{"id":431,"date":"2024-05-31T06:53:39","date_gmt":"2024-05-31T09:53:39","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=431"},"modified":"2024-11-04T12:02:32","modified_gmt":"2024-11-04T15:02:32","slug":"mulheres-obedecam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/05\/31\/mulheres-obedecam\/","title":{"rendered":"Mulheres, obede\u00e7am!"},"content":{"rendered":"<h6>Oscar Reymundo (EBP\/AMP)<\/h6>\n<blockquote><p><em>Ningu\u00e9m \u00e9 mais escravo do que aquele que acredita ser livre.<br \/>\n<\/em>(Johann Goethe)<\/p>\n<p>O processo de empoderamento feminista tem ampliado o acesso de mulheres \u00e0 cidadania, principalmente, atrav\u00e9s de medidas que visam \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de equidade entre g\u00eaneros. A despeito disso, a viol\u00eancia contra a mulher vem apresentando consider\u00e1vel recrudescimento, evidenciando a presen\u00e7a resistente de um \u00f3dio mis\u00f3gino.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Esse aumento da viol\u00eancia contra as mulheres parece, ent\u00e3o, guardar uma rela\u00e7\u00e3o com a for\u00e7a que, na nossa cultura, vem adquirindo o discurso do empoderamento feminista e seus efeitos de novas conquistas de direitos. Trata-se da pot\u00eancia de um discurso que permite a muitas mulheres, cada uma do seu jeito, assumir, fora e dentro de casa, posicionamentos e responsabilidades em espa\u00e7os tradicionalmente considerados e reservados para os homens, sem, por isso, necessitar cobrir seus novos corpos com roupas masculinas, ou roupas que ocultem um corpo feminino.<\/p>\n<p>Foi em uma experi\u00eancia de supervis\u00e3o de psic\u00f3logas de uma institui\u00e7\u00e3o que acolhe mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia, quando tive a oportunidade de perceber o uso, como imperativo de \u00e9poca, que se pode fazer do significante \u201cempoderamento\u201d, e os efeitos violentos, sacrificiais, que o Discurso do Mestre, erguendo o significante \u201cempoderamento\u201d como S1, pode produzir no interior de parcerias amorosas. De fato, uma esp\u00e9cie de <em>furor curandis<\/em> de um eu d\u00e9bil, baseado na ilus\u00e3o de um eu consistente, dono de si, e sem conflitos, fazia do empoderamento uma lei f\u00e9rrea que impregnava as interven\u00e7\u00f5es das profissionais, apagando o sujeito do inconsciente. Assim, algumas mulheres eram tomadas por essas interven\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o estavam isentas de um dizer culpabilizante por tr\u00e1s dos ditos sobre os direitos femininos, nem sequer respeitados pelas pr\u00f3prias v\u00edtimas. Muitas destas mulheres ficaram expostas \u00e0s respostas violentas dos seus parceiros amorosos \u2013 acima de tudo, as mulheres que, depois de retirada a den\u00fancia que fizeram contra seus parceiros, voltaram para casa \u201cempoderadas\u201d, brandindo reivindica\u00e7\u00f5es e direitos feministas, e reencontravam o \u00f3dio e a viol\u00eancia de um homem que se acha propriet\u00e1rio do corpo e da vida da \u201csua\u201d mulher.<\/p>\n<p>Sabemos, a partir das elabora\u00e7\u00f5es de Lacan, que existe uma correspond\u00eancia entre discurso e la\u00e7o social, uma vez que o discurso \u00e9 pensado como a estrutura do la\u00e7o. Interrogar, ent\u00e3o, o corpo aprisionado pelo discurso \u00e9 levar em considera\u00e7\u00e3o a diferen\u00e7a do corpo do ser falante com o seu organismo, uma vez que, no ser falante, o organismo est\u00e1 atravessado e perturbado pela linguagem. N\u00e3o nascemos com um corpo, mas com um organismo. O corpo, feito de palavras, o habitamos&#8230; ou n\u00e3o. O corpo do ser falante \u00e9 um corpo falado que fala e \u00e9 essa a sua singularidade e o seu mist\u00e9rio. Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, na sua confer\u00eancia \u201cHacia el Foro de Roma\u201d, nos diz que \u201cO ser falante \u00e9, em primeiro lugar, um corpo\u201d <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Na mesma linha, Araceli Fuentes nos diz que \u201cO corpo \u00e9 o lugar do Outro na medida em que \u00e9 no corpo onde se escreve a hist\u00f3ria do sujeito\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Voltando, ent\u00e3o, \u00e0quela experi\u00eancia de supervis\u00e3o, foi necess\u00e1rio distinguir palavra de comunica\u00e7\u00e3o para introduzir o sintoma constitu\u00eddo por uma estrutura significante que o determina. Assim, foi poss\u00edvel uma pergunta surgir orientando o trabalho: o que leva uma mulher, v\u00edtima de viol\u00eancia, a ficar aprisionada no la\u00e7o com um homem violento? Embora a resposta para essa pergunta s\u00f3 possa ser formulada por cada mulher, na sua singularidade, esse aprisionamento se manifesta na repeti\u00e7\u00e3o de um circuito de maus-tratos e viol\u00eancia, de den\u00fancias, de cancelamento das den\u00fancias, da volta para casa, de novos maus-tratos, de novos epis\u00f3dios de viol\u00eancia&#8230; Algo inalcan\u00e7\u00e1vel pelo simb\u00f3lico e, por isso, ilimitado, que divide a mulher, opera nessa repeti\u00e7\u00e3o, deixando-a fragilizada perante situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia. Algo que, na psican\u00e1lise, chamamos de gozo opaco \u00e0 ordem simb\u00f3lica, que habita o corpo e resiste ao sentido. Um resto que precisa de uma orienta\u00e7\u00e3o Outra, n\u00e3o sacrificial. Uma orienta\u00e7\u00e3o que, em lugar de deixar os corpos presos no circuito de maus-tratos, possibilitasse espa\u00e7os onde fazer falar e ouvir as hist\u00f3rias escritas nos corpos dessas mulheres.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria das sociedades humanas poderia ser contada pelo vi\u00e9s das tentativas que cada cultura fez, e continua fazendo, para controlar o incontrol\u00e1vel desses excessos que toma os corpos dos sujeitos na posi\u00e7\u00e3o feminina. O discurso religioso, manifesta\u00e7\u00e3o do Discurso do Mestre, foi e continua sendo uma das formas de controle desse gozo atrav\u00e9s da petrifica\u00e7\u00e3o dos corpos<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Assim, fogueiras, manic\u00f4mios, c\u00e1rceres, hospitais, tratamentos adaptativos, cemit\u00e9rios se tornam poss\u00edveis destinos dos corpos de quem atravessa os limites do mundo daquele que encarna o poder patriarcal, que n\u00e3o se limita aos homens. Em 2023, a C\u00e2mara de Deputados do Brasil aprovou a Lei de Igualdade Salarial. Dos 36 parlamentares que votaram contra a lei, 10 foram deputadas de partidos pol\u00edticos cujos l\u00edderes sustentaram, com suas falas e a\u00e7\u00f5es, a posi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o do Pai da horda primeva, que ostenta a propriedade sexual dos corpos de todas as mulheres. Dez deputadas que se somaram a mais uma tentativa de produzir corpos obedientes, dirigida \u00e0 mulher como encarna\u00e7\u00e3o do enigma do feminino.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Caldas, H.; Dupin, G. \u201cO am\u00f3dio ao feminino e a viol\u00eancia nas parcerias\u201d. In: Danzioto, L. et al. <em>Viol\u00eancia de g\u00eanero e \u00f3dio ao feminino<\/em>. Curitiba: Editora CRV, 2021, p. 127.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Brousse, M.-H. \u201cEl extra\u00f1o que yerra\u201d. In: <em>Blog Zadig Espa\u00f1a<\/em>. 10 de fevereiro de 2018. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/zadigespana.wordpress.com\/2018\/02\/10\/el-extrano-que-yerra\/\">https:\/\/zadigespana.wordpress.com\/2018\/02\/10\/el-extrano-que-yerra\/<\/a>. Acessado em 17\/05\/2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Fuentes, A. <em>El misterio del cuerpo hablante<\/em>. Barcelona: Gedisa, 2016, p. 24.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 220.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oscar Reymundo (EBP\/AMP) Ningu\u00e9m \u00e9 mais escravo do que aquele que acredita ser livre. (Johann Goethe) O processo de empoderamento feminista tem ampliado o acesso de mulheres \u00e0 cidadania, principalmente, atrav\u00e9s de medidas que visam \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de equidade entre g\u00eaneros. 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