{"id":343,"date":"2024-04-30T07:38:54","date_gmt":"2024-04-30T10:38:54","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?p=343"},"modified":"2024-11-04T11:59:34","modified_gmt":"2024-11-04T14:59:34","slug":"ressonancias-da-intraducao-lacaniana1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/2024\/04\/30\/ressonancias-da-intraducao-lacaniana1\/","title":{"rendered":"Resson\u00e2ncias da intradu\u00e7\u00e3o lacaniana"},"content":{"rendered":"<h6>Marcus Andr\u00e9 Vieira (AME da EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Seguem algumas reflex\u00f5es sobre o tema da tradu\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Parto de uma quest\u00e3o espec\u00edfica, mas proponho uma discuss\u00e3o mais ampla. Creio que uma aproxima\u00e7\u00e3o entre tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o pode nos ajudar quando lan\u00e7amos uma discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os corpos e os discursos, tal como prop\u00f5em tanto Lacan em seu <em>Semin\u00e1rio 19 <\/em>quanto o t\u00edtulo de nosso pr\u00f3ximo Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: \u201cOs corpos aprisionados pelo discurso &#8230;e seus restos\u201d.<\/p>\n<p>Em uma das passagens desse semin\u00e1rio, Lacan, para designar essa rela\u00e7\u00e3o, se serve do verbo <em>attraper<\/em>, traduzido como <em>aprisionar<\/em> na vers\u00e3o brasileira. Quando ouvi o t\u00edtulo do Encontro pela primeira vez, lembro de dizer \u201cessa tradu\u00e7\u00e3o est\u00e1 estranha\u201d, pois me parecia que dificilmente Lacan usaria um verbo t\u00e3o dram\u00e1tico quanto esse. A surpresa maior foi descobrir que a frase que eu estranhava vinha de um semin\u00e1rio cuja vers\u00e3o brasileira tinha sido definida sob minha responsabilidade.<\/p>\n<p>Por que estranha? Se assumimos que traduzir \u00e9 emparelhar dois campos sem\u00e2nticos, o do termo na l\u00edngua de partida com o da l\u00edngua de chegada, diremos que nesse caso eles pareciam se distanciar demais. Afinal, a rede de significados de <em>attraper<\/em> se sustenta bem mais em termos como \u201cagarrar\u201d, \u201ctomar\u201d, \u201cfisgar\u201d.<\/p>\n<p>Podemos tamb\u00e9m assumir que traduzir \u00e9 igualmente interpretar, movimentar a l\u00edngua de chegada, for\u00e7\u00e1-la um pouco para produzir um efeito semelhante ao termo original, tomando alguma liberdade com o c\u00f3digo. Neste caso, a tradu\u00e7\u00e3o estaria adequada, pois podemos fazer entrar em cena a etimologia e veremos que <em>attraper<\/em> vem de <em>trappe<\/em>, trampa em espanhol, armadilha, al\u00e7ap\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar disso, segui me interrogando se teria havido alguma coisa a mais que justificasse essa tradu\u00e7\u00e3o. A ideia de aprisionamento apela ao imagin\u00e1rio, tem valor \u00e9pico e provavelmente por isso tende a se tornar protagonista. N\u00e3o \u00e0 toa se tornou t\u00edtulo. Mas, se nos concentramos nesse aspecto, a tradu\u00e7\u00e3o parece novamente inadequada, quando sabemos como os corpos s\u00e3o constitu\u00eddos pelo discurso mais que aprisionados por ele. Alguma coisa imprecisa pode ser <em>agarrada<\/em> pelo discurso, mas s\u00f3 algo j\u00e1 constitu\u00eddo e com forma est\u00e1vel pode ser <em>aprisionado<\/em> por ele.<\/p>\n<p>A chave, creio, \u00e9 o que se entende por corpo. Lacan, nesse momento de seu ensino, est\u00e1 lidando com o corpo a partir de novas no\u00e7\u00f5es, dentre as quais, brilha o termo neol\u00f3gico <em>parl\u00eatre<\/em>, traduzido como <em>falasser<\/em>. Os neologismos e inven\u00e7\u00f5es linguageiras, in\u00fameros no ensino de Lacan, ganham protagonismo todo especial em seu \u00faltimo ensino, levando \u00e0 loucura os tradutores.<\/p>\n<p>Proponho, ent\u00e3o, um pequeno desvio sobre alguns aspectos da tradu\u00e7\u00e3o para podermos abordar dois termos, <em>falasser<\/em> e <em>lal\u00edngua<\/em>, do ponto de vista de que eles concentram toda uma reinterpreta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ensino de Lacan. S\u00e3o verdadeiras interpreta\u00e7\u00f5es que, a meu ver, localizam de maneira precisa uma rela\u00e7\u00e3o entre corpo e discurso at\u00e9 ent\u00e3o pouco explorada.<\/p>\n<p><strong><em>Interpreta\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Parto da seguinte analogia feita por Jacques Lacan entre tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o: <em>A interpreta\u00e7\u00e3o deve introduzir no texto algo que subitamente torne poss\u00edvel a tradu\u00e7\u00e3o<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>Numa an\u00e1lise, tenta-se dizer uma singularidade real que n\u00e3o cabe nas palavras. Como traduzi-la, ent\u00e3o, no sentido de lhe dar um lugar no universal, de fornecer a ela um m\u00ednimo de legibilidade que permita ao analisante sustent\u00e1-la em sua vida?<\/p>\n<p>H\u00e1 de haver algo de poss\u00edvel nessa tradu\u00e7\u00e3o, pois, sen\u00e3o, far\u00edamos an\u00e1lise apenas para nos darmos conta de que o intraduz\u00edvel n\u00e3o se traduz. Neste sentido, a \u00fanica sa\u00edda seria calar, como o m\u00edstico que se cala sobre Deus porque Ele n\u00e3o pode ser dito. Ora, o inconsciente nunca \u00e9 divino. Nem mesmo quando o dizemos <em>real<\/em>, absolutamente fora do sentido, em oposi\u00e7\u00e3o ao inconsciente transferencial. Por isso, podemos sustentar que h\u00e1 algo de tradu\u00e7\u00e3o no ato anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es est\u00e3o no centro da cena nos debates sobre a tradu\u00e7\u00e3o. Todos sabem que a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas, ao mesmo tempo, todo tradutor assume que algo \u00e9 poss\u00edvel, sen\u00e3o, para qu\u00ea tentar? A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas \u00e9 poss\u00edvel traduzir. \u00c9 o paradoxo da tradu\u00e7\u00e3o em geral. O tradutor faz sua aposta no traduz\u00edvel, contando com as notas de p\u00e9 de p\u00e1gina, por exemplo, para o intraduz\u00edvel. J\u00e1 na an\u00e1lise tudo \u00e9 feito para que sejamos levados a buscar o tempo todo a tradu\u00e7\u00e3o do intraduz\u00edvel.<\/p>\n<p>Proponho desdobrar a tradu\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, em tr\u00eas aspectos para abordar o modo como a tradu\u00e7\u00e3o lacaniana lida com o real. A <em>tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel<\/em>, a <em>transcria\u00e7\u00e3o<\/em> e a <em>intradu\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p><strong><em>A tradu\u00e7\u00e3o do poss\u00edvel<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O primeiro aspecto \u00e9 o da tradu\u00e7\u00e3o pelo sentido, mais ou menos o que o senso comum considera uma tradu\u00e7\u00e3o. Um conte\u00fado determinado, exportado para outra l\u00edngua, deve ser representado por um conte\u00fado de significa\u00e7\u00e3o equivalente. Funciona bem quando os conte\u00fados em quest\u00e3o s\u00e3o bem-comportados, t\u00eam limites precisos, como aqueles, por exemplo, que mobilizamos no manual de instru\u00e7\u00f5es de uma geladeira.<\/p>\n<p>Essa tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre desinteressante, o que faz com que na pr\u00e1tica, os manuais nunca sejam lidos. A raz\u00e3o, j\u00e1 sabemos, \u00e9 que a vida mora no inconsistente, no imprevis\u00edvel, no intraduz\u00edvel. Boa parte das coisas da vida, ou do gozo, como dizemos, n\u00e3o encontra tradu\u00e7\u00e3o. Exatamente por isso, Lacan cria seus neologismos. Em certo sentido, todo seu estilo diz respeito a trazer \u00e0 cena a vida exatamente no que ela n\u00e3o cabe em um manual.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise, sentimos que nada vai dizer melhor o mist\u00e9rio do que somos ou do que foi para n\u00f3s aquele dia, aquele gesto, do que esses elementos intraduz\u00edveis. Esse tipo de material da an\u00e1lise sustenta o real do gozo como nenhum outro, s\u00e3o objetos <strong><em>a<\/em><\/strong>, encarnados por Lacan pelo termo <em>resto.<\/em> O que sustenta o imposs\u00edvel da tradu\u00e7\u00e3o, o mais singular de mim, encontra-se na an\u00e1lise como resto, lixo subjetivo, coisas que n\u00e3o se encaixam, peda\u00e7os de sentimento sem dono ou de cores e cheiros sem morada. Podem ser igualmente palavr\u00f5es, obscenidades e express\u00f5es bizarras, sonhos, risos, atos falhos, tantas figuras do que numa vida, mas tamb\u00e9m numa l\u00edngua e cultura, \u00e9 excresc\u00eancia e, por isso, resto<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p><strong><em>A <\/em><\/strong><strong>transcria\u00e7\u00e3o<em> do imposs\u00edvel<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Aqui reside um segundo aspecto da tradu\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o sup\u00f5e apenas que se escolham os conte\u00fados corretos para traduzir um termo, mas tamb\u00e9m que se trabalhe com o contexto em que esses termos se instalar\u00e3o na l\u00edngua de chegada. \u00c9 preciso remanejar conte\u00fados, mudar o encadeamento, a sintaxe, mexer no ritmo. \u00c9 aquilo que, em an\u00e1lise, ocorre com o campo do eu para acomodar os objetos <strong><em>a<\/em><\/strong>. Por isso, Lacan dir\u00e1 que h\u00e1 algo que \u201csubitamente\u201d torna a tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. A partir da\u00ed, os restos, mesmo n\u00e3o exatamente inclu\u00eddos, se dizem, sem serem, no entanto, remetidos a alguma explica\u00e7\u00e3o, apenas por se manterem como tal. Apenas restam, como o cheiro azul de uma tarde \u00fanica ou o som de quando, certo dia, passamos a manteiga no p\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada impede que, nesse for\u00e7amento, seja preciso criar termos que sustentem o valor quase neol\u00f3gico dos restos. Destaquei esse aspecto em outra ocasi\u00e3o com o termo <em>transcria\u00e7\u00e3o<\/em>, que \u00e9 a \u201ctradu\u00e7\u00e3o\u201d, por Augusto de Campos, do <em>Make it new!<\/em> de Ezra Pound<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. <em>Transcriar<\/em> indica que para transportar um tanto desse imposs\u00edvel para outra l\u00edngua ser\u00e1 preciso inventar uma entidade nova. Para que isso aconte\u00e7a, por\u00e9m, \u00e9 preciso for\u00e7ar a l\u00edngua de chegada de maneira parecida com o que realiza o termo original na l\u00edngua de partida.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, o intraduz\u00edvel precisa, para ser traduzido, que se dobre a l\u00edngua. Desta cepa nascem um sem-n\u00famero de neologismos de Lacan, dos quais <em>lal\u00edngua<\/em> e <em>falasser<\/em>.<\/p>\n<p><strong><em>A intradu\u00e7\u00e3o e os intradusseres<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Falasser<\/em> \u00e9 a transcria\u00e7\u00e3o do <em>parl\u00eatre <\/em>de Lacan. O termo diz n\u00e3o apenas que s\u00f3 h\u00e1 ser para aqueles que falam, mas que s\u00f3 h\u00e1 ser enquanto for falado, enquanto houver corpos falando.<\/p>\n<p>Vale a analogia com o ser do amor na experi\u00eancia amorosa. O amor s\u00f3 tem ess\u00eancia enquanto h\u00e1 gestos de amor, cartas, mensagens, enfim, palavras de amor. Por isso, como canta Cazuza, tantas vezes temos o sentimento, a triste vertigem de que, uma vez terminada a rela\u00e7\u00e3o, encerrada a conversa, o amor nunca existiu<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>No sentido que o termo falasser condensa, a fala secreta o corpo. O corpo como ser, consist\u00eancia, unidade, s\u00f3 \u00e9 corpo se sustentado por ela. O corpo \u00e9 concebido, ent\u00e3o, de modo bem distante do \u201cEst\u00e1dio do espelho\u201d, nem tanto como forma est\u00e1vel, mas como forma que se desfaz, \u201csai fora a todo instante\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. \u00c9 muito menos uma entidade pr\u00e9via, mas fato de discurso, de ess\u00eancia quase que perform\u00e1tica. Meu corpo \u00e9 meu enquanto o uso, enquanto estou no encontro com outros corpos.<\/p>\n<p>Outro exemplo dado por Lacan nesse sentido \u00e9 o da dan\u00e7a: o corpo existe ou deixa de existir enquanto se dan\u00e7a? Na dan\u00e7a, ele tem o ser do <em>falasser<\/em>. O corpo parece existir como em nenhum outro momento, mas ao mesmo tempo sem um ser pr\u00e9vio. Perdemos nosso corpo na dan\u00e7a e ganhamos o corpo da dan\u00e7a, o que Lacan assinala como <em>condan\u00e7a\u00e7\u00e3o<\/em><a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>Quando, portanto, na li\u00e7\u00e3o do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> que estamos examinando, surge o verbo <em>attraper<\/em> para assinalar a rela\u00e7\u00e3o entre corpo e discurso, \u00e9 preciso tomar essa rela\u00e7\u00e3o a partir de tudo o que o termo <em>falasser<\/em> introduz como interpreta\u00e7\u00e3o e deslocamento de conceitos anteriores, como, por exemplo, <em>sujeito<\/em> e <em>corpo<\/em>.<\/p>\n<p>Lacan, nessa li\u00e7\u00e3o, define a sess\u00e3o anal\u00edtica como espa\u00e7o em que, antes de mais nada, h\u00e1 uma \u201cconfronta\u00e7\u00e3o de corpos\u201d. Ele est\u00e1 destacando, por\u00e9m, n\u00e3o o encontro de dois seres, analisante e analista, mas o atravessamento de duas falas, de dois discursos, o anal\u00edtico e o do mestre. Ao mesmo tempo, destaca o quanto esses discursos s\u00e3o tudo menos desencarnados, pois mobilizam a subst\u00e2ncia corporal gozante. \u00c9 isso que far\u00e1 diferen\u00e7a em uma an\u00e1lise: o gozo do corpo falante e n\u00e3o do corpo das rela\u00e7\u00f5es sociais, o corpo do espelho.<\/p>\n<p>Creio que essa nova rela\u00e7\u00e3o entre o discurso e o corpo pode ficar mais clara se pedimos ajuda a um terceiro aspecto da tradu\u00e7\u00e3o, uma vez que \u00e9 a capacidade de <em>intradu\u00e7\u00e3o<\/em> o que mais interessar\u00e1 a Lacan e \u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica em seus \u00faltimos semin\u00e1rios. \u00c9 o mais dif\u00edcil dos tr\u00eas e pode ser abordado a partir de um termo caro a Lacan, ao qual Miller deu um destino cl\u00ednico: <em>resson\u00e2ncia<\/em><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>Se a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 tradu\u00e7\u00e3o, a resson\u00e2ncia praticamente n\u00e3o \u00e9 interpreta\u00e7\u00e3o ou, ent\u00e3o, for\u00e7ando um pouco, talvez possamos dizer que sua tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas sua resson\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong><em>Al\u00edngua e Lal\u00edngua<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nada melhor para demonstr\u00e1-lo que o termo <em>Lalangue<\/em>. Ele \u00e9 intraduz\u00edvel, n\u00e3o exatamente por n\u00e3o encontrar equivalente, mas porque n\u00e3o h\u00e1 como dar a ele apenas um termo, j\u00e1 que n\u00e3o se distingue em termos sonoros de <em>a l\u00edngua<\/em>. Caso seja ouvido como <em>a l\u00edngua<\/em>, dir\u00e1 de um objeto mais ou menos est\u00e1vel, que pode ser estudado: \u201cA\u201d l\u00edngua. Caso seja ouvido como <em>al\u00edngua,<\/em> ser\u00e1 um bizarro ser que n\u00e3o pode ser objetivado, um ser de gozo, pois s\u00f3 existe no modo como \u00e9 dito, j\u00e1 que soa de modo id\u00eantico \u00e0 <em>a l\u00edngua<\/em>.<\/p>\n<p>Esse \u201cmodo de dizer\u201d, que encerra um gozo a mais, \u00e9 inapreens\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 entona\u00e7\u00e3o ou outra coisa que se possa agarrar para fixar esse gozo espec\u00edfico do falante quando diz <em>al\u00edngua <\/em>em vez de a l\u00edngua. H\u00e1, por\u00e9m, um gozo a mais que ressoa e que n\u00e3o se nota a n\u00e3o ser quando anotado, grafado.<\/p>\n<p>\u00c9 o que Lacan caracteriza como \u201clala\u00e7\u00e3o\u201d, afirmando que escolheu o termo para que pudesse se aproximar desse balbucio inaugural, para que pudesse apreender a l\u00edngua sem seus cortes, mais em sua dan\u00e7a l\u00fadica de fonemas.<\/p>\n<p><em>Al\u00edngua<\/em> ressoa a experi\u00eancia da l\u00edngua, do gozo de falar. Ao escrever o artigo e o termo juntos, em sua l\u00edngua materna, Lacan traz \u00e0 cena o prazer de balbuciar, <em>lalar,<\/em> que s\u00f3 se consegue resgatar em portugu\u00eas com o termo <em>lal\u00edngua<\/em>. Por isso, em portugu\u00eas, traduzimos o termo igualmente com o neologismo, para dar mais \u00eanfase \u00e0 lala\u00e7\u00e3o. \u00c9 o gozo de ser tomado por <em>lal\u00edngua<\/em>. \u00c9 o gozo da resson\u00e2ncia<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>O gozo que esse neologismo lacaniano carrega se comporta como o el\u00e9tron na f\u00edsica qu\u00e2ntica. Caso o modelo experimental constru\u00eddo para observ\u00e1-lo parta do pressuposto de que ele \u00e9 energia, o el\u00e9tron se comportar\u00e1 como se fosse apenas luz; caso seja tomado como part\u00edcula, ser\u00e1 mat\u00e9ria. Sua natureza \u00e9 ocasional, depende de como \u00e9 constru\u00eddo o modelo experimental em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa analogia, o modelo \u00e9 o discurso que, ao agarrar (<em>attraper<\/em>) o el\u00e9tron, o aprisiona (<em>attrape<\/em>). Tudo ao mesmo tempo agora.<\/p>\n<p>Toda ideia de Lacan \u00e9 que o termo soe exatamente como o original para percebermos que somente a escrita pode registrar o gozo do falante. A escrita, no sentido comum, do que se escreve em um papel, \u00e9 um modo da linguagem diferente da fala, que acolhe o gozo do falar de outra forma. O tra\u00e7o porta um gozo que nem sempre aparece na fala, escondido \u201cpor tr\u00e1s do que se ouve no que se diz\u201d, segundo a f\u00f3rmula c\u00e9lebre de Lacan em \u201cO Aturdito\u201d. Por isso, com base na escrita, Lacan pode, neste neologismo, trazer o gozo da lala\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria palavra que usamos normalmente para dizer de sua perda &#8211; <em>Al\u00edngua<\/em> em vez de <em>A l\u00edngua<\/em>.<\/p>\n<p>Desta forma, o gozo deixa de ser um objeto e pode se apresentar como presen\u00e7a, pressentida no pr\u00f3prio discurso que o aprisionava. O que ganhamos com isso? A possibilidade de \u201cfazer com\u201d, de lidar, de dar lugar ao gozo indefinido desse el\u00e9tron, que tanto pode ser uma coisa quanto outra, sem que se sonhe com um acesso direto a ele, um real em si que s\u00f3 existiria como Deus.<\/p>\n<p>S\u00f3 h\u00e1 corpo falante enquanto ele \u00e9 atravessado por esse gozo, anterior ao corte, ao vazio entre as palavras. Anterior, logicamente, ao sujeito do desejo e do significante. Esse gozo \u00e9 o que seria o gozo antes que a negatividade, a perda constitutiva da entrada na linguagem, tivesse se instalado em nossa exist\u00eancia. S\u00f3 podemos pressenti-lo em algumas situa\u00e7\u00f5es pontuais. Como quando o badalo da escrita o faz vibrar como um sino, ressoar \u2013 na met\u00e1fora c\u00e9lebre de Jacques-Alain Miller<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> para a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesses <em>intradusseres<\/em> criados por Lacan, como \u00e9 o caso de <em>lal\u00edngua<\/em>, n\u00e3o ser\u00e1 como na transcria\u00e7\u00e3o, a surpresa de uma nova maneira de dizer o indiz\u00edvel, mas muito mais a experi\u00eancia do gozo que nele se ouve sem que seja dito. S\u00f3 que, mesmo assim, mesmo prosseguindo sem ser dito, o gozo de <em>lal\u00edngua<\/em> passa a estar ali de outro modo.<\/p>\n<p>\u00c9 como se alguma coisa encontrada na an\u00e1lise n\u00e3o engendrasse emparelhamento de conte\u00fados, nem a surpresa de um novo conte\u00fado, mas a certeza de uma presen\u00e7a. Nessa presen\u00e7a, apenas sou, sem qu\u00ea nem por qu\u00ea. \u00c9 experi\u00eancia que transforma e muda o valor da presen\u00e7a do Outro em mim, de estranho a companheiro contingente<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este texto inclui fragmentos de: Vieira, M. A. \u201cComo ouvir a voz do texto\u201d. In: <em>Desassossegos, <\/em>Revista de psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, n. 1, Lisboa, ACF-Portugal, 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o (&#8230;) deve introduzir na sincronia do significante algo que subitamente torne poss\u00edvel a tradu\u00e7\u00e3o\u201d. Lacan, J. \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento\u201d. In: <em>Escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 593.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cf. Vieira, M. A. <em>Restos \u2013 uma introdu\u00e7\u00e3o ao objeto lacaniano da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2008, verbete \u201cobjeto\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Cf. Vieira, M. A. \u201cCom quantos livros se l\u00ea Lacan?\u201d. In: <em>Arquivos da biblioteca da EBP-Rio<\/em> vol. 4. Rio de Janeiro: EBP-Rio\/Contra Capa, dez 2006, pp. 57-69.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cf. Lacan, J. \u201cO simb\u00f3lico, o imagin\u00e1rio e o real\u201d. In: <em>Nomes do Pai<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 25.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: <em>O Sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 64, cf. tamb\u00e9m, Miller, J.-A. \u201cNota passo a passo\u201d, no mesmo semin\u00e1rio, p. 213.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem, p. 150, Cf. Lima, C. A. \u201cUm corpo em Litura\u201d. In: <em>Concei\u00e7\u00e3o\/Conception. <\/em>Revista do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Artes da Cena. V. 6. S\u00e3o Paulo: Unicamp, 2017.\u00a0Cf. tamb\u00e9m Felice, T; Vieira, M. A., \u201cPalavras praticadas, p\u00e9s na lama: Hijikata Tatsumi e Jacques Lacan\u201d. In: <em>Urdimento <\/em>\u2013 Revista de Estudos em Artes C\u00eanicas, Florian\u00f3polis, v. 3, n. 48, set. 2023.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Cf. p. ex. Lacan, J. \u201cFun\u00e7\u00e3o e Campo da fala e da linguagem\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 290.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Campos, H. \u201cO afreudis\u00edaco na gal\u00e1xia de lal\u00edngua\u201d. In: <em>Exu<\/em>. Salvador: Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado, 1990; reimpress\u00e3o em <em>Correio da EBP, n. 18-9<\/em>, Belo Horizonte: EBP, janeiro de 1998 e ainda a nota de rodap\u00e9 da vers\u00e3o brasileira de Lacan, J. <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 510.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Miller, J.-A. (2008-2009) <em>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> \u00c9 o que J.-A. Miller destacou em bom dialeto lacaniano como o \u201cse virar com o <em>sinthoma\u201d. <\/em>Cf. \u201cTeoria do parceiro\u201d. In: <em>Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000. Para a interpreta\u00e7\u00e3o como ressoar do sino cf. Miller, J.-A. (2008-2009) <em>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, li\u00e7\u00e3o de 20\/05\/09.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcus Andr\u00e9 Vieira (AME da EBP\/AMP) Seguem algumas reflex\u00f5es sobre o tema da tradu\u00e7\u00e3o[1]. Parto de uma quest\u00e3o espec\u00edfica, mas proponho uma discuss\u00e3o mais ampla. Creio que uma aproxima\u00e7\u00e3o entre tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o pode nos ajudar quando lan\u00e7amos uma discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os corpos e os discursos, tal como prop\u00f5em tanto Lacan em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-343","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/343","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=343"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/343\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":773,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/343\/revisions\/773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=343"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=343"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=343"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=343"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}