{"id":434,"date":"2024-05-31T06:55:13","date_gmt":"2024-05-31T09:55:13","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=434"},"modified":"2024-11-04T12:02:39","modified_gmt":"2024-11-04T15:02:39","slug":"tecidos-e-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/05\/31\/tecidos-e-palavras\/","title":{"rendered":"Tecidos e palavras"},"content":{"rendered":"<h6>Al\u00e9ssia Fontenelle (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Como fazer suport\u00e1vel o corpo pr\u00f3prio?<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Os analisantes falam com o corpo que habitam e que engendra a\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es. De que corpo falamos? Do corpo que se \u00e9 ou do corpo que se tem e seus restos? No limite imposto por isso que escapa e que <em>n\u00e3o cessa de se escrever<\/em>, como vestir o gozo para habitar o corpo que o aloja?<\/p>\n<p>O Outro \u2013 do qual recebemos as palavras que entranham, que nos representam e nos desnaturalizam \u2013 introduz a problem\u00e1tica do corpo e as distintas modalidades de gozo da civiliza\u00e7\u00e3o onde transitamos. O \u201cefeito da linguagem se padece\u201d, nos dir\u00e1 Lacan<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. J\u00e1 n\u00e3o estamos nos tempos em que o real era abordado pelos mitos e pelas cren\u00e7as compartilhadas. Agora, com o arrefecimento das pr\u00e1ticas discursivas e o esvaziamento das ideologias, o discurso preconiza o <em>mais-de-gozar<\/em> e, com a hipertrofia do uso dos objetos, cada um est\u00e1 autorizado a viver seu pr\u00f3prio modo de gozo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, cada um isolado em seu mundo de gozo, ainda que \u201cessencialmente embara\u00e7ado por hist\u00f3rias\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Assim, sem passar pelos semblantes universais que organizam a exist\u00eancia, a paix\u00e3o pelo corpo \u00e9 o tra\u00e7o pr\u00f3prio da vida cotidiana do s\u00e9culo XXI que, segundo J.-A. Miller<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, tem como modelo a adic\u00e7\u00e3o. Nessas coordenadas, o que prevalece n\u00e3o \u00e9 o sujeito do significante, nem o sujeito da identifica\u00e7\u00e3o, mas o <em>falasser<\/em>. Isso significa que o Outro est\u00e1 destitu\u00eddo e, em seu lugar, est\u00e1 o corpo. H\u00e1, assim, um deslocamento do campo da identifica\u00e7\u00e3o para o acontecimento de corpo que demarca uma anterioridade l\u00f3gica \u00e0 mordedura do significante. Destitu\u00eddo de toda representa\u00e7\u00e3o, esse encontro afeta o corpo e imprime uma marca que se encarna (corporifica) para al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. A imagem encarnada \u00e9 o corpo que o <em>falasser<\/em> tem, sem s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Na l\u00f3gica contempor\u00e2nea do real desprovido de sentido, evidencia-se uma dificuldade, cada vez maior, em armar o imagin\u00e1rio corporal. Como produzir a articula\u00e7\u00e3o entre o gozo que insiste sem limite e o gozo no qual podemos nos localizar? A constru\u00e7\u00e3o da imagem pela via do semblante possibilitaria um tratamento \u00e0 falha estrutural do <em>falasser,<\/em> permitindo ter um corpo?<\/p>\n<p>Para a psican\u00e1lise, \u201ca linguagem \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> e, tal como os vestidos que as mulheres <em>n\u00e3o cessam de n\u00e3o tecer<\/em> em torno de um corpo imposs\u00edvel, \u00e9 efeito de um recorte significante. Ali\u00e1s, Freud se interessa pelo motivo inconsciente que teria levado as mulheres, que pouco contribu\u00edram com a civiliza\u00e7\u00e3o, a legarem a t\u00e9cnica de \u201ctran\u00e7ar e tecer\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. E sup\u00f5e que o entrela\u00e7amento das fibras, que se assemelha aos pelos enraizados na pele, permite \u00e0s mulheres bordar e vestir com um v\u00e9u a imagem do sexo desnudo.<\/p>\n<p>Cl\u00e9rambault identifica uma peculiar rela\u00e7\u00e3o entre as mulheres e os tecidos. Esse objeto n\u00e3o s\u00f3 exercia uma atra\u00e7\u00e3o sobre algumas mulheres como tamb\u00e9m detinha a particularidade de ser algo furtado do outro. Al\u00e9m disso, tinham sensa\u00e7\u00f5es sexuais intensas com o ro\u00e7ar de uma seda, embora se considerassem fr\u00edgidas. H\u00e1, portanto, uma paix\u00e3o er\u00f3tica pela seda que, tomada como um substituto do corpo masculino, caracterizaria uma pervers\u00e3o especial \u201cbastante adaptada ao temperamento feminino\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Assim, o objeto-tecido se torna um objeto de gozo que, sem a media\u00e7\u00e3o da fantasia, se apresenta como um gozo <em>non-sens.<\/em><\/p>\n<p>Contudo, o fato de o sujeito feminino ser constitu\u00eddo por um n\u00e3o-ser j\u00e1 lhe confere uma aproxima\u00e7\u00e3o com os semblantes \u201cque t\u00eam fun\u00e7\u00e3o de velar o nada\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Nesse sentido, vale trazer \u00e0 tona Frida Kahlo e o seu incans\u00e1vel fazer tela com o traje <em>tehuana<\/em>.<\/p>\n<p>Como fazer suport\u00e1vel o corpo pr\u00f3prio afetado pelo gozo perturbador ali alojado? Lacan se refere ao vestu\u00e1rio como o objeto em torno do qual se tece um v\u00e9u: \u201csobre o v\u00e9u pinta-se a aus\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. A indument\u00e1ria, mais do que um inv\u00f3lucro, opera como \u00edndice do que se inscreve no corpo como modo de gozo. Em seu di\u00e1rio, Frida revela: \u201cMinhas saias de babados rendados e a velha blusa que eu sempre vestia (&#8230;) <em>comp\u00f5em o retrato ausente de uma s\u00f3 pessoa<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, pelo vi\u00e9s singular de sua arte, Frida Kahlo foi construindo sua solu\u00e7\u00e3o\/amarra\u00e7\u00e3o ao real do corpo, algo que n\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar no discurso da tecnologia m\u00e9dica com suas cirurgias, medica\u00e7\u00f5es e pr\u00f3teses. Logo, a imagem do traje <em>tehuana<\/em> se faz vestimenta para o corpo mordido pelo gozo, construindo um novo la\u00e7o com o gozo foraclu\u00eddo do sentido.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> O presente texto articula alguns pontos desenvolvidos na tese de doutorado, \u201cA arte de Frida Kahlo: o\u00a0<em>savoir-y-faire<\/em>\u00a0com as pe\u00e7as soltas\u201d, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. \u201cLe S\u00e9minaire de Jacques Lacan, &#8220;RSI&#8221;, 21 Janvier 1975\u201d. In: <em>Ornicar? Bulletin peri\u00f3dique du<\/em> <em>Champs freudien<\/em>. n. 3, p.106, Paris, mai 1975.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Vel\u00e1squez, J. <em>Psicosis ordin\u00e1rias &#8211; una mirada desde la cl\u00ednica borromea<\/em>. Nueva Escuela Lacaniana \u2013 Santiago, 2018, p.40.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J.-A. (1986). \u201cA palavra que fere\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 56\/57, 2010, p. 70.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. \u201cLas profec\u00edas de Lacan<em>. <\/em>Entrevista a Jacques-Alain Miller\u201d. In: <em>Le Point<\/em>, 18 ago. 2011. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/zadigespana.com\/2019\/05\/13\/las-profecias-de-lacan-entrevista-a-jacques-alain-miller\/\">https:\/\/zadigespana.com\/2019\/05\/13\/las-profecias-de-lacan-entrevista-a-jacques-alain-miller\/<\/a>. Acesso em: 12 maio 2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J. (1975-76). <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Lacan, J. \u201cRadiofonia\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 404.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Freud, S. \u201cConfer\u00eancia XXXIII &#8211; A feminilidade\u201d. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud &#8211; v. XXII: Novas Confer\u00eancias Introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise e outros trabalhos (1932-1936).<\/em> 2<sup>a<\/sup>. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987, p. 162.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Cl\u00e9rambault, G. G. DE. \u201cPaix\u00e3o er\u00f3tica dos tecidos na mulher\u201d [1008]. In: Tadeu, T. (org.). <em>O grito da seda: entre drapeados e costureirinhas: a hist\u00f3ria de um alienista muito louco<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2012, p. 62.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Miller, J.-A. \u201cMulheres e semblantes II\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<\/em>, v. 1, n. 1, pp. 1-25, mar\u00e7o 2010, p. 2. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_1\/Mulheres_e_semblantes_II.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_1\/Mulheres_e_semblantes_II.pdf<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Lacan, J. (1956-57). <em>O Semin\u00e1rio, livro 4: a rela\u00e7\u00e3o de objeto<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1995, p. 157.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Kahlo, F. (1910-54). <em>O di\u00e1rio de Frida Kahlo: um autorretrato \u00edntimo<\/em>. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1995, p. 143.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9ssia Fontenelle (EBP\/AMP) Como fazer suport\u00e1vel o corpo pr\u00f3prio?[1] Os analisantes falam com o corpo que habitam e que engendra a\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es. De que corpo falamos? Do corpo que se \u00e9 ou do corpo que se tem e seus restos? 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