente literal; tamb\u00e9m sua refer\u00eancia aos afetos, conforme ele tamb\u00e9m alude, mereceria um maior aprofundamento. Esse <em>podcast<\/em> encontra-se acess\u00edvel em:<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/3oQLKVzqeQcNMcKo1gbJOJ?si=Uo7wBJj3S2yMbDZHOJ_39Q&amp;nd=1&amp;dlsi=add566ffb3884529\">https:\/\/open.spotify.com\/episode\/3oQLKVzqeQcNMcKo1gbJOJ?si=Uo7wBJj3S2yMbDZHOJ_39Q&amp;nd=1&amp;dlsi=add566ffb3884529<\/a><\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[11]<\/a> Lacan, J. (1971-1972\/2011). <em>Op. cit.<\/em>, p. 235.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[12]<\/a> Lacan, J. (1973). \u201cNote italienne\u201d. In: <em>Autres \u00e9crits<\/em>. Paris: Seuil, 2001, p. 308.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[13]<\/a> Idem.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[14]<\/a> Idem, p. 313.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Laia (AME da EBP\/AMP) A frase com que Lacan conclui a \u00faltima li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio \u2026ou pior parece-me reiterar o que esse t\u00edtulo apresenta de inquietante*. 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