{"id":422,"date":"2024-05-31T06:46:15","date_gmt":"2024-05-31T09:46:15","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?page_id=422"},"modified":"2024-11-04T12:02:12","modified_gmt":"2024-11-04T15:02:12","slug":"eixo-1-capturas-imaginarias-e-o-real-do-corpo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/o-encontro\/eixos-tematicos\/eixo-1-capturas-imaginarias-e-o-real-do-corpo\/","title":{"rendered":"Eixo 1: Capturas imagin\u00e1rias e o real do corpo"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6>Luiz Fernando Carrijo da Cunha (AME da EBP\/AMP)<br \/>\n<em>Coordenador da Comiss\u00e3o Cient\u00edfica<\/em><\/h6>\n<p>Partamos da afirma\u00e7\u00e3o de Lacan de que o corpo \u00e9 suporte do discurso<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, n\u00e3o for\u00e7osamente <em>um <\/em>corpo, mas, ao implicar o gozo, esse corpo n\u00e3o est\u00e1 inteiramente s\u00f3, h\u00e1 um outro corpo. Trata-se, pois, do \u201cgozo corpo a corpo\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Entrevemos, nessa afirma\u00e7\u00e3o, a presen\u00e7a j\u00e1 marcante do imagin\u00e1rio dando suporte a um gozo, por excel\u00eancia n\u00e3o localiz\u00e1vel. Se \u00e9 atrav\u00e9s do discurso que um sujeito pode ser localizado, isso n\u00e3o implica a localiza\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>Um suporte, portanto, que \u00e9 inaugurado em sua configura\u00e7\u00e3o narc\u00edsica atrav\u00e9s da imagem do outro. O corpo, assim, imerso no imagin\u00e1rio, torna-se matriz da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o mundo, onde a incid\u00eancia da linguagem trar\u00e1 seus efeitos de perturba\u00e7\u00e3o sobre a \u201cjubila\u00e7\u00e3o\u201d instalada com o imagin\u00e1rio. O j\u00fabilo em si mesmo, n\u00e3o deixa de ter uma inscri\u00e7\u00e3o direta com o gozo, ou seja, que o sujeito goza \u201cde sua rela\u00e7\u00e3o com a imagem especular\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. No primeiro tempo de seu ensino, Lacan associa o imagin\u00e1rio \u00e0 in\u00e9rcia, fazendo deste um obst\u00e1culo a ultrapassar para alcan\u00e7ar a primazia do simb\u00f3lico. O especular dizendo respeito, exclusivamente, ao narcisismo. Logo, segundo a leitura feita por Miller<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, inicialmente o imagin\u00e1rio fora degradado por Lacan. Ser\u00e1 no seu \u00faltimo ensino que o imagin\u00e1rio ser\u00e1 equivalente ao simb\u00f3lico e ao real no encadeamento borromeano que Lacan propor\u00e1 utilizando-se dos tr\u00eas registros. Se no primeiro tempo o corpo no imagin\u00e1rio ganhava seu estatuto apenas pela rela\u00e7\u00e3o especular, ou seja, o corpo como uma forma, num segundo tempo, vemos surgir o corpo libidinal que, al\u00e9m da forma, \u00e9 distinto do organismo. Miller destaca ainda que \u201cdesde o in\u00edcio do ensino de Lacan, o corpo \u00e9 imagin\u00e1rio. Por fim, no momento de seu \u00faltimo ensino, Lacan formular\u00e1 que o imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Uma nuance que podemos ler como <em>do imagin\u00e1rio do corpo ao corpo \u00e9 o imagin\u00e1rio<\/em>. Tal nuance nos interessar\u00e1 no n\u00edvel de nosso XXV EBCF e mais particularmente nas Jornadas cl\u00ednicas, quando a privilegiamos nesse eixo 1. Ou seja, que as capturas imagin\u00e1rias n\u00e3o se at\u00eam \u00e0 in\u00e9rcia e ao subjugamento destas ao simb\u00f3lico, mas como tendo uma rela\u00e7\u00e3o muito direta com o real do gozo que, verdadeiramente, \u00e9 a pris\u00e3o do corpo. Nessa perspectiva, o imagin\u00e1rio participa igualmente da constitui\u00e7\u00e3o do sintoma, assim como d\u00e1 suporte ao discurso. Nesse sentido, cabe destacar as parcerias sintom\u00e1ticas que encontramos na cl\u00ednica, abastecidos com o tecido imagin\u00e1rio; uma cl\u00ednica caracterizada pela inexist\u00eancia do Outro que, para al\u00e9m dos comit\u00eas de \u00e9tica que da\u00ed se depreendem, o sujeito busca solu\u00e7\u00f5es mais singulares no recurso imagin\u00e1rio. Como bem salienta \u00c9ric Laurent, no mundo onde a biopol\u00edtica est\u00e1 no posto de comando, \u201co corpo-m\u00e1quina, assim, faz par com o corpo-imagem\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Essa e outras parcerias poder\u00e3o ser exploradas nos casos cl\u00ednicos que se inscrever\u00e3o neste eixo.<\/p>\n<p>Ainda com Laurent, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise do <em>falasser<\/em>, \u201ca \u00eanfase incide sobre a urg\u00eancia de redefinir as rela\u00e7\u00f5es mantidas pelo sujeito e o corpo, ambos tomados pelos discursos invasivos sobre a necessidade de colocar-se \u00e0 escuta de seu corpo\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. A perspectiva que se coloca n\u00e3o pode negligenciar os imperativos contempor\u00e2neos que passam a determinar a forma ideal do corpo, assim como seu funcionamento respondendo ao ideal de sa\u00fade e beleza. Nesses imperativos encontraremos consequ\u00eancias cl\u00ednicas as mais variadas, desde as anorexias at\u00e9 sintomas graves de dismorfismo corporal, al\u00e9m das queixas hipocondr\u00edacas que n\u00e3o se restringem ao sujeito psic\u00f3tico.<\/p>\n<p>Lacan, em sua retomada do ensino de Freud, inicialmente seguiu sua via a partir das identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias, destacando a for\u00e7a e o poder da imagem. Por\u00e9m, dadas as transforma\u00e7\u00f5es vividas em nossa \u00e9poca, \u00e9 necess\u00e1rio \u201crepensar o <em>status<\/em> do imagin\u00e1rio em Lacan, tanto em nossa elabora\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica quanto na pr\u00e1tica anal\u00edtica\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, destaca Miller. Como vimos, Lacan prossegue na l\u00f3gica de seu ensino que vai do corpo como forma, acrescentando que o corpo \u00e9 o imagin\u00e1rio. Sublinhemos ainda a alta incid\u00eancia de sujeitos que buscam uma an\u00e1lise fixados em suas identifica\u00e7\u00f5es, quer seja por simpatizarem e\/ou militarem em grupos identificat\u00f3rios, quer seja por estarem fixados numa determinada lembran\u00e7a encobridora, cujos significantes n\u00e3o se mobilizam. N\u00e3o nos esque\u00e7amos que Freud elaborou a no\u00e7\u00e3o de fantasma assentado sobre a imagem.<\/p>\n<p>Salientemos que nessa investiga\u00e7\u00e3o onde \u201co corpo \u00e9 o imagin\u00e1rio\u201d \u00e9 necess\u00e1rio levar em considera\u00e7\u00e3o as formas de la\u00e7o social que se depreendem de uma \u201cnova psicologia das massas\u201d, caracterizada fundamentalmente pelo individualismo de massa e pelos comit\u00eas de \u00e9tica onde, justamente por implicar o corpo, a biopol\u00edtica ganha o prosc\u00eanio. Ademais, no seio desse novo la\u00e7o social, encontramos a prolifera\u00e7\u00e3o de religi\u00f5es e imposi\u00e7\u00f5es no comportamento e at\u00e9 mesmo na l\u00edngua. O recrudescimento das segrega\u00e7\u00f5es de todo tipo, especialmente aquelas que se enra\u00edzam no corpo<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> a partir do \u00f3dio, \u00e9 a resultante da constitui\u00e7\u00e3o de um discurso do mestre para al\u00e9m do mestre da tradi\u00e7\u00e3o: os discursos do capitalismo (com o neoliberalismo como frontisp\u00edcio) e das tecno e bioci\u00eancias. Nessa perspectiva, o lugar do sujeito fica foraclu\u00eddo, trazendo como uma das consequ\u00eancias, a posi\u00e7\u00e3o da \u201cv\u00edtima\u201d como um dos significantes mestres da \u00e9poca<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Como vimos, a insufla\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio em nossa \u00e9poca propicia ainda mais o aprisionamento do corpo e, como o gozo est\u00e1 a\u00ed implicado, deduzimos a a\u00e7\u00e3o de um real sem lei e, por isso mesmo, causador de sintomas.<\/p>\n<p>A consist\u00eancia que o imagin\u00e1rio d\u00e1 ao corpo, ao corpo como forma, pode demonstrar seu limite na pr\u00e1tica psicanal\u00edtica quando testemunhamos o fracasso do imagin\u00e1rio em sustentar o ideal de um corpo higienizado do gozo. A passagem do \u201cser um corpo\u201d para o \u201cter um corpo\u201d \u00e9 fundamental para se abordar o que h\u00e1 de gozo que transborda em qualquer perspectiva higienista, assim como em qualquer perspectiva identificat\u00f3ria.<\/p>\n<p>A perspectiva que se coloca quanto ao fim do binarismo sexual n\u00e3o apaga a singularidade do gozo. Como pudemos escrever em outro lugar, \u201ca cada um seu sexo\u201d, representando nesse a cada um, sua singularidade sintom\u00e1tica, independentemente das identifica\u00e7\u00f5es em jogo.<\/p>\n<p>Como sublinhamos no argumento desse eixo, refor\u00e7amos aqui que o corpo escapa a qualquer identifica\u00e7\u00e3o totalizante, h\u00e1 sempre algo que permanece fora da imagem corporal, um resto inapreens\u00edvel e irrepresent\u00e1vel. Resta um corpo infamiliar que a imagem n\u00e3o consegue capturar, um gozo que n\u00e3o se inscreve e faz obst\u00e1culo a essa dilui\u00e7\u00e3o do ser falante na confus\u00e3o imagin\u00e1ria.<\/p>\n<p>O \u201ccorpo \u00e9 o imagin\u00e1rio\u201d quer dizer que ele, mais do que \u201cforma\u201d, \u00e9 o suporte de um discurso que pode aprision\u00e1-lo e que, na perspectiva da an\u00e1lise, tal aprisionamento pode se demonstrar como fal\u00e1cia quando, da\u00ed, surge o resto de gozo do qual o corpo n\u00e3o pode ser liberado, ou seja, a verdadeira pris\u00e3o do corpo \u00e9 o gozo. As manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas desse aprisionamento referendado, por assim dizer, pela consist\u00eancia imagin\u00e1ria, s\u00e3o mat\u00e9ria para se pensar a atualidade da cl\u00ednica, assim como os impasses da\u00ed decorrentes, implicando a transfer\u00eancia, a interpreta\u00e7\u00e3o e o ato anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Esperamos, em nossas Jornadas cl\u00ednicas, especificamente casos e fragmentos cl\u00ednicos que possam demonstrar, n\u00e3o apenas as solu\u00e7\u00f5es, mas, fundamentalmente, os impasses que a\u00ed se colocam.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1971-1972) <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 217.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J-A. \u201cAs pris\u00f5es do gozo\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana. Revista brasileira internacional de psican\u00e1lise<\/em>, n. 54, maio 2009, p. 16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Laurent, \u00c9. <em>O avesso da biopol\u00edtica: uma escrita para o gozo<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016, p. 15.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem, p. 14.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Miller, J.-A. (Maio 2009) <em>Op. cit.<\/em>, p. 15.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Lacan, J. (1971-1972) <em>Op. cit.<\/em>, p. 227.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Brousse, M-H. <em>Mode de jouir au f\u00e9minin<\/em>. Paris: Navarin Ed., 2020, p. 12.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Luiz Fernando Carrijo da Cunha (AME da EBP\/AMP) Coordenador da Comiss\u00e3o Cient\u00edfica Partamos da afirma\u00e7\u00e3o de Lacan de que o corpo \u00e9 suporte do discurso[1], n\u00e3o for\u00e7osamente um corpo, mas, ao implicar o gozo, esse corpo n\u00e3o est\u00e1 inteiramente s\u00f3, h\u00e1 um outro corpo. Trata-se, pois, do \u201cgozo corpo a corpo\u201d[2]. 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