{"id":440,"date":"2024-05-31T07:01:00","date_gmt":"2024-05-31T10:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=440"},"modified":"2024-11-04T12:02:47","modified_gmt":"2024-11-04T15:02:47","slug":"arte-e-cultura-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/05\/31\/arte-e-cultura-2\/","title":{"rendered":"Arte e Cultura"},"content":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o de Arte e Cultura conta, para este n\u00famero do boletim, com a luxuosa participa\u00e7\u00e3o de <strong>Guilherme Gontijo Flores<\/strong> para uma interlocu\u00e7\u00e3o entre campos. Poeta, tradutor e professor da UFPR, nosso convidado tem um percurso intenso com os usos da l\u00edngua, seja pela via autoral, seja pela via da tradu\u00e7\u00e3o. Talvez possamos, inclusive, dizer que essas duas vias, autor-tradutor possuem uma tor\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica, onde uma n\u00e3o se d\u00e1 sem a outra.<\/p>\n<p>Para animar a conversa, endere\u00e7amos a ele alguns pontos ao redor do tema do Encontro Brasileiro deste ano: corpos, discursos e restos, tomados nessa tens\u00e3o onde algo se decanta. Um corpo se faz pelo discurso, entretanto, algo nessa conjun\u00e7\u00e3o fica disjunto, justamente por n\u00e3o se encaixar no todo da narrativa. \u201cRestos\u201d circunscreve um conceito importante para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Podemos dizer que um sujeito se constitui em sua singularidade justamente pelos restos daquilo que recebe em seu encontro com o Outro \u2013 restos da l\u00edngua que lhe \u00e9 apresentada, do caldo cultural ao qual chega, da ambival\u00eancia inevit\u00e1vel de suas experi\u00eancias afetivas. Tais restos se decantam e escapam \u00e0 norma da linguagem que aprisiona os corpos. Isso pode ser pensado de forma individual, social, cultural e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em seu vasto percurso tamb\u00e9m pela mitologia, destacamos o recente texto no encarte da pe\u00e7a teatral \u201cFantasmagorias IV- agora tudo era t\u00e3o velho\u201d. Ali, Guilherme fala do vivo do mito, em um belo texto que destaca a pot\u00eancia da l\u00edngua nesses contos que sempre acrescentam um ponto. O vivo da l\u00edngua mant\u00e9m o vivo do mito, sempre renovado, em uma rela\u00e7\u00e3o infinita entre passado e presente. Tamb\u00e9m o tema de nosso Encontro pode ser pensado nessa mesma toada: o termo <em>attrap\u00e9s<\/em>, inicialmente traduzido como \u201caprisionados\u201d, pode ser traduzido como enla\u00e7ados, fisgados, tomados, capturados. Lacan cria um neologismo, o verbo <em>unier<\/em>, uniar, que associa unir e negar, e diz que \u201cno que tange \u00e0 fun\u00e7\u00e3o representada na an\u00e1lise pelo mito do Pai, ele <em>unia<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, trazemos o que instigou Guilherme,\u00a0a\u00a0partir\u00a0dessa proposta de interlocu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #000080;\"><strong>Restos de po\u00e9tica. Po\u00e9ticas, de resto.<\/strong><\/span><\/h3>\n<p>Guilherme Gontijo Flores<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) <em>je ne suis pas un po\u00e8te, mais un po\u00e8me. Et qui s\u2019\u00e9crit, malgr\u00e9 qu\u2019il ait l\u2019air d\u2019\u00eatre un sujet<br \/>\n<\/em>(Jacques Lacan)<\/p><\/blockquote>\n<p>Poetas, como a maioria das pessoas, nascem pensando que precisam, antes de tudo, ter uma voz. Mais ingenuamente, supomos, poetas que somos, que devemos, pra isso, criar uma voz. Mold\u00e1-la, guard\u00e1-la, exp\u00f4-la. Form\u00e1-la minuciosamente pra que seja reconhecida acima de tudo, al\u00e9m de todos; pra que seja a mostra in-question\u00e1vel, -dubit\u00e1vel, -transfer\u00edvel de uma singularidade.<\/p>\n<p>Ah, a voz!<\/p>\n<p>Miragem da constru\u00e7\u00e3o de si.<\/p>\n<p>Fiz\u00e9ssemos, por outro lado, um pequeno exerc\u00edcio mental, e quem sabe outras vozes nos apare\u00e7am. Fa\u00e7amos logo dois. Em primeiro lugar, pegue por a\u00ed um texto escrito por um afeto (ou um profundo desafeto). Leia lentamente as palavras ali escritas e perceba que voc\u00ea, por mais sil\u00eancio que fa\u00e7a na leitura, escuta a garganta desse mesmo (des)afeto. As gargantas dos outros nos invadem o tempo todo, como fantasmagoria. Por vezes, parecem mesmo vozes, sempre pass\u00edveis de presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Agora pare um instante, tamb\u00e9m em sil\u00eancio, e se concentre. O segundo exerc\u00edcio \u00e9 talvez mais simples \u00e0 primeira vista: imite vozes que voc\u00ea reconhece por a\u00ed; podem ser as mais banais e repetidas, como um Silvio Santos, ou um Lula; ecos antigos e batidos como um Chacrinha, uma Dercy Gon\u00e7alves, ou novamente um desafeto-afeto, a que voc\u00ea quiser. Escutou sua pr\u00f3pria garganta sendo a outra voz? Perfeito. E n\u00e3o importa se a imita\u00e7\u00e3o foi imperfeita. Isso era o aquecimento. Agora vem o que importa: imite apenas sua pr\u00f3pria voz.<\/p>\n<p>Tentou? Notou que \u00e9 imposs\u00edvel?<\/p>\n<p>Carregamos uma s\u00f3 garganta, e muitas vozes. Desconfio. Menos a pr\u00f3pria voz, que \u00e9 a que mais assola.<\/p>\n<p>Como escritor, tentei, nos meus primeiros quatro livros, me livrar desse anseio repetido de ter uma voz po\u00e9tica pra chamar de minha. Fiz uma tetralogia, intitulada <em>Todos os nomes que talvez tiv\u00e9ssemos<\/em>, organizada a partir dos poemas de <em>brasa enganosa<\/em> (2013), <em>Tr\u00f3iades \u2013 remix para o pr\u00f3ximo mil\u00eanio<\/em> (2014\/2015), <em>l\u2019azur Blas\u00e9, ou ensaio de fracasso sobre o humor <\/em>(2016) e <em>Naharia<\/em> (2017); e nela busquei fazer coro as vozes outras que carrego comigo: as da inf\u00e2ncia, as da c\u00f3lera belicosa, as da piada fraca e melanc\u00f3lica, as das minhas av\u00f3s. Busquei em cada livro mudar radicalmente todo o jogo, apagar-me, diluir-me: troquei as formas, os temas, os modos, os tiques, as obsess\u00f5es, o g\u00eanero liter\u00e1rio, as influ\u00eancias, as pretens\u00f5es. Fiz uma tetralogia pelo avesso: descontinuidade em quatro tempos.<\/p>\n<p>O resultado, como era de esperar.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 voz.<\/p>\n<p>Assim me disseram alguns leitores atentos e amigos, os que me conhecem de carne e de papel, os que convivem por tempo suficiente pra extrair tamb\u00e9m os sil\u00eancios, hesita\u00e7\u00f5es, gagueiras, tiques e manias que constituem um sujeito em fala ou texto.<\/p>\n<p>A que eu nunca escuto. Voz. O rastro, ou o resto quase insignificante, de tudo que se fala numa garganta. Talvez aquilo que o outro tenta imitar em mim, e que em mim \u00e9: tudo o que se veta de imitar.<\/p>\n<p>Miragem da constru\u00e7\u00e3o de si. Ah, a voz.<\/p>\n<p>Nesse fato curioso, de que um poeta n\u00e3o det\u00e9m sua pr\u00f3pria voz, mas apenas a reconhece quando ecoa no outro, quando retorna assinada pelo reconhecimento alheio; nesse gesto de assombro porque existo no outro que em mim existe, percebo que a psican\u00e1lise continua sendo umas das for\u00e7as de a\u00e7\u00e3o e pensamento mais fortes pra cogitar o que seria essa coisa que \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, e o que seria essa bizarr\u00edssima institui\u00e7\u00e3o ocidental chamada poeta.<\/p>\n<p>Eu \u00e9 que n\u00e3o saberia responder, claro. Por isso, fa\u00e7o.<\/p>\n<p>Poemas. No plural.<\/p>\n<p>E aguardo que venha alguma voz.<\/p>\n<p>Mas percebo que o poema, como ato de linguagem, tem sua for\u00e7a precisamente na contradi\u00e7\u00e3o constitutiva. Vem de um corpo, de uma garganta; parece tantas vezes ter uma voz inequ\u00edvoca. No entanto, se move. Isto \u00e9. Permite que outra garganta ali se aninhe. Que outro sujeito ali entre e diga: Esta \u00e9 a minha carne.<\/p>\n<p>E nesse gesto n\u00e3o imite voz alguma.<\/p>\n<p>Talvez o poema seja mesmo lugar onde um resto toma forma p\u00fablica. Ato feito, enquanto algu\u00e9m o diga, o poema n\u00e3o se encerra. Coletiva. A voz que o fez, se resta, pode ser a fresta de outras vozes.<\/p>\n<p>A garganta, se existe, serve mesmo \u00e9 pra ficar rouca.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1971-72). <em>O semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 205.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o de Arte e Cultura conta, para este n\u00famero do boletim, com a luxuosa participa\u00e7\u00e3o de Guilherme Gontijo Flores para uma interlocu\u00e7\u00e3o entre campos. Poeta, tradutor e professor da UFPR, nosso convidado tem um percurso intenso com os usos da l\u00edngua, seja pela via autoral, seja pela via da tradu\u00e7\u00e3o. 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