{"id":402,"date":"2024-05-21T10:00:14","date_gmt":"2024-05-21T13:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=402"},"modified":"2024-05-21T10:09:34","modified_gmt":"2024-05-21T13:09:34","slug":"o-inconsciente-e-o-corpo-falante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/05\/21\/o-inconsciente-e-o-corpo-falante\/","title":{"rendered":"O inconsciente e o corpo falante*"},"content":{"rendered":"<h6>por\u00a0<strong>JACQUES-ALAIN MILLER<\/strong><\/h6>\n<p>Mais do que na cereja sobre o bolo, prefiro pensar na infus\u00e3o que lhes servirei como um digestivo, depois das iguarias trazidas por este Congresso, a fim de abrir o apetite enquanto pensam naquele que acontecer\u00e1 daqui a dois anos. Espera-se, ent\u00e3o, que eu introduza o tema do pr\u00f3ximo Congresso.<\/p>\n<p>Digo a mim mesmo que isso dura h\u00e1 mais de trinta anos, se considerarmos que os Congressos da AMP deram continuidade aos\u00a0<em>Encontros do Campo Freudiano<\/em>\u00a0que come\u00e7aram em 1980. Aqui estamos, portanto, mais uma vez, ao p\u00e9 do mesmo muro (<em>mur<\/em>). A palavra\u00a0<em>Muro\u00a0<\/em>me veio \u00e0 cabe\u00e7a, ela n\u00e3o deixa de evocar o neologismo que debocha do amor. \u00c9 ao\u00a0<em>amuro\u00a0<\/em>(<em>amur<\/em>) que devo a honra invari\u00e1vel de dar o\u00a0<em>l\u00e1\u00a0<\/em>da sinfonia, aquela que os membros da AMP, n\u00f3s, ter\u00e3o de compor ao longo dos dois anos que se passar\u00e3o antes de nos encontrarmos? Seria esse um fato de transfer\u00eancia remanescente com rela\u00e7\u00e3o ao lugar daquele a quem coube a tarefa de fundar nossa Associa\u00e7\u00e3o outrora? Mas, como acabo de lembrar, assumi essa tarefa, de intitular, de dar um nome, pelo menos um tema, desde antes, desde o primeiro Encontro Internacional que aconteceu em Caracas com a presen\u00e7a de Lacan. Se h\u00e1 amuro, eu n\u00e3o o remeterei \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de fundador, em nada consagrada nos nossos estatutos, mas gostaria de referi-lo \u00e0 de um batedor, fun\u00e7\u00e3o que me atribu\u00ed ao intitular meu curso como \u00abA Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana\u00bb.<\/p>\n<p>Amuro quer dizer sobretudo que \u00e9 preciso atravessar, a cada vez, o muro da linguagem, pata tentar cingir mais de perto \u2013 n\u00e3o digamos o real \u2013 o que fazemos em nossa pr\u00e1tica anal\u00edtica. Orientar-me pelo pensamento de Lacan constituiu minha preocupa\u00e7\u00e3o e sei que a compartilhamos. A\u00a0<em>Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise<\/em>, de fato, n\u00e3o tem outra coes\u00e3o. Essa preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 no princ\u00edpio do conjunto que formamos, para al\u00e9m dos estatutos, dos mutualismos e at\u00e9 mesmo mais al\u00e9m dos la\u00e7os de amizade, de simpatia que se tecem entre n\u00f3s no decorrer dos anos.<\/p>\n<p>Lacan reivindicava a dignidade para seu pensamento. Deve-se, dizia ele, ao fato de se esmerar em sair dos clich\u00eas. De fato, esse pensamento atordoa. Trata-se, para n\u00f3s, de segui-lo nas vias in\u00e9ditas. Essas vias s\u00e3o com frequ\u00eancia obscuras, ainda mais quando Lacan mergulha em seu \u00faltimo ensino. Poder\u00edamos t\u00ea-lo deixado ali, abandon\u00e1-lo. Mas nos engajamos em segui-lo. Os dois \u00faltimos Congressos atestam isso.<\/p>\n<p>Por que nos engajarmos nisto, nesse dif\u00edcil ramo \u00faltimo de seu ensino? Nosso gosto pela decifra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 gratuito. Tenho esse gosto, n\u00f3s o temos pelo fato de sermos analistas. E o somos o bastante para perceber, mediante alguns clar\u00f5es perfurando as nuvens obscuras da proposi\u00e7\u00e3o de Lacan, o fato de ele ter conseguido destacar um realce que nos instrui sobre o que se tornou a psican\u00e1lise, que n\u00e3o est\u00e1 mais exatamente em conformidade com o que se pensava sobre ela. Numa posi\u00e7\u00e3o extremada, ele chegou at\u00e9 a dizer que a pr\u00e1tica anal\u00edtica era uma pr\u00e1tica delirante. N\u00e3o nos deteremos nisso<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise muda. N\u00e3o \u00e9 um desejo, mas um fato. Ela muda em nossos consult\u00f3rios de analistas e essa mudan\u00e7a, no fundo, \u00e9 para n\u00f3s t\u00e3o manifesta que o Congresso de 2012 sobre a ordem simb\u00f3lica, assim como o deste ano sobre o real, t\u00eam, cada um, em seu t\u00edtulo, a mesma men\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica: \u00abno s\u00e9culo XXI\u00bb. Como dizer melhor o fato de termos o sentimento do novo e, com ele, a percep\u00e7\u00e3o da urg\u00eancia da necessidade de uma atualiza\u00e7\u00e3o? Como n\u00e3o termos, por exemplo, a ideia de uma fissura quando Freud inventou a psican\u00e1lise, se assim podemos dizer, sob a \u00e9gide da rainha Vit\u00f3ria, paradigma da repress\u00e3o da sexualidade, ao passo que o s\u00e9culo XXI conhece a difus\u00e3o maci\u00e7a do que \u00e9 chamado de\u00a0<em>porn\u00f4<\/em>, ou seja, o coito exibido, tornado espet\u00e1culo,\u00a0<em>show<\/em>\u00a0acess\u00edvel a cada um pela internet por meio de um simples clique com o\u00a0<em>mouse<\/em>? De Vit\u00f3ria ao porn\u00f4, n\u00e3o apenas passamos da interdi\u00e7\u00e3o \u00e0 permiss\u00e3o, mas \u00e0 incita\u00e7\u00e3o, \u00e0 intrus\u00e3o, \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o, ao for\u00e7amento. O que \u00e9 o porn\u00f4 sen\u00e3o uma fantasia filmada com uma variedade pr\u00f3pria para satisfazer os apetites perversos em sua diversidade? Nada melhor que a profus\u00e3o imagin\u00e1ria de corpos se entregando a um \u00abse dar\u00bb e a um \u00abse pegar\u00bb para mostrar a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual\u00a0<em>no real.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 algo novo na sexualidade, em seu regime social, em seus modos de aprendizagem, entre os jovens, entre as jovens classes que entram na carreira. Eis ent\u00e3o os masturbadores aliviados de terem de produzir eles mesmos os sonhos quando despertos, uma vez que os encontram feitos, j\u00e1 sonhados para eles. O sexo fr\u00e1gil, no que concerne ao porn\u00f4, \u00e9 o masculino, que cede a isso de muito bom grado. Quantas vezes n\u00e3o ouvimos em an\u00e1lise homens que se queixam das compuls\u00f5es de acompanhar as perip\u00e9cias pornogr\u00e1ficas e at\u00e9 mesmo de estoc\u00e1-las em uma reserva eletr\u00f4nica! Do outro lado, o das esposas e das amantes, pratica-se menos do que o conhecimento que se tem da pr\u00e1tica de seu parceiro. Ent\u00e3o, depende: considera-se uma trai\u00e7\u00e3o ou um divertimento sem consequ\u00eancias. Essa cl\u00ednica da pornografia \u00e9 do s\u00e9culo XXI \u2013 s\u00f3 a evoco, mas ela mereceria ser detalhada por ser insistente e porque h\u00e1 aproximadamente quinze anos tornou-se extremamente presente nas an\u00e1lises.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o evocar, a prop\u00f3sito dessa pr\u00e1tica t\u00e3o contempor\u00e2nea, o que foi, assinalado por Lacan como a irrup\u00e7\u00e3o dos efeitos do cristianismo na arte, efeitos levados a seu apogeu pelo barroco? De volta de uma turn\u00ea pelas igrejas da It\u00e1lia, que ele chamava de\u00a0<em>uma orgia,\u00a0<\/em>Lacan notava, em seu Semin\u00e1rio\u00a0<em>Mais, ainda:\u00a0<\/em>\u00abtudo \u00e9 exibi\u00e7\u00e3o de corpo evocando o gozo\u00bb<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[1]<\/a>. No que concerne \u00e0 pornografia, estamos nisso. Contudo, a exibi\u00e7\u00e3o religiosa dos corpos l\u00e2nguidos deixa sempre fora de seu campo a pr\u00f3pria copula\u00e7\u00e3o, assim como\u00a0<em>a copula\u00e7\u00e3o est\u00e1 fora do campo,<\/em>\u00a0diz Lacan,\u00a0<em>na realidade humana<\/em>.<\/p>\n<p>Curioso retorno desta express\u00e3o: \u00abrealidade humana\u00bb. Ela foi usada pelo primeiro tradutor de Heidegger, para o franc\u00eas, a fim de expressar o\u00a0<em>Dasein<\/em>. Mas h\u00e1 um bom tempo cortamos a via do deixar-ser desse\u00a0<em>Dasein<\/em>. Na era da t\u00e9cnica, a copula\u00e7\u00e3o n\u00e3o fica mais confinada no privado nutrindo as fantasias particulares a cada um. Ela foi reintegrada ao campo da representa\u00e7\u00e3o, passando a uma escala de massa.<\/p>\n<p>Uma segunda diferen\u00e7a entre o porn\u00f4 e o barroco deve ainda ser enfatizada. Tal como definido por Lacan, o barroco visaria \u00e0 regula\u00e7\u00e3o da alma por meio da vis\u00e3o dos corpos, da escopia corporal. N\u00e3o h\u00e1 nada disso no porn\u00f4, nenhuma regula\u00e7\u00e3o, h\u00e1 mais, antes, uma perp\u00e9tua infra\u00e7\u00e3o. A escopia corporal funciona na pornografia como uma provoca\u00e7\u00e3o a um gozo destinado a se fartar sob o modo do\u00a0<em>mais-gozar,\u00a0<\/em>modo transgressivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 regula\u00e7\u00e3o homeost\u00e1tica e prec\u00e1ria em sua realiza\u00e7\u00e3o silenciosa e solit\u00e1ria. Em geral, a cerim\u00f4nia se realiza sem falas, de ponta a ponta na tela, mas com os suspiros ou gritos da m\u00edmica do prazer. A adora\u00e7\u00e3o do falo, outrora segredo dos mist\u00e9rios, permanece um epis\u00f3dio central \u2013 exceto no porn\u00f4 l\u00e9sbico -, por\u00e9m, doravante, banalizado.<\/p>\n<p>A difus\u00e3o planet\u00e1ria da pornografia por meio da tela eletr\u00f4nica teve, sem d\u00favida, efeitos dos quais o psicanalista recebe testemunhos. O que diz, o que representa a onipresen\u00e7a do porn\u00f4 no come\u00e7o deste s\u00e9culo? Nada sen\u00e3o:\u00a0<em>a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe.<\/em>\u00a0\u00c9 isso que \u00e9 repercutido, de algum modo cantado, por esse espet\u00e1culo incessante e sempre dispon\u00edvel. Pois apenas essa aus\u00eancia \u00e9 suscet\u00edvel de dar conta dessa empolga\u00e7\u00e3o, cujas consequ\u00eancias nos costumes das novas gera\u00e7\u00f5es, quanto ao estilo das rela\u00e7\u00f5es sexuais, j\u00e1 estamos acompanhando: desencantamento, brutaliza\u00e7\u00e3o, banaliza\u00e7\u00e3o. A f\u00faria copulat\u00f3ria alcan\u00e7a na pornografia um\u00a0<em>zero\u00a0<\/em>de sentido, que faz os leitores de\u00a0<em>A fenomenologia do esp\u00edrito\u00a0<\/em>pensarem no que disse Hegel sobre a morte infligida pela liberdade universal diante do terror: ela \u00e9 \u00aba mais fria e a mais rasa, sem maior significa\u00e7\u00e3o do que o cortar a cabe\u00e7a de um repolho ou engolir um gole d&#8217;\u00e1gua\u00bb<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[3]<\/a>. A copula\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica tem a mesma vacuidade sem\u00e2ntica.<\/p>\n<p><em>A rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe!\u00a0<\/em>\u00c9 preciso entender essa senten\u00e7a com a \u00eanfase posta por Plutarco quando relata, o \u00fanico a faz\u00ea-lo na Antiguidade, a fala fatal que ressoa sobre o mar:\u00a0<em>O grande P\u00e3 est\u00e1 morto!\u00a0<\/em>O epis\u00f3dio figura no di\u00e1logo intitulado \u00abSobre o desaparecimento dos or\u00e1culos\u00bb, que outrora evoquei em meu curso<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[4]<\/a>. E a fala ressoa como o \u00faltimo or\u00e1culo anunciando que, depois dele, n\u00e3o haver\u00e1 mais or\u00e1culos. Como o or\u00e1culo que anuncia o desaparecimento dos or\u00e1culos. De fato, nessa \u00e9poca, sob Tib\u00e9rio, em todo o territ\u00f3rio do imp\u00e9rio romano, os santu\u00e1rios nos quais a multid\u00e3o outrora se aglomerava para solicitar e recolher os or\u00e1culos conheceram um desafeto crescente. Uma muta\u00e7\u00e3o invis\u00edvel caminhando nas profundezas do gosto fechava a boca dos or\u00e1culos inspirados pelos dem\u00f4nios da m\u00e2ntica \u2013 digo<em>\u00a0dem\u00f4nios<\/em>\u00a0n\u00e3o pelo fato de eles serem malvados, mas porque eram chamados de dem\u00f4nios os seres intermedi\u00e1rios entre os deuses e os homens, e a figura de P\u00e3 sem d\u00favida os representava.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o sermos sens\u00edveis ao destino dos or\u00e1culos, j\u00e1 que um dia, de fato, eles desapareceram em uma zona onde foram avidamente procurados, uma vez que nossa pr\u00e1tica de interpreta\u00e7\u00e3o, temos o costume de dizer, \u00e9 oracular. Mas nosso or\u00e1culo, para n\u00f3s, \u00e9 justamente o dito de Lacan sobre a rela\u00e7\u00e3o sexual. Ele nos permite p\u00f4r em seu lugar o fato da pornografia e Lacan o formulou muito antes da chegada da pornografia eletr\u00f4nica da qual falo. Esta n\u00e3o \u00e9 de modo algum \u2013 quem o cogitaria? \u2013 a solu\u00e7\u00e3o dos impasses da sexualidade. Ela \u00e9 sintoma desse imp\u00e9rio da t\u00e9cnica, que vai estendendo seu reino sobre as mais diversas civiliza\u00e7\u00f5es do planeta, at\u00e9 mesmo as mais retr\u00f3gradas. N\u00e3o se trata de depor as armas diante desse sintoma e de outros da mesma fonte. Eles exigem da psican\u00e1lise interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem sabe essa digress\u00e3o sobre a pornografia nos d\u00ea acesso ao t\u00edtulo do pr\u00f3ximo Congresso? Apresentei, por ocasi\u00e3o de um desses Congressos e Leonardo Gorostiza o lembrou, a disciplina que escolhi me impor na escolha do tema para a AMP. Eles se d\u00e3o em grupo de tr\u00eas, dizia eu, e cada um, alternadamente, d\u00e1 a preval\u00eancia a uma das tr\u00eas categorias de Lacan, cujas iniciais s\u00e3o R.S.I. Depois de \u00abA ordem simb\u00f3lica&#8230;\u00bb, depois de \u00abUm real&#8230;\u00bb, seria de se esperar, como Gorostiza e outros deduziram perfeitamente, que o imagin\u00e1rio viesse em primeiro plano. De que melhor forma isso poderia se fazer sen\u00e3o a t\u00edtulo do corpo, uma vez que encontramos a seguinte equival\u00eancia formulada por Lacan:\u00a0<em>o imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo<\/em>. E ela n\u00e3o \u00e9 isolada, seu ensino, em seu conjunto, testemunha a favor dessa equival\u00eancia.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, nesse ensino, o corpo se introduz, inicialmente, como imagem, imagem no espelho. Disso decorre o fato de Lacan dar ao eu [<em>moi<\/em>] um estatuto que se distingue singularmente daquele que Freud lhe reconhecia em sua segunda t\u00f3pica. Em segundo lugar, \u00e9 ainda com um jogo de imagem que Lacan ilustra a articula\u00e7\u00e3o prevalecente entre o Ideal do eu e o eu ideal, cujos termos ele toma emprestado de Freud, mas para formaliz\u00e1-los de maneira in\u00e9dita. Em terceiro, essa afinidade entre o corpo e o imagin\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m reafirmada em seu ensino dos n\u00f3s. A constru\u00e7\u00e3o borromeana enfatiza que \u00e9 pelo vi\u00e9s de sua imagem que o corpo participa, primeiro, da economia do gozo. Em quarto lugar, mais al\u00e9m, o corpo condiciona tudo o que o registro imagin\u00e1rio aloja de representa\u00e7\u00f5es: significado, sentido e significa\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria imagem do mundo. \u00c9 no corpo imagin\u00e1rio que as palavras da l\u00edngua fazem entrar as representa\u00e7\u00f5es, que nos constituem um mundo ilus\u00f3rio sob o modelo da unidade do corpo. Aqui est\u00e3o muitas raz\u00f5es para escolher que o pr\u00f3ximo Congresso fa\u00e7a variar o tema do corpo na dimens\u00e3o do imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Estava quase endossando essa ideia quando me dei conta de que o corpo, como\u00a0<em>corpo falante,<\/em>\u00a0muda de registro. O que \u00e9 o corpo falante?\u00a0<em>Ah, \u00e9 um mist\u00e9rio<\/em><a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\"><em>[5]<\/em><\/a>, disse Lacan um dia. Esse dito de Lacan deve ser ainda mais mantido pelo fato de que\u00a0<em>mist\u00e9rio\u00a0<\/em>n\u00e3o \u00e9\u00a0<em>matema,\u00a0<\/em>\u00e9 at\u00e9 mesmo o oposto. Em Descartes, o que faz mist\u00e9rio, mas permanece indubit\u00e1vel, \u00e9 a uni\u00e3o da alma com o corpo. A \u00abSexta medita\u00e7\u00e3o\u00bb lhe \u00e9 dedicada e, por si s\u00f3, ela mobilizou tanto a engenhosidade de seu mais eminente comentador quanto as cinco precedentes. Essa uni\u00e3o, uma vez que ela concerne meu corpo,\u00a0<em>meum corpus<\/em>, vale como terceira subst\u00e2ncia entre subst\u00e2ncia pensamento e subst\u00e2ncia extens\u00e3o. Esse corpo, diz Descartes \u2013 a cita\u00e7\u00e3o \u00e9 famosa -, \u00abn\u00e3o apenas estou alojado em meu corpo, como um piloto em seu navio, mas, al\u00e9m disso, estou muito estreitamente ligado a ele e de tal forma confundido e misturado que componho com ele como uma s\u00f3 totalidade\u00bb<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[6]<\/a>. Sabemos que a d\u00favida hiperb\u00f3lica figurada pela hip\u00f3tese do g\u00eanio maligno poupa o\u00a0<em>cogito<\/em>\u00a0e nos entrega, dele, a certeza como um resto que resiste \u00e0 d\u00favida, at\u00e9 mesmo a mais ampla que se possa conceber. Sabe-se menos que,\u00a0<em>a posteriori,\u00a0<\/em>precisamente nessa sexta medita\u00e7\u00e3o, descobre-se que a d\u00favida poupava tamb\u00e9m a uni\u00e3o do\u00a0<em>eu penso\u00a0<\/em>com o corpo<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[7]<\/a>, aquele que se distingue, entre todos, por ser o corpo desse\u00a0<em>eu penso<\/em>.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, para dar-se conta disso, \u00e9 preciso prolongar o arco desse\u00a0<em>a posteriori\u00a0<\/em>at\u00e9 Edmund Husserl e suas\u00a0<em>Medita\u00e7\u00f5es cartesianas.\u00a0<\/em>Ali, ele distingue com uma palavra preciosa, de um lado, os corpos f\u00edsicos entre os quais os de meus semelhantes e, do outro,\u00a0<em>meu corpo.\u00a0<\/em>E, para meu corpo, ele introduz um termo especial. Ele escreve: &#8220;Penso minha carne com uma caracteriza\u00e7\u00e3o singular,\u00a0<em>meinen Leibe<\/em>, a saber, o que, sozinho, n\u00e3o \u00e9 um simples corpo, mas sim uma carne, o \u00fanico objeto no interior de minha camada abstrata da experi\u00eancia ao qual atribuo um campo de sensa\u00e7\u00e3o \u00e0 altura da experi\u00eancia&#8221;<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[8]<\/a>. A palavra preciosa \u00e9\u00a0<em>carne,\u00a0<\/em>distinta do que s\u00e3o os corpos f\u00edsicos. Por carne, ele entende o que aparecia a Descartes sob as formas da uni\u00e3o da alma e do corpo.<\/p>\n<p>Essa carne \u00e9 sem d\u00favida apagada no\u00a0<em>Dasein<\/em>\u00a0heideggeriano, embora tenha alimentado a reflex\u00e3o de Merleau-Ponty em sua obra inacabada\u00a0<em>O vis\u00edvel e o invis\u00edvel<\/em><a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[9]<\/a>, livro ao qual Lacan dedicou sua aten\u00e7\u00e3o ao longo de seu Semin\u00e1rio\u00a0<em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em><a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[10]<\/a>. Ali, ele n\u00e3o enfatiza seu interesse por esse voc\u00e1bulo, mas, no entanto, o voc\u00e1bulo carne ser\u00e1 retomado por ele quando evoca a carne que traz a marca do signo. O signo recorta a carne, a desvitaliza e a cadaveriza, o corpo, ent\u00e3o, se separa dela. Na distin\u00e7\u00e3o entre o corpo e a carne, o corpo se mostra apto para figurar, como superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o, o lugar do Outro do significante. Para n\u00f3s, o mist\u00e9rio cartesiano da uni\u00e3o psicossom\u00e1tica se desloca. O que faz mist\u00e9rio, mas permanece indubit\u00e1vel, \u00e9 o que resulta do dom\u00ednio do simb\u00f3lico sobre o corpo. Para diz\u00ea-lo em termos cartesianos: o mist\u00e9rio \u00e9 sobretudo o da uni\u00e3o da fala com o corpo. Por esse fato de experi\u00eancia, pode-se dizer que ele \u00e9 do registro do real. Conv\u00e9m, ent\u00e3o, dar lugar a isto que o \u00faltimo ensino de Lacan prop\u00f5e: um nome novo para o inconsciente. H\u00e1 uma palavra para diz\u00ea-lo. N\u00e3o podemos mant\u00ea-la para o Congresso por se tratar de um neologismo. N\u00e3o se pode traduzi-la. Se voc\u00eas se reportarem ao texto intitulado \u00abTelevis\u00e3o\u00bb<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[11]<\/a>, voc\u00eas ver\u00e3o que, ali, interpelo Lacan a prop\u00f3sito da palavra inconsciente. Digo-lhe muito simplesmente: \u00abInconsciente \u2013 que palavra esquisita!\u00bb. \u00c9 que j\u00e1 me parecia n\u00e3o ser um termo que conjugasse muito bem com o ponto no qual ele estava em sua doutrina. Ele me respondeu \u2013 voc\u00eas podem ver, j\u00e1 viram, j\u00e1 sabem \u2013 com uma recusa categ\u00f3rica: \u00abFreud n\u00e3o encontrou outra melhor e n\u00e3o h\u00e1 porque voltar a isso\u00bb. Portanto, ele admite que essa palavra \u00e9 imperfeita e desiste de qualquer tentativa de mud\u00e1-la. Dois anos mais tarde, por\u00e9m, ele muda de opini\u00e3o, se considerarmos seu escrito \u00abJoyce o Sintoma\u00bb<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[12]<\/a>, no qual lan\u00e7a o neologismo de que falava,\u00a0<em>o falasser,\u00a0<\/em>a respeito do qual ele profetiza que substituir\u00e1 a palavra freudiana inconsciente.<\/p>\n<p>Eis aqui a opera\u00e7\u00e3o que proponho a fim de nos dar a b\u00fassola para nosso pr\u00f3ximo Congresso. Essa met\u00e1fora, a substitui\u00e7\u00e3o do inconsciente freudiano pelo falasser lacaniano, fixa um lampejo. Proponho tom\u00e1-la como \u00edndice do que muda na psican\u00e1lise no s\u00e9culo XXI, quando ela deve levar em conta\u00a0<em>outra\u00a0<\/em>ordem simb\u00f3lica e\u00a0<em>outro\u00a0<\/em>real diferentes daqueles sobre os quais ela se estabelecera.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise muda. \u00c9 um fato. Ela havia mudado, enfatizava Lacan com mal\u00edcia, uma vez que ela foi inicialmente praticada na solid\u00e3o, por Freud, e que, em seguida, ela passou a ser praticada por um par. Mas ela conheceu muitas outras mudan\u00e7as que podemos mensurar, do momento em que lemos Freud, e at\u00e9 mesmo lemos, relemos o primeiro Lacan. Ela muda, de fato, apesar de nossa atrelagem a palavras e a esquemas antigos. \u00c9 um esfor\u00e7o continuado permanecer o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da experi\u00eancia para diz\u00ea-la sem se deixar esmagar sob o muro da linguagem. Para nos ajudar a ultrapass\u00e1-lo \u00e9 preciso um (<em>a<\/em>)<em>muro<\/em><a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[13]<\/a>, uma palavra agalm\u00e1tica que perfura esse muro. E encontro essa palavra no falasser.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o estar\u00e1 no cartaz do pr\u00f3ximo Congresso. Mas, entre n\u00f3s, saberemos que se trata do falasser que se substitui ao inconsciente, uma vez que analisar o falasser n\u00e3o \u00e9 mais exatamente a mesma coisa que analisar o inconsciente no sentido de Freud, nem mesmo o inconsciente estruturado como uma linguagem. Diria inclusive o seguinte: fa\u00e7amos a aposta de que analisar o falasser \u00e9 o que j\u00e1 fazemos, resta-nos saber diz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Aprendemos a diz\u00ea-lo, por exemplo, quando falamos do sintoma como de um\u00a0<em>sinthoma.\u00a0<\/em>A\u00ed est\u00e1 uma palavra, um conceito que \u00e9 da \u00e9poca do falasser. Ele traduz um deslocamento do conceito de sintoma, do inconsciente ao falasser. Como voc\u00eas sabem, o sintoma como forma\u00e7\u00e3o do inconsciente estruturado como uma linguagem \u00e9 uma met\u00e1fora, um efeito de sentido induzido pela substitui\u00e7\u00e3o de um significante por outro. Em contrapartida, o sinthoma de um falasser \u00e9 um acontecimento de corpo, uma emerg\u00eancia de gozo. O corpo em quest\u00e3o, ali\u00e1s, nada diz que \u00e9 o de voc\u00eas. Voc\u00ea pode ser o sintoma de outro corpo desde que voc\u00ea seja uma mulher. H\u00e1 histeria quando h\u00e1 sintoma de sintoma, quando voc\u00ea faz sintoma\u00a0<em>do\u00a0<\/em>sintoma de um outro, ou seja, sintoma no segundo grau. O sintoma do falasser resta, sem d\u00favida, a ser esclarecido em sua rela\u00e7\u00e3o com os tipos cl\u00ednicos \u2013 apenas evoco, sobre os rastros de Lacan, o que acontece na histeria.<\/p>\n<p>N\u00e3o chegaremos a isso esquecendo a estrutura do sintoma do inconsciente, nem tampouco esquecendo que a segunda t\u00f3pica de Freud n\u00e3o anula a primeira, mas se comp\u00f5e com ela. Do mesmo modo, Lacan n\u00e3o veio para apagar Freud, mas para prolong\u00e1-lo. Os remanejamentos de seu ensino se fazem sem fissuras utilizando-se os recursos de uma topologia conceitual que garante a continuidade sem interditar a renova\u00e7\u00e3o. Assim, de Freud a Lacan, diremos que o mecanismo do recalque nos \u00e9 explicitado pela met\u00e1fora, tal como do inconsciente ao falasser a met\u00e1fora nos d\u00e1 o envelope formal do acontecimento de corpo. O recalque explicitado pela met\u00e1fora \u00e9 uma cifra\u00e7\u00e3o e a opera\u00e7\u00e3o de cifra\u00e7\u00e3o trabalha para o gozo que afeta o corpo. \u00c9 com um remendo como este, de pe\u00e7as diversas, de diferentes \u00e9pocas, tomadas emprestadas de Freud e de Lacan, que se tece nossa reflex\u00e3o &#8211; n\u00e3o temos de recuar diante do fato de assim fazer um remendo a fim de avan\u00e7ar na circunscri\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Aponto outro voc\u00e1bulo \u2013 depois de sinthoma -, da \u00e9poca do falasser e que situarei ao lado do sinthoma. \u00c9 uma palavra que obriga tamb\u00e9m a proceder a uma nova classifica\u00e7\u00e3o das no\u00e7\u00f5es que nos s\u00e3o familiares. A palavra que situo ao lado de sinthoma \u00e9\u00a0<em>escabelo\u00a0<\/em>[<em>escabeau<\/em>], que tomo emprestado de \u00abJoyce o Sintoma\u00bb\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[14]<\/a>. O escabelo n\u00e3o \u00e9 uma escada \u2013 \u00e9 menor que uma escada -, mas tem degraus. O que \u00e9 o escabelo? Penso no escabelo psicanal\u00edtico, n\u00e3o apenas aquele que precisamos para pegar os livros na estante de uma biblioteca. O escabelo \u00e9, de um modo geral, aquilo sobre o qual o falasser se ergue, sobe\u00a0<em>para se fazer belo.\u00a0<\/em>\u00c9 seu pedestal, que lhe permite elevar a si mesmo \u00e0 dignidade da Coisa<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[15]<\/a>. Isto, por exemplo, \u00e9 um pequeno escabelo para mim [mostrando o pequeno estrado sob a mesa].<\/p>\n<p>O escabelo \u00e9 um conceito transversal. Traduz de maneira imag\u00e9tica a sublima\u00e7\u00e3o freudiana, mas em seu cruzamento com o narcisismo. Aqui est\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o que \u00e9 propriamente da \u00e9poca do falasser. O escabelo \u00e9 a sublima\u00e7\u00e3o, mas na medida em que ela se funda sobre o\u00a0<em>eu n\u00e3o penso\u00a0<\/em>inicial do falasser. O que \u00e9 esse\u00a0<em>eu n\u00e3o penso<\/em>? \u00c9 a nega\u00e7\u00e3o do inconsciente por meio da qual o falasser se cr\u00ea senhor de seu ser. E, com seu escabelo, ele acrescenta a isso o fato de se crer um senhor belo. O que chamamos de cultura n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m da reserva dos escabelos na qual se vai buscar com o que esticar o colarinho e bancar o glorioso.<\/p>\n<p>Para dar o exemplo dessas categorias que parecem despontar e das quais necessitamos, me dizia que poderia tentar tra\u00e7ar um paralelo entre o sinthoma e o escabelo. O que fomenta o escabelo? O falasser sob sua face de gozo da fala. Esse gozo da fala origina os grandes ideais do Bem, do Verdadeiro e do Belo. O sinthoma, em compensa\u00e7\u00e3o, como sintoma do falasser, est\u00e1 ligado a seu corpo. O sintoma surge da marca escavada pela fala quando ela toma a apar\u00eancia do dizer e faz acontecimento de corpo. O escabelo est\u00e1 do lado do gozo da fala que inclui o sentido. Em contrapartida, o gozo pr\u00f3prio ao sinthoma exclui o sentido.<\/p>\n<p>Se Lacan se apaixonou por James Joyce e especialmente por sua obra\u00a0<em>Finnegans Wake<\/em>, foi devido \u00e0 fa\u00e7anha \u2013 ou \u00e0 farsa \u2013 que representa por fazer convergir sintoma e escabelo. Em termos exatos, Joyce fez do pr\u00f3prio sintoma como fora do sentido, inintelig\u00edvel, o escabelo de sua arte. Ele criou uma literatura cujo gozo \u00e9 t\u00e3o opaco quanto o do sintoma, nem por isso deixando de ser um objeto de arte elevado sobre o escabelo \u00e0 dignidade da Coisa. Podemos nos perguntar se a m\u00fasica, a pintura, as Belas Artes tiveram seu Joyce. Talvez o que corresponda a Joyce, no registro da m\u00fasica, seja a composi\u00e7\u00e3o atonal, inaugurada por Schoenberg, de quem ouvimos falar h\u00e1 pouco<a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[16]<\/a>. E, no que concerne ao que chamamos de Belas Artes, o iniciador talvez tenha sido um certo Marcel Duchamp. Joyce, Schoenberg, Duchamp s\u00e3o fabricantes de escabelos destinados a fazer arte com o sintoma, com o gozo opaco do sintoma. E ter\u00edamos bastante dificuldade em ponderar sobre o que \u00e9 o\u00a0<em>escabelo-sintoma\u00a0<\/em>no que concerne \u00e0 cl\u00ednica. Temos, antes, de tirar disso uma li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, digam-me uma coisa, fazer de seu sintoma um escabelo n\u00e3o \u00e9 precisamente o de que se trata no passe, no qual se joga com seu sintoma e com seu gozo opaco? Fazer uma an\u00e1lise \u00e9 trabalhar a castra\u00e7\u00e3o do escabelo para trazer \u00e0 luz o gozo opaco do sintoma. Fazer o passe \u00e9 jogar com o sintoma assim esvaziado, a fim de fazer dele um escabelo, sob os aplausos do grupo anal\u00edtico. E, para diz\u00ea-lo em termos freudianos, isso \u00e9 evidentemente um fato de sublima\u00e7\u00e3o e os aplausos n\u00e3o s\u00e3o fortuitos. O momento em que a assist\u00eancia est\u00e1 satisfeita faz parte do passe. Pode-se at\u00e9 dizer que o passe se realiza a\u00ed. No tempo de Lacan, nunca se narrou os relatos de passe ao p\u00fablico. A opera\u00e7\u00e3o ficava sepultada nas profundezas da institui\u00e7\u00e3o. Ela s\u00f3 era conhecida por um pequeno n\u00famero de iniciados. O passe era uma quest\u00e3o para n\u00e3o mais de dez pessoas. Digamos que eu inventei fazer uma mostra\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos passes porque eu sabia, eu pensava, acreditava que isso era a pr\u00f3pria ess\u00eancia do passe. Os escabelos a\u00ed est\u00e3o para fazer a beleza, pois esta \u00e9 a defesa \u00faltima contra o real. Mas, uma vez que os escabelos s\u00e3o derrubados, queimados, resta ainda ao falasser analisado demonstrar seu saber fazer com o real, saber fazer com ele um objeto de arte, seu saber dizer, saber bem diz\u00ea-lo. \u00c9 o que constitui o estopim, a tomada da palavra que ele \u00e9 convidado a fazer. O acontecimento de passe n\u00e3o \u00e9 a nomea\u00e7\u00e3o, a decis\u00e3o de um coletivo de expertos. O acontecimento de passe \u00e9 o dizer de um sozinho, o Analista da Escola, quando ele ordena sua experi\u00eancia, quando ele a interpreta em benef\u00edcio de todo aquele que vem ao Congresso, o qual se trata de seduzir e inflamar. E isso foi posto \u00e0 prova, amplamente, durante o \u00faltimo Congresso.<\/p>\n<p>Um dizer \u00e9 um modo da fala que se distingue de fazer acontecimento. Freud discriminava, entre os modos da consci\u00eancia: consciente, pr\u00e9-consciente e inconsciente. Para n\u00f3s, se h\u00e1 modos a se distinguir n\u00e3o s\u00e3o relativos \u00e0 consci\u00eancia, mas modos da fala. Em termos de ret\u00f3rica, h\u00e1 a met\u00e1fora e a meton\u00edmia. Em termos de l\u00f3gica, h\u00e1 o modal e o apof\u00e2ntico, o afirmativo e mesmo o imperativo. Na perspectiva estil\u00edstica, h\u00e1 o clich\u00ea, o prov\u00e9rbio, o refr\u00e3o. E da fala depende a escrita. Pois bem, quando inconsciente \u00e9 conceitualizado a partir da fala e n\u00e3o mais a partir da consci\u00eancia, ele porta um nome novo: o falasser. O ser de que se trata n\u00e3o precede a fala. \u00c9 o contr\u00e1rio, a fala outorga o ser a esse animal por um efeito\u00a0<em>a posteriori.\u00a0<\/em>Desde ent\u00e3o, seu corpo se separa desse ser para passar para o registro do ter. O falasser\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9 o corpo, ele o tem<\/em><a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[17]<\/a>.<\/p>\n<p>O falasser tem de se haver com seu corpo como imagin\u00e1rio, assim como tem de se haver com o simb\u00f3lico. O terceiro termo, o real, \u00e9 o complexo ou o implexo dos dois outros. Trata-se do corpo falante com seus dois gozos, gozo da fala e gozo do corpo: um leva ao escabelo, o outro sustenta o sinthoma. No falasser h\u00e1, a um s\u00f3 tempo, gozo do corpo e tamb\u00e9m gozo que se deporta para fora do corpo, gozo da fala que Lacan identifica, com aud\u00e1cia e com l\u00f3gica, ao gozo f\u00e1lico, uma vez que este \u00e9 desarm\u00f4nico em rela\u00e7\u00e3o ao corpo. O corpo falante goza, portanto, em dois registros: por um lado, ele goza de si mesmo, ele se afeta de gozo, ele\u00a0<em>se goza \u2013\u00a0<\/em>uso do verbo na forma reflexiva; por outro, um \u00f3rg\u00e3o desse corpo se distingue de gozar de si mesmo, ele condensa e isola um gozo \u00e0 parte que se reparte entre os objetos\u00a0<em>a.\u00a0<\/em>Nesse sentido, o corpo falante \u00e9 dividido quanto a seu gozo. Esse corpo n\u00e3o \u00e9 unit\u00e1rio como o imagin\u00e1rio o faz crer. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 preciso que o gozo f\u00e1lico se separe, no imagin\u00e1rio, na opera\u00e7\u00e3o chamada de castra\u00e7\u00e3o. O corpo falante fala em termos de puls\u00f5es. Isso autorizava Lacan a apresentar a puls\u00e3o sob o modelo de uma cadeia significante. Ele prosseguiu na via desse desdobramento em sua l\u00f3gica da fantasia, na qual ele disjunta o Isso e o inconsciente. Mas, em contrapartida, o conceito de corpo est\u00e1 na jun\u00e7\u00e3o do Isso com o inconsciente. Ele lembra que as cadeias significantes que deciframos \u00e0 maneira freudiana s\u00e3o conectadas com o corpo e s\u00e3o feitas de subst\u00e2ncia gozante. Quanto ao Isso, Freud dizia que ele era o grande reservat\u00f3rio da libido. Esse dito \u00e9 deportado para o corpo falante que, como tal, \u00e9 subst\u00e2ncia gozante. \u00c9\u00a0<em>do\u00a0<\/em>corpo que s\u00e3o extra\u00eddos os objetos\u00a0<em>a<\/em>; \u00e9\u00a0<em>no\u00a0<\/em>corpo que \u00e9 buscado o gozo para o qual trabalha o inconsciente.<\/p>\n<p>Freud dizia que a teoria das puls\u00f5es era uma mitologia. O gozo, em compensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um mito. No cap\u00edtulo 7 da\u00a0<em>Die Traumdeutung,\u00a0<\/em>Freud chama o aparelho ps\u00edquico de uma fic\u00e7\u00e3o. O corpo falante, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 no corpo que Freud encontra o princ\u00edpio de sua fic\u00e7\u00e3o do aparelho ps\u00edquico. Ele \u00e9 constru\u00eddo sobre o arco reflexo como um processo regulado de maneira a manter o mais baixo poss\u00edvel a quantidade de excita\u00e7\u00e3o. Lacan substituiu o aparelho ps\u00edquico estruturado pelo arco reflexo pelo inconsciente estruturado como uma linguagem. N\u00e3o se trata de est\u00edmulo-resposta, mas de significante-significado. S\u00f3 que \u2013 e esta \u00e9 uma express\u00e3o de Lacan j\u00e1 enfatizada e explicitada por mim \u2013 essa linguagem \u00e9 uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber sobre\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em><a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9#notas\">[18]<\/a>, lal\u00edngua do corpo falante. Disso decorre o fato de o inconsciente ser, ele pr\u00f3prio, uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber sobre o corpo falante, sobre o falasser.<\/p>\n<p>O que \u00e9 uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber? \u00c9 uma articula\u00e7\u00e3o de semblantes a um s\u00f3 tempo se desprendendo do real e envelopando-o. A muta\u00e7\u00e3o maior que atinge a ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI \u00e9 o fato de ela ser, doravante, amplamente conhecida como uma articula\u00e7\u00e3o de semblantes. As categorias tradicionais que organizam a exist\u00eancia passam para o n\u00edvel de simples constru\u00e7\u00f5es sociais, votadas \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 apenas o fato de os semblantes vacilarem, mas de eles serem reconhecidos como semblantes. E, devido a um curioso entrecruzamento, \u00e9 a psican\u00e1lise que, por meio de Lacan, restitui o outro termo da polaridade conceitual: nem tudo \u00e9 semblante, h\u00e1 um real.<\/p>\n<p>O real do la\u00e7o social \u00e9 a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. O real do inconsciente \u00e9 o corpo falante. Enquanto a ordem simb\u00f3lica era concebida como um saber regulando o real e lhe impondo sua lei, a cl\u00ednica era dominada pela oposi\u00e7\u00e3o entre neurose e psicose. Agora, a ordem simb\u00f3lica \u00e9 reconhecida como um sistema de semblantes que n\u00e3o comanda o real, mas lhe \u00e9 subordinada. Um sistema respondendo ao real da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Disso resulta, se assim posso dizer, uma declara\u00e7\u00e3o de igualdade cl\u00ednica fundamental entre os falasseres. Os seres falantes est\u00e3o condenados \u00e0 debilidade mental pelo pr\u00f3prio mental, precisamente pelo imagin\u00e1rio como imagin\u00e1rio de corpo e imagin\u00e1rio de sentido. O simb\u00f3lico imprime no corpo imagin\u00e1rio representa\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas tecidas e desatadas pelo corpo falante. \u00c9 nesse sentido que sua debilidade destina o corpo falante como tal ao del\u00edrio. Perguntamo-nos como algu\u00e9m que foi analisado poderia ainda se imaginar como sendo normal.<\/p>\n<p>Na economia do gozo, um significante mestre equivale a um outro. Da debilidade ao del\u00edrio, a consequ\u00eancia \u00e9 boa. A \u00fanica via que se abre mais al\u00e9m \u00e9, para o falasser, fazer-se tolo [<em>dupe<\/em>] de um real, quer dizer, montar um discurso no qual os semblantes obstringem um real, um real no qual se crer sem a ele aderir, um real que n\u00e3o tem sentido, indiferente ao sentido e que s\u00f3 pode ser aquilo que ele \u00e9. A debilidade \u00e9, ao contr\u00e1rio, a tapea\u00e7\u00e3o [<em>duperie<\/em>] do poss\u00edvel. Ser tolo, tapeado por um real \u2013 o que ostento \u2013 \u00e9 a \u00fanica lucidez aberta ao corpo falante para se orientar. Debilidade \u2013 del\u00edrio \u2013 tapea\u00e7\u00e3o, esta \u00e9 a trilogia de ferro que repercute o n\u00f3 do imagin\u00e1rio, do simb\u00f3lico e do real.<\/p>\n<p>Antigamente falava-se das indica\u00e7\u00f5es de an\u00e1lise. Avaliava-se se tal estrutura se prestava \u00e0 an\u00e1lise e se indicava a recusa da an\u00e1lise para quem a demandava por falta de indica\u00e7\u00f5es. Na \u00e9poca do falasser, digamos a verdade, analisa-se qualquer um. Analisar o falasser demanda jogar uma partida entre del\u00edrio, debilidade e tapea\u00e7\u00e3o. \u00c9 dirigir um del\u00edrio de maneira que sua debilidade ceda \u00e0 tapea\u00e7\u00e3o do real. Freud tinha ainda de se haver com o que ele chamava de recalque. E pudemos constatar, nos relatos de passe, a que ponto essa categoria \u00e9, doravante, pouco utilizada. Claro, h\u00e1 relembran\u00e7as. Mas nada atesta a autenticidade de alguma delas. Nenhuma \u00e9 final. O chamado retorno do recalcado \u00e9 sempre arrastado no fluxo do falasser, no qual a verdade se revela incessantemente mentirosa. No lugar do recalcado, a an\u00e1lise do falasser instala a verdade mentirosa que decorre do que Freud reconheceu como o recalque origin\u00e1rio. Isso quer dizer que a verdade \u00e9 intrinsicamente da mesma ess\u00eancia que a mentira. O\u00a0<em>proton pseudos<\/em>\u00a0\u00e9 tamb\u00e9m o falso \u00faltimo. O gozo, ou os gozos do corpo falante, por\u00e9m, \u00e9 aquilo que n\u00e3o mente.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fragmento de constru\u00e7\u00e3o incidindo sobre um elemento isolado do recalque, como o pensava Freud. Ela n\u00e3o \u00e9 a elucubra\u00e7\u00e3o de um saber. Ela n\u00e3o \u00e9 tampouco um efeito de verdade logo absorvido pela sucess\u00e3o das mentiras. A interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 um dizer que visa ao corpo falante para produzir nele um acontecimento, para\u00a0<em>passar para as tripas,\u00a0<\/em>dizia Lacan. Isso n\u00e3o se antecipa, mas se verifica\u00a0<em>a posteriori<\/em>, pois o efeito de gozo \u00e9 incalcul\u00e1vel. Tudo o que a an\u00e1lise pode fazer \u00e9 afinar-se com a pulsa\u00e7\u00e3o do corpo falante para se insinuar no sintoma. Quando se analisa o inconsciente, o sentido da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a verdade. Quando se analisa o falasser, o corpo falante, o sentido da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 o gozo. Esse deslocamento da verdade ao gozo d\u00e1 a medida do que se torna a pr\u00e1tica anal\u00edtica na era do falasser.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, proponho, para o pr\u00f3ximo Congresso, nos reunirmos sob a seguinte bandeira: \u00abO inconsciente e o corpo falante\u00bb. Isto \u00e9 um mist\u00e9rio, dizia Lacan. Tentaremos penetrar nele e esclarec\u00ea-lo. Para tanto, que cidade nos seria mais prop\u00edcia sen\u00e3o o Rio de Janeiro? Com o nome\u00a0<em>P\u00e3o de A\u00e7\u00facar<\/em>, ela tem como emblema o mais magn\u00edfico dos escabelos.<\/p>\n<p>Obrigado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>*Confer\u00eancia de encerramento do IX Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (Paris, abr 2014), apresentando o tema de seu X Congresso (Rio de Janeiro, abr 2016). Vers\u00e3o estabelecida por Anne-Charlote Gauthier, \u00c8ve Miller-Rose e Guy Briole. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Avellar Ribeiro. Revis\u00e3o: Marcus Andr\u00e9 Vieira. Texto oral, n\u00e3o revisto pelo autor e publicado com sua am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>NOTAS<\/h6>\n<h6>1-Lacan J.,\u00a0<em>O Semin\u00e1rio,\u00a0<\/em>livro 20:\u00a0<em>mais, ainda,<\/em>\u00a0Rio de Janeiro, JZE, 2008, p. 121.<\/h6>\n<h6>2-Hegel G.W.F.,\u00a0<em>Ph\u00e9nom\u00e9nologie de l&#8217;esprit<\/em>, trad. J. Hippolyte, t. 2, Paris, Aubier, 1941, p. 136.<\/h6>\n<h6>3-Cf. Miller J.-A., \u00ab A orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Um esfor\u00e7o de poesia \u00bb, li\u00e7\u00e3o de 13 de novembro de 2002, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>4-Cf. Lacan J.,\u00a0<em>O Semin\u00e1rio,\u00a0<\/em>livro 20:\u00a0<em>mais, ainda, op. cit<\/em>., p. 140.<\/h6>\n<h6>5-Descartes R., \u00ab M\u00e9ditation sixi\u00e8me \u00bb,\u00a0<em>M\u00e9ditations. <\/em><em>Objections et r\u00e9ponses<\/em>, Paris, Gallimard, 1953, p. 326.<\/h6>\n<h6>6-<em>Ibid.<\/em>, p. 330.<\/h6>\n<h6>7-Husserl E.,\u00a0<em>M\u00e9ditations cart\u00e9siennes<\/em>.<\/h6>\n<h6>8-Merleau-Ponty M., \u00ab L&#8217;entrelacs \u2013 Le chiasme \u00bb,<em>\u00a0Le Visible et l&#8217;invisible<\/em>, Paris, Gallimard, 1964, p. 172-204.<\/h6>\n<h6>9-Lacan J.,\u00a0<em>O Semin\u00e1rio,\u00a0<\/em>livro 11:\u00a0<em>os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise,\u00a0<\/em>Rio de Janeiro, JZE, 1985, p. 75.<\/h6>\n<h6>10-Lacan J., \u00ab Televis\u00e3o \u00bb,\u00a0<em>Outros escritos<\/em>, Rio de Janeiro, JZE, 2003, p. 510.<\/h6>\n<h6>11-Cf. Lacan J., \u00ab Joyce o Sintoma \u00bb,\u00a0<em>Outros escritos, op<\/em>. cit., p. 564. Sobre esse ponto, reportar-se tamb\u00e9m ao :\u00a0<em>O Semin\u00e1rio,\u00a0<\/em>livro 23:\u00a0<em>o sinthoma,<\/em>\u00a0Rio de Janeiro, JZE, 2007, p. 55 : \u00ab no sujeito que se sustenta no falasser, que \u00e9 o que designo como sendo o inconsciente \u00bb.<\/h6>\n<h6>12-Lacan J.,\u00a0<em>Je parle aux murs<\/em>, Paris, Seuil, 2011, p. 103.<\/h6>\n<h6>13-Cf. Lacan J., \u00ab Joyce o Sintoma \u00bb,\u00a0<em>op. cit<\/em>., p. 560-565.<\/h6>\n<h6>14-Lacan J.,\u00a0<em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 7:\u00a0<em>a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>, Rio de Janeiro, JZE, 1988, p. 141.<\/h6>\n<h6>15-Cf. Masson D., \u00ab Impromptu. Les chemins du r\u00e9el en musique \u00bb, interven\u00e7\u00e3o por ocasi\u00e3o do IX Congresso da AMP, Paris, 17 de abril de 2014, in\u00e9dito \u2013 dispon\u00edvel \u00e0 escuta na internet, no site\u00a0<em>radiolacan.com.<\/em>e em v\u00eddeo no site\u00a0<em>congresamp2014<\/em>.<\/h6>\n<h6>16-Cf. Lacan J.,\u00a0<em>O Semin\u00e1rio,\u00a0<\/em>livro 23:\u00a0<em>o sinthoma,\u00a0<\/em>Rio de Janeiro, JZE, 2007, p. 150.<\/h6>\n<p>17-Cf. Lacan J.,\u00a0<em>O Semin\u00e1rio,\u00a0<\/em>livro 20:\u00a0<em>mais, ainda, op. cit<\/em>., p. 149.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por\u00a0JACQUES-ALAIN MILLER Mais do que na cereja sobre o bolo, prefiro pensar na infus\u00e3o que lhes servirei como um digestivo, depois das iguarias trazidas por este Congresso, a fim de abrir o apetite enquanto pensam naquele que acontecer\u00e1 daqui a dois anos. Espera-se, ent\u00e3o, que eu introduza o tema do pr\u00f3ximo Congresso. 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