{"id":400,"date":"2024-05-21T09:55:47","date_gmt":"2024-05-21T12:55:47","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=400"},"modified":"2024-05-21T10:10:05","modified_gmt":"2024-05-21T13:10:05","slug":"habeas-corpus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/05\/21\/habeas-corpus\/","title":{"rendered":"Habeas corpus*"},"content":{"rendered":"<h6><em>por\u00a0<strong>JACQUES-ALAIN MILLER<\/strong><\/em><\/h6>\n<p>\nH\u00e1 dois anos, em Paris, apontei nossa b\u00fassola, a b\u00fassola da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, de modo que ela indicasse a dire\u00e7\u00e3o do \u00faltimo ensino de Lacan. Eis a\u00ed o que orientou nosso X Congresso. Seu t\u00edtulo me foi inspirado pela frase que termina um dos cap\u00edtulos do Semin\u00e1rio 20: \u201cO real \u2026 \u00e9 o mist\u00e9rio do corpo falante, \u00e9 o mist\u00e9rio do inconsciente\u201d<sup>1<\/sup>. Por conseguinte, sugeri ent\u00e3o como tema \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d.<\/p>\n<p>Mas podemos constatar \u2013 creio \u2013 que o brilho do corpo o fez se sobrepor ao tema do inconsciente. Para n\u00f3s, a novidade, que apareceu como tal, foi tratar do corpo falante. Salvo algum erro de minha parte, a presen\u00e7a do termo \u201cinconsciente\u201d passou inteiramente para o segundo plano deste Congresso. Diria que foi bom ter sido assim, pois nos fez entrar com entusiasmo na quest\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m o que me d\u00e1 a ocasi\u00e3o de apresentar algumas pontua\u00e7\u00f5es para elucidar a natureza do \u00faltimo ensino de Lacan, seu lugar na trajet\u00f3ria de conjunto e o uso que podemos fazer dele, hoje. Vou ent\u00e3o me deter, antes de propor um novo t\u00edtulo para Barcelona, nenhuma decis\u00e3o foi tomada ainda a esse respeito.<\/p>\n<p><strong>O l\u00f3gico puro<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo participei de um col\u00f3quio que tratava das rela\u00e7\u00f5es entre Lacan e as matem\u00e1ticas. Dele participaram psicanalistas e matem\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Dei como t\u00edtulo \u00e0 minha contribui\u00e7\u00e3o: \u201cUm sonho de Lacan\u201d<sup>2<\/sup>. Qual sonho?<\/p>\n<p>Tratei como um sonho de Lacan seu desejo de associar a psican\u00e1lise n\u00e3o somente \u00e0 lingu\u00edstica estrutural, mas tamb\u00e9m \u00e0s matem\u00e1ticas e, especialmente, \u00e0 l\u00f3gica matem\u00e1tica. Foi um sonho s\u00f3 de Lacan? N\u00e3o. Toda uma gera\u00e7\u00e3o, a gera\u00e7\u00e3o estruturalista, professores e alunos, acreditou no mesmo sonho. Lembrem-se, por exemplo, das esperan\u00e7as que algu\u00e9m como Roland Barthes tinha colocado na semiologia estruturalista.<\/p>\n<p>Para centrar as coisas, vou dar uma f\u00f3rmula que resume o que foi o sonho de Lacan. Essa f\u00f3rmula passou despercebida, pois s\u00f3 figura no texto da quarta capa dos\u00a0<em>Escritos.<\/em>\u00a0Nesse texto, o \u00faltimo que Lacan escreveu para a edi\u00e7\u00e3o de seu livro, uma frase indica que ele acreditava ter demonstrado que \u201co inconsciente deriva do que \u00e9 l\u00f3gico puro\u201d (<em>l\u2019inconscient rel\u00e8ve du logique<\/em>\u00a0<em>pur\u00a0<\/em>)<sup>3<\/sup>\u00a0\u2013 sejamos atentos com a tradu\u00e7\u00e3o, talvez seja mais f\u00e1cil traduzir se dissermos que, melhor examinado, o inconsciente \u00e9 constitu\u00eddo apenas por elementos de pura l\u00f3gica. O adjetivo \u201cpuro\u201d est\u00e1 a\u00ed para enfatizar que, segundo Lacan, o Lacan dos\u00a0<em>Escritos<\/em>, o inconsciente \u00e9 somente quest\u00e3o de l\u00f3gica. Essa l\u00f3gica, no final do livro, chega mesmo a dominar a lingu\u00edstica.\u00a0<em>O<\/em>\u00a0<em>l\u00f3gico puro\u00a0<\/em>\u00e9 o que explica por que se fala de \u201csujeito do inconsciente\u201d, e n\u00e3o de \u201co homem\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00c9tica<\/strong><\/p>\n<p>O sujeito do inconsciente, o sujeito do qual Lacan fala, aquele inscrito\u00a0<sup>por ele com um $<\/sup>, n\u00e3o tem, falando propriamente, corpo. Pois o corpo n\u00e3o deriva do \u201cl\u00f3gico puro\u201d. O sujeito tem uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica, o que significa que ele n\u00e3o \u00e9 um\u00a0<em>ente<\/em>\u00a0(<em>\u00e9tant<\/em>), n\u00e3o tem manifesta\u00e7\u00f5es f\u00edsicas determinadas. Ele n\u00e3o pertence \u00e0 dimens\u00e3o do \u00f4ntico. N\u00e3o posso retomar, aqui, essa distin\u00e7\u00e3o, essencial em filosofia, entre o ontol\u00f3gico e o \u00f4ntico \u2013 apenas a evoco<sup>4<\/sup>\u00a0. O sujeito tem uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica, precisamente porque n\u00e3o tem manifesta\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Quando uma entidade tem uma manifesta\u00e7\u00e3o f\u00edsica, ela deriva do \u00f4ntico e n\u00e3o do ontol\u00f3gico. Ali\u00e1s, porque o sujeito inconsciente tem uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica, \u00e9 poss\u00edvel introduzir a tem\u00e1tica da cren\u00e7a, tal como nos mostrou a sequ\u00eancia das apresenta\u00e7\u00f5es de Graciela Brodsky e de Jorge Forbes<sup>5<\/sup>.<\/p>\n<p>Lembremos que, desde o Semin\u00e1rio\u00a0<em>11<\/em>, dedicado aos quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise, Lacan situava que a realidade do inconsciente \u00e9\u00a0<em>\u00e9tica<\/em><sup>6<\/sup>. Em outras palavras, ele sublinhava que a realidade do inconsciente deriva de um\u00a0<em>dever ser<\/em>. A realidade do inconsciente n\u00e3o pode ser constatada como a de uma manifesta\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Constatamos essa dimens\u00e3o \u00e9tica cada vez que uma an\u00e1lise se inicia \u2013 tentamos avaliar, naquele que a demanda, se a vontade de n\u00e3o ser indiferente ao fen\u00f4meno freudiano est\u00e1 mesmo presente. Pode-se muito bem dizer: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada a fazer\u2026 n\u00e3o tenho nada a esperar ao contar meus sonhos e tentar lhes dar um sentido\u201d. Isso \u00e9 totalmente leg\u00edtimo. Mas \u00e9 preciso haver, na origem, um sujeito que decida, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o ser indiferente ao fen\u00f4meno freudiano.<\/p>\n<p>Considero que a f\u00f3rmula de algum modo conclusiva dos\u00a0<em>Escritos<\/em>, \u201co inconsciente deriva do que \u00e9 l\u00f3gico puro\u201d, governa a trajet\u00f3ria de Lacan at\u00e9 seu \u00faltimo ensino. A\u00ed, opera-se uma cesura (<em>c\u00e9sure<\/em>). N\u00e3o digo uma quebra (<em>cassure<\/em>), pois as transforma\u00e7\u00f5es conceituais de Lacan \u2013 quando ele mexe seus apetrechos (<em>attirail<\/em>), acrescenta elementos \u2013 s\u00e3o sempre alinhadas (<em>liss\u00e9es<\/em>), se alinham (<em>lisses<\/em>) , tal como deforma\u00e7\u00f5es topol\u00f3gicas, num cont\u00ednuo (<em>en<\/em>\u00a0<em>continu).<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Corpo falante<\/strong><\/p>\n<p>O \u00faltimo ensino come\u00e7a quando a f\u00f3rmula que parecia constitutiva do lacanismo, \u201co inconsciente deriva do l\u00f3gico puro\u201d, \u00e9 renegada, renunciada, abjurada. Ela \u00e9 substitu\u00edda por uma outra que n\u00e3o \u00e9 dita como tal, mas que posso fazer aparecer:\u00a0<em>o inconsciente deriva do corpo falante<\/em>.<\/p>\n<p>Lacan dota de um corpo o sujeito do inconsciente, e \u00e9 por isso que n\u00e3o se trata mais do sujeito do inconsciente. Lacan diz, mais simplesmente, \u201co homem\u201d<sup>7<\/sup>\u00a0\u2013 Spinoza, por exemplo, tamb\u00e9m diz assim<sup>8<\/sup>. \u00c9 essencial apreender um primeiro ponto: o homem, diferentemente do sujeito, tem um corpo. Em segundo lugar, esse corpo \u00e9 falante \u2013 isso figura no t\u00edtulo deste Congresso. Em terceiro lugar, n\u00e3o \u00e9 o corpo que fala. N\u00e3o \u00e9 o corpo que fala por iniciativa pr\u00f3pria, \u00e9 sempre o homem que fala\u00a0<em>com<\/em>\u00a0seu corpo<sup>9<\/sup>.\u00a0<em>Com<\/em>\u00a0\u00e9 uma preposi\u00e7\u00e3o cara a Lacan, \u00e0 qual ele d\u00e1 seu sentido preciso \u2013 a instrumenta\u00e7\u00e3o. O homem se serve do corpo para falar. A f\u00f3rmula do corpo falante n\u00e3o \u00e9 portanto feita pra abrir a porta para a fala do corpo. Ela abre a porta ao homem, no que ele se serve do corpo para falar. E, com efeito, Lacan n\u00e3o inclu\u00eda essa dimens\u00e3o no inconsciente, tal como ele figura nos\u00a0<em>Escritos<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1, ali\u00e1s, um\u00a0<em>topos<\/em>\u00a0lacaniano, uma refer\u00eancia frequente em Lacan a uma passagem de Arist\u00f3teles. Em seu\u00a0<em>De Anima<\/em>\u00a0<sup>10<\/sup>, Arist\u00f3teles sublinha \u2013 e Lacan o aprova \u2013 que n\u00e3o \u00e9 a alma que pensa, \u00e9 o homem que pensa com sua alma<sup>11<\/sup>. Do mesmo modo, o homem fala com seu corpo. O corpo \u00e9 seu instrumento para falar.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Inconsciente e puls\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A fala passa pelo corpo e, em retorno, afeta o corpo que \u00e9 seu emissor.<\/p>\n<p>De que maneira, sob que forma a fala afeta esse corpo que \u00e9 seu emissor? Ela o afeta sob a forma de fen\u00f4menos de resson\u00e2ncias e de ecos. A resson\u00e2ncia, o eco da fala no corpo<sup>12<\/sup>\u00a0s\u00e3o o real \u2013 o real, a um s\u00f3 tempo, do que Freud chamou de \u201cinconsciente\u201d e \u201cpuls\u00e3o\u201d. Nesse sentido, o inconsciente e o corpo falante s\u00e3o um \u00fanico e mesmo real. Vou dizer isso de novo para que essa pontua\u00e7\u00e3o essencial n\u00e3o nos escape. H\u00e1 equival\u00eancia entre inconsciente e puls\u00e3o, uma vez que esses dois termos t\u00eam uma origem comum, que \u00e9 o efeito da fala sobre o corpo, os afetos som\u00e1ticos da l\u00edngua, de\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, o inconsciente de que se trata n\u00e3o \u00e9 um inconsciente de pura l\u00f3gica, mas, se podemos dizer assim, um inconsciente de puro gozo. Para designar esse novo inconsciente, Lacan forjou uma palavra nova, um neologismo que come\u00e7a a se repetir, o\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0(<em>parl\u00eatre<\/em>), muito distinto do inconsciente freudiano que, como vimos, \u00e9 de ordem ontol\u00f3gica e \u00e9tica. Ao contr\u00e1rio, o\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0\u00e9 uma entidade \u00f4ntica, pois essa entidade tem necessariamente um corpo, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 gozo sem corpo. O conceito de\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0\u2013 \u00e9 o que proponho \u2013 repousa sobre a equival\u00eancia origin\u00e1ria inconsciente-puls\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se, portanto, de um inconsciente diferente do inconsciente freudiano, dando a Lacan a ocasi\u00e3o de fazer uma profecia: o falasser lacaniano substituir\u00e1, um dia, o inconsciente freudiano<sup>13<\/sup>. Essa profecia n\u00e3o \u00e9 totalmente s\u00e9ria. Lacan sabia que os nomes tradicionais t\u00eam um poder de remanesc\u00eancia, de resist\u00eancia, ao qual \u00e9 dif\u00edcil dar um fim. Mas indica assim ter transposto os limites atribu\u00eddos por Freud quanto ao inconsciente, pois no n\u00edvel em que Lacan situa seu prumo (<em>mesure<\/em>), a diferen\u00e7a, o binarismo entre inconsciente e puls\u00e3o desaparece. N\u00e3o se pode dizer que o \u00faltimo ensino prolonga a trajet\u00f3ria de Lacan. Ele marca uma b\u00e1scula, um reviramento, que \u00e9 acompanhado de uma cr\u00edtica da vasta arquitetura formada por sua conceitua\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Esse reviramento de Lacan acarretou outro, mais evidente, que surpreendeu a gera\u00e7\u00e3o estruturalista (pelo menos a francesa, pois ela j\u00e1 era mais extensa): aquele de Roland Barthes. Em Paris, todos ficaram pasmos com o fato de que o conhecido como quem promovia uma semiologia met\u00f3dica se fizesse o autor de um op\u00fasculo intitulado\u00a0<em>O prazer do texto<\/em><sup>14<\/sup>. Decifrou-se, ali, um reviramento sensacional na dire\u00e7\u00e3o de um hedonismo que, at\u00e9 ent\u00e3o, permanecera mais discreto. Por ter feito parte dos \u201cjovens\u201d da \u00e9poca da gera\u00e7\u00e3o estruturalista, posso dizer que Barthes fora sens\u00edvel \u00e0 nova \u00eanfase posta por Lacan sobre o gozo e que, por sua parte, ele tirou consequ\u00eancias disso. O t\u00edtulo do livro deveria ter sido\u00a0<em>O gozo do texto<\/em>\u00a0(<em>La jouissance du texte<\/em>), mas isso teria imediatamente revelado a influ\u00eancia de Lacan na qual Barthes encontrara sua inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Da linguagem \u00e0 l\u00edngua<\/strong><\/p>\n<p>Ocorreu-me outra analogia. Dois grandes fil\u00f3sofos do s\u00e9culo XX que apresentaram reviramentos por ocasi\u00e3o de seu \u00faltimo ensino \u2013 poder-se-ia fazer um cat\u00e1logo de pensadores com reviramentos: Martin Heidegger, que fala explicitamente do\u00a0<em>Kehre<\/em>, da virada de seu pensamento, e Ludwig Wittgenstein. Deixo Heidegger de lado para dizer uma palavra sobre Wittgenstein.<\/p>\n<p>Wittgenstein desenvolveu duas filosofias muito distintas. A primeira fazia do logicismo de Bertrand Russell o princ\u00edpio de uma concep\u00e7\u00e3o do mundo. Adotando a f\u00f3rmula lacaniana, dir\u00edamos que o mundo da primeira filosofia de Wittgenstein decorria da l\u00f3gica pura, tal como ele a concebia. Essa filosofia est\u00e1 exposta no c\u00e9lebre\u00a0<em>Tractatus logico-philosophicus<\/em><sup>15<\/sup>\u2013 e poder-se-ia dizer que os\u00a0<em>Escritos<\/em>\u00a0s\u00e3o um\u00a0<em>Tractatus logico\u2013psychoanalyticus.<\/em>\u00a0Depois do<\/p>\n<p><em>Tractatus\u2026<\/em>, Wittgenstein dar\u00e1 uma virada e tanto (<em>tournant en \u00e9pingle<\/em>).<\/p>\n<p>Criticando e abandonando o modelo da l\u00f3gica pura, mostra que o que \u00e9 l\u00f3gico depende da vida e dos costumes de um grupo. O que \u00e9 l\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 nada mais do que um jogo de linguagem. Antes do\u00a0<em>Tractatus\u2026,<\/em>\u00a0Wittgenstein acreditava, portanto, em uma l\u00f3gica \u00fanica. Depois, mostra que h\u00e1 tantas l\u00f3gicas quantos forem os \u201cjogos de linguagem\u201d e as formas de vida<sup>16<\/sup>.<\/p>\n<p><em>Mutatis mutandis<\/em>, a defasagem (<em>\u00e9cart<\/em>) em Lacan \u00e9 a mesma entre, em primeiro lugar,\u00a0<em>como uma linguagem<\/em>\u00a0e, em segundo,\u00a0<em>a l\u00edngua<\/em>. Em primeiro lugar, que o inconsciente seja estruturado como uma linguagem indica que, para toda linguagem, a estrutura \u00e9 a mesma.\u00a0<em>Como uma linguagem<\/em>\u00a0\u00e9, de fato, um universal da estrutura. Em segundo lugar, ao contr\u00e1rio, a l\u00edngua \u00e9 sempre particular<sup>17<\/sup>, ela consiste apenas em suas particularidades. Consequentemente, n\u00e3o h\u00e1 universal de l\u00ednguas, n\u00e3o h\u00e1\u00a0<em>todas<\/em>\u00a0as l\u00ednguas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A virada\u00a0<em>(tournant)<\/em>\u00a0lacaniana<\/strong><\/p>\n<p>Tentemos precisar o que foi a virada lacaniana. A orienta\u00e7\u00e3o inicial de Lacan consistiu em fender a heran\u00e7a freudiana. Ali\u00e1s, era o que faziam tamb\u00e9m os americanos e os ingleses, por sua parte, o que fazia a IPA. Eles dividiram Freud entre primeira e segunda t\u00f3picas. Escolheram seguir a segunda t\u00f3pica abandonando a primeira. A opera\u00e7\u00e3o de Lacan era mais complexa, mas \u00e9 igualmente uma opera\u00e7\u00e3o de divis\u00e3o que consiste em separar, de maneira bem n\u00edtida, como ele se expressa em seu \u201cDiscurso de Roma\u201d, a t\u00e9cnica de decifra\u00e7\u00e3o do inconsciente e a teoria das puls\u00f5es<sup>18<\/sup>. Em outras palavras, Lacan buscava uma separa\u00e7\u00e3o bem n\u00edtida entre o inconsciente e as puls\u00f5es. Est\u00e1 escrito com todas as letras, a orienta\u00e7\u00e3o de seu primeiro movimento \u00e9 essa separa\u00e7\u00e3o. O que interessava a Lacan era elaborar a decifra\u00e7\u00e3o \u2013 ou seja, fazer a teoria dessa t\u00e9cnica com a ajuda da lingu\u00edstica.<\/p>\n<p>Para ele, as puls\u00f5es, a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, o gozo faziam ent\u00e3o parte do imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico intervinha por meio da fala apenas para domin\u00e1-los e apag\u00e1-los.<\/p>\n<p>Podemos nos balizar pelo exemplo can\u00f4nico do\u00a0<em>fort-da<\/em>, no qual Lacan mostra, inicialmente, como o sujeito do significante domina o gozo, se faz senhor do gozo. Do ponto de vista do \u00faltimo ensino, o que pode ser dito a esse respeito? Que, ao contr\u00e1rio, o\u00a0<em>fort-da<\/em>\u00a0mostra-nos que, no princ\u00edpio mesmo da cadeia significante, h\u00e1 o\u00a0<em>gozo<\/em>\u2013<em>sentido<\/em>\u00a0(<em>jouis-sens<\/em>)<sup>19<\/sup>. O par\u00a0<em>fort-da<\/em>\u00a0realiza um efeito de sentido e permite efetuar uma produ\u00e7\u00e3o de gozo. No fundo, o\u00a0<em>fort-da<\/em>\u00a0nos mostra a crian\u00e7a acedendo ao\u00a0<em>falasser<\/em>, acedendo ao seu \u201cfalasser por natureza\u201d<sup>20<\/sup>.<\/p>\n<p>Detalhei, ao longo de muitos cursos, os esfor\u00e7os de Lacan para modelar a puls\u00e3o sobre a cadeia significante; mostrei que o princ\u00edpio do grafo de Lacan, o grafo do desejo, consistia em identificar a puls\u00e3o a uma cadeia significante, no patamar superior do grafo, com seu tesouro dos significantes\u00a0<sub>e seu ponto de basta<\/sub>\u00a0S( ). Ou seja, uma escrita da puls\u00e3o como se esta fosse apenas uma cadeia significante, como se ela tivesse a mesma estrutura que a cadeia significante.<\/p>\n<p>A grande solu\u00e7\u00e3o encontrada por Lacan durante muitos anos foi o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0\u2013 do qual ele fazia sua inven\u00e7\u00e3o maior. O objeto\u00a0<em>a<\/em>, ao mesmo tempo, faz parte da armadura da fantasia, est\u00e1 no \u00e2mago da puls\u00e3o e tem certas propriedades significantes. Notadamente, ele se apresenta por meio de unidades, \u00e9 cont\u00e1vel e enumer\u00e1vel, j\u00e1 \u00e9, portanto, um gozo. Se ele \u00e9\u00a0<em>mais-de-gozar<\/em>, \u00e9 um mais-de-gozar que j\u00e1 \u00e9 um degrad\u00ea (<em>d\u00e9grad\u00e9<\/em>) do gozo, uma modelagem do gozo no modelo do significante.<\/p>\n<p>A virada s\u00f3 ser\u00e1 conclu\u00edda (<em>accompli<\/em>) quando Lacan arrombar essa fechadura no\u00a0<em>Semin\u00e1rio<\/em>\u00a020, no qual n\u00f3s o vemos degradar (<em>d\u00e9grader<\/em>) o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0como um falso semblante (<em>faux semblant<\/em>)\u00a0<sup>21<\/sup>.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h6>*Interven\u00e7\u00e3o pronunciada por J.-A. Miller por ocasi\u00e3o do encerramento do X Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise:\u00a0<em>O corpo falante. Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI<\/em>, Rio de Janeiro, 25-28 de abril de 2016. Na Plen\u00e1ria ent\u00e3o intitulada \u201cDo Rio a Barcelona\u201d, contou tamb\u00e9m as interven\u00e7\u00f5es de Miquel Bassols e Guy Briole. A vers\u00e3o dessa interven\u00e7\u00e3o aqui publicada foi estabelecida por Guy Briole, Herv\u00e9 Damase, Pascale Fari e \u00c8ve Miller-Rose. Tradu\u00e7\u00e3o Vera Avellar Ribeiro. Revis\u00e3o: S\u00e9rgio Laia. Texto n\u00e3o relido pelo autor e publicado com sua am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>NOTAS<\/h6>\n<ol>\n<li>\n<h6>LACAN, Jacques (1972-1973\/2008).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio. Livro 20: mais, ainda<\/em>. Texto estabelecido por J.-A. Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de M.D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, p. 140.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain (2004). Un r\u00eave de Lacan. In : CARTIER, Pierre &amp; CHARRAUD, Nathalie (dir) (2004).\u00a0<em>Le r\u00e9el en math\u00e9matiques : psychanalyse et math\u00e9matiques<\/em>. Actes du colloque de Cerisy de 3 a 10 de septempre 1999. Paris : Agalma \/ Seuil, p. 10-133.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver texto na contra capa de: LACAN, Jacques (1966\/1998).\u00a0<em>Escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro : Zahar 1998 (trad. modif.). N.T. : Assinalamos que, tendo em vista as considera\u00e7\u00f5es feitas por Miller logo a seguir, modificamos a tradu\u00e7\u00e3o da frase acima citada.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver, sobretudo: MILLER, Jacques-Alain (2011).\u00a0<em>L\u2019orientation lacanienne. L\u2019\u00catre et l\u2019Un<\/em>. Ensino pronunciado no \u00e2mbito do Departamento de Psican\u00e1lise da Universit\u00e9 de Paris VIII (in\u00e9dito).<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Essas duas exposi\u00e7\u00f5es, em uma Plen\u00e1ria do X Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, compunham o corpo de uma sequ\u00eancia intitulada:\u00a0<em>Fazer-se tolo de um real : o que \u00e9<\/em><em>\u201ccrer no sinthoma\u201d?<\/em>.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>LACAN, Jacques (1964\/1988).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da<\/em><em>psican\u00e1lise<\/em>. Texto estabelecido por J.-A. Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, p. 37, principalmente.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver: LACAN, Jacques (1972-1973\/2008).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio. Livro 20: mais, ainda<\/em>\u2026 Ver<em>,<\/em>tamb\u00e9m: LACAN, Jacques (1979\/2003). Joyce o Sintoma. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, p. 560 e ss., onde Lacan emprega a escrita \u201cUOM\u201d (\u201cLOM\u201d).<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver: SPINOZA, Baruch.\u00a0<em>\u00c9tica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, p. 77- 157 (Edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue latim-portugu\u00eas). Ver tamb\u00e9m o coment\u00e1rio a esse respeito realizado por Miller na li\u00e7\u00e3o do dia 1\u00ba de dezembro de 2004 do curso\u00a0<em>A orienta\u00e7\u00e3o lacaniana: pe\u00e7as avulsas<\/em>: MILLER, Jacques-Alain (2004\/2006). Pe\u00e7as avulsas. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Avellar Ribeiro.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o<\/em><em>lacaniana<\/em>, n. 45, maio, p. 9-15.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver: LACAN, Jacques (1972-1973\/2008).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio. Livro 20: mais, ainda<\/em>, p. 127: \u201cFalo com meu corpo, e isto, sem saber\u201d.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>ARIST\u00d3TELES.\u00a0<em>De Anima<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Cec\u00edlia Gomes dos Reis. S\u00e3o Paulo, Editora 34, 2006.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver: LACAN, Jacques (1972-1973\/2008).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio. Livro 20: mais, ainda<\/em>, p. 119 : \u201co homem pensa\u00a0<em>com<\/em>\u2013 instrumento \u2013 sua alma\u201d. Ver, tamb\u00e9m: LACAN, Jacques (1979\/2003). Joyce o Sintoma. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>\u2026, p. 562.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver: LACAN, Jacques (1975-1976\/2007).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio. Livro<\/em>23:\u00a0<em>o sinthoma.<\/em>\u00a0Texto estabelecido por J.-A. Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro, p. 18: \u201cas puls\u00f5es s\u00e3o, no corpo, o eco do fato de que h\u00e1 um dizer\u201d.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>LACAN, Jacques (1979\/2003). Joyce o Sintoma. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>\u2026, p. 561: \u201cminha express\u00e3o falasser [<em>parl\u00eatre<\/em>]\u2026 vir\u00e1 substituir o ICS de Freud (inconsciente, \u00e9 assim que se l\u00ea)\u201d.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>BARTHES, Roland (1973\/1987).\u00a0<em>O prazer do texto.<\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jac\u00f3 Guinsburg. S\u00e3o Paulo: Perspectiva.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>WITTGENSTEIN, Ludwig (1921\/2001).\u00a0<em>Tractatus logico-philosophicus<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Henrique Lopes dos Santos. S\u00e3o Paulo: EDUSP.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>WITTGENSTEIN, Ludwig (1945 -1949\/2005).\u00a0<em>Investiga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Emmanuel Carneiro Le\u00e3o. Bragan\u00e7a Paulista e Petr\u00f3polis: Editora Universit\u00e1ria S\u00e3o Francisco e Vozes, 4<sup>a<\/sup>. edi\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver, entre outros: LACAN, Jacques (1970\/2003). Radiofonia. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>\u2026, p. 409.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>LACAN, Jacques (1953\/1998). Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. In:\u00a0<em>Escritos<\/em>\u2026, p. 262 e ss. Ver, tamb\u00e9m: LACAN, Jacques (1953\/2003). Discurso de Roma. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>\u2026, p. 143-147.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>LACAN, Jacques (1953\/2003). Televis\u00e3o. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>\u2026, p. 516.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>LACAN, Jacques (1979\/2003). Joyce o Sintoma. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>\u2026, p. 562.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ver: LACAN, Jacques (1972-1973\/2008).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio. Livro 20: mais, ainda<\/em>, p. 96-103, sobretudo.<\/h6>\n<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por\u00a0JACQUES-ALAIN MILLER H\u00e1 dois anos, em Paris, apontei nossa b\u00fassola, a b\u00fassola da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, de modo que ela indicasse a dire\u00e7\u00e3o do \u00faltimo ensino de Lacan. Eis a\u00ed o que orientou nosso X Congresso. 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