{"id":282,"date":"2024-04-11T09:05:44","date_gmt":"2024-04-11T12:05:44","guid":{"rendered":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/?page_id=282"},"modified":"2024-11-04T12:00:21","modified_gmt":"2024-11-04T15:00:21","slug":"dizeres-e-suas-reverberacoes","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/o-encontro\/bibliografia\/dizeres-e-suas-reverberacoes\/","title":{"rendered":"&#8230;dizeres e suas reverbera\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_column_text]A Comiss\u00e3o de Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas vem selecionando diversas passagens extra\u00eddas de livros e artigos orientadores para as pesquisas em torno do tema do XXV EBCF: Corpos aprisionados pelo discurso &#8230;e seus restos.<\/p>\n<p>Algumas dessas passagens, comentadas por colegas que gentilmente toparam o desafio de avan\u00e7ar um pouco mais ou de nos provocar com novas quest\u00f5es,\u00a0 ser\u00e3o publicadas nos boletins .[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>Lacan fazia uso de seu corpo como um instrumento de sua pr\u00e1tica. Sua presen\u00e7a era a de um analista encarnado e a partida psicanal\u00edtica se jogava em um corpo a corpo.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000080;\"><strong>An\u00e1lise: uma experi\u00eancia de corpo<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Andr\u00e9a Reis Santos (EBP\/AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p>Este fragmento do texto de Esthela Solano-Soarez em \u201cHagan como yo, no me imiten\u201d consegue condensar uma parte do que foi para ela a densidade da presen\u00e7a de Lacan na fun\u00e7\u00e3o de seu analista. O t\u00edtulo escolhido por ela \u2013 retirado de uma fala do pr\u00f3prio Lacan dirigida a seus alunos \u2013, \u201cn\u00e3o me imitem, fa\u00e7am como eu\u201d, j\u00e1 nos indica que nessa presen\u00e7a o que est\u00e1 em jogo \u00e9 um estilo \u00fanico, intransfer\u00edvel, que n\u00e3o se presta a servir de modelo ou objeto de identifica\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o primeiro tempo da frase: \u201cfa\u00e7am como eu\u201d, nos indica que h\u00e1 uma orienta\u00e7\u00e3o. Uma orienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o para o semelhante, mas para o singular. Que cada um se oriente pelo produto da pr\u00f3pria an\u00e1lise, para poder, com isso, se colocar na posi\u00e7\u00e3o de operar a partir do mais singular. Que cada um opere a partir daquilo que circunscreve o inimit\u00e1vel das marcas que desenham um estilo, de modo a emprestar o corpo para ser o suporte de uma presen\u00e7a a servi\u00e7o do ato. Trata-se de algo que Esthela chama de operar a t\u00edtulo de <em>sinthome.<\/em><\/p>\n<p>Colocar o corpo a servi\u00e7o do ato: essa frase merece uma pausa. Corpo e ato ganham um lugar todo especial no \u00faltimo ensino de Lacan com uma \u00e9tica menos ligada ao desejo, ao Outro, ao campo da linguagem; e mais ligada a um certo saber fazer com o gozo, ao que se passa no campo do Um sozinho. O Outro que n\u00e3o existe cede espa\u00e7o ao corpo, que passa a entrar com tudo na jogada.<\/p>\n<p>Tanto nesse pequeno texto, quanto no maravilhoso livro <em>Tres segundos con Lacan<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup><strong>[2]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>, que esse texto resume, Esthela consegue descrever o papel do \u201ccorpo a corpo\u201d na experi\u00eancia da an\u00e1lise, algo que \u00e9 muito dif\u00edcil de colocar em palavras. Por um lado, os efeitos do ato do analista, produzindo resson\u00e2ncias no corpo da analisante, e por outro, aquilo que ela chama de analista encarnado. Para isso, recorre a muitas cenas em que o corpo de Lacan esteve presente em a\u00e7\u00e3o: os gestos, alguns toques, o uso do olhar ou a aus\u00eancia dele, as varia\u00e7\u00f5es no tom de voz, desde o fundo silencioso de uma presen\u00e7a at\u00e9 um chamado dirigido por ele aos gritos da janela, para ela, j\u00e1 de sa\u00edda, atravessando o p\u00e1tio. A descri\u00e7\u00e3o que ela faz \u00e9 t\u00e3o n\u00edtida, t\u00e3o verdadeira, que \u00e9 quase poss\u00edvel sentir, ali ao lado, a presen\u00e7a imponente de Lacan, radicalmente oposta \u00e0 ideia do analista inerte e meio mortificado de um certo imagin\u00e1rio popular. O mais importante a destacar da\u00ed s\u00e3o os cortes que produzem efeitos de ato, que traumatizam o <em>automaton <\/em>universal, e rompem com qualquer tipo de pacto imagin\u00e1rio. S\u00e3o atos que n\u00e3o se fazem sem o corpo presente como suporte de uma boa dose de estranhamento.<\/p>\n<p>No \u00faltimo ensino, o modelo do ato anal\u00edtico passa a ser o corte. Lacan o afirma textualmente: \u201c&#8230;pois bem, ao final, tudo o que resta \u00e9 o pr\u00f3prio corte\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. E Miller acrescenta: \u201cElevar a debilidade psicanal\u00edtica \u00e0 seguran\u00e7a soberana do gesto cir\u00fargico de cortar, essa seria a salvaguarda da psican\u00e1lise\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Esthela descreve a entrada em an\u00e1lise com Lacan atrav\u00e9s do encontro desconcertante com um analista que a privava radicalmente do bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1 explicativo, das racionaliza\u00e7\u00f5es, das hist\u00f3rias que cada um se conta, deixando-a perplexa, atravessada pelo que ressoava no corpo de uma sonoridade que n\u00e3o era agarrada por um efeito de sentido. O analista rompia toda e qualquer rotina e cada sess\u00e3o era diferente e \u00fanica. Nas suas palavras: \u201cem sua pr\u00e1tica colocava em ato os conceitos elaborados no \u00faltimo ensino a ponto de fazer equivaler seu ato com o real fora de sentido, produzindo acontecimento de corpo na analisante\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, nunca \u00e9 demais lembrar que esse efeito de corte que incide no corpo n\u00e3o dispensa a palavra. Ela consegue descrever algumas passagens preciosas sobre o reviramento que a resson\u00e2ncia de um significante chave \u00e9 capaz de provocar. O analista corta, n\u00e3o em qualquer momento, mas em um momento espec\u00edfico, sobre um significante chave, um significante com cara de S1, desses que aglutinam sentidos e que, quando s\u00e3o destacados na an\u00e1lise, produzem efeitos que afetam o corpo, o regime de gozo.\u00a0 Isso \u00e9 o que nos ajuda a entender o \u201ccorpo a corpo\u201d de que fala Esthela:\u00a0 a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 concernida apenas por seus efeitos de significado, mas por seus efeitos corporizados.<\/p>\n<p>Miller, na aula de 25 de maio de 2011 do curso <em>O Um sozinho<\/em>, n\u00e3o publicado, diz que Lacan, no \u00faltimo per\u00edodo do seu ensino, trata das puls\u00f5es como o eco no corpo de que h\u00e1 um dizer, e que o real do <em>sinthoma<\/em> a ser alcan\u00e7ado na experi\u00eancia da an\u00e1lise \u00e9 a pura percuss\u00e3o do significante, da palavra no corpo. O texto de Esthela \u00e9 o testemunho vivo daquilo que uma experi\u00eancia de an\u00e1lise \u00e9 capaz de movimentar na articula\u00e7\u00e3o entre a palavra e o corpo, levando em conta o enorme deslocamento que o \u00faltimo ensino promove.\u00a0 Um deslocamento que coloca o acento naquilo que da palavra faz corpo e que nos ajuda a entender que apesar de n\u00e3o podermos prescindir da palavra, a psican\u00e1lise \u00e9, de ponta a ponta, uma experi\u00eancia de corpo.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Solano-Soarez, E. \u201cHagan como yo, no me imiten\u201d. In: <em>Lacan Hispano<\/em>. Barcelona: Grama, 2021, p. 173.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Solano-Soarez. E. <em>Tres segundos con Lacan<\/em>. Barcelona: Gredos, 2021.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Lacan, J. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 836.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. <em>El ultim\u00edssimo Lacan<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013, p. 195.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<blockquote><p>Penso que a pesquisa do campo freudiano hoje est\u00e1 em contrariar o real engendrado no empuxo a um individualismo radical, a adi\u00e7\u00f5es, compuls\u00f5es, autogest\u00e3o do gozo que curto-circuita o giro da puls\u00e3o, dispensando seu arranjo ao Outro. Trata-se de contrariar, com sua a\u00e7\u00e3o, o que est\u00e1 na contracapa do Semin\u00e1rio 19, &#8230;ou pior, onde Miller evoca \u201co pensamento radical do Um-dividualismo moderno\u201d. A psican\u00e1lise faz obst\u00e1culo ao interpor ao desatino do gozo um outro para situ\u00e1-lo. Nesse mundo onde o Outro da tecnologia faz par com o individualismo radical, a investiga\u00e7\u00e3o, pesquisa e aposta da psican\u00e1lise est\u00e1 na oferta e instala\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do analista, que toma a forma de a, um corpo \u00eaxtimo desde onde ressoe a m\u00fasica da l\u00edngua de cada um e situe seu cabimento na polifonia das vozes de um mundo plural e diverso. \u00c9 aqui que uma resposta ao mal-estar atual n\u00e3o est\u00e1 no triunfalismo de um pensamento \u00fanico, pois n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 uma resposta. A aposta no pluralismo \u00e9 abrir as portas para o conv\u00edvio com a pluralidade de respostas, a pluralidade dos sintomas.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000080;\"><strong>Analista presente!<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Iordan Gurgel (AME da EBP\/AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p>Este par\u00e1grafo que comento integra uma confer\u00eancia\/texto de Fernanda Otoni Brisset que articula o imposs\u00edvel de dominar e a presen\u00e7a do analista que, na posi\u00e7\u00e3o de semblante de <em>a, <\/em>oferece-se \u00e0 resson\u00e2ncia da l\u00edngua de cada um. Estamos no campo da cl\u00ednica do real que promove a separa\u00e7\u00e3o do corpo dos significantes que marcaram e parasitaram o sujeito.<\/p>\n<p>Na contemporaneidade, com os fen\u00f4menos da chamada globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 devido ao vazio deixado pela vac\u00e2ncia do pai<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[1]<\/a> \u2013 muitas foram as mudan\u00e7as ocorridas, a partir dos movimentos s\u00f3cio-pol\u00edticos, que acabaram recaindo sobre as novas formas do funcionamento social com reflexos importantes na posi\u00e7\u00e3o subjetiva de cada um. Com o avan\u00e7o da biologia molecular, a pr\u00e1tica da medicina baseada em evid\u00eancias, o apelo \u00e0s neuroci\u00eancias associado ao individualismo radical e, ao mesmo tempo, o fracasso da pol\u00edtica frente aos ideais de sa\u00fade para todos e da religi\u00e3o que claudica ao tentar dar sentido sobre o real, a psican\u00e1lise \u00e9 convocada a mostrar seus efeitos a partir da presen\u00e7a do analista. N\u00e3o \u00e9 tarefa simples fazer o <em>falasser <\/em>subverter os significantes que lhe aprisionam e inventar significantes novos que brotam do inconsciente real, como apontou Fernanda em seu texto.<\/p>\n<p>Para tanto, a psican\u00e1lise do s\u00e9culo XXI acompanha o \u201c\u00faltimo Lacan\u201d que provoca uma mudan\u00e7a conceitual que tem consequ\u00eancias na cl\u00ednica.\u00a0 Trata-se da passagem do inconsciente estruturado como uma linguagem \u2013 que agora \u00e9 entendido como uma elucubra\u00e7\u00e3o do <em>falasser<\/em>, que inclui o corpo e o gozo \u2013 para o inconsciente de <em>al\u00edngua<\/em> e a consequente afeta\u00e7\u00e3o do corpo pela linguagem.\u00a0 Este giro conceitual \u00e9 tribut\u00e1rio da no\u00e7\u00e3o do inconsciente que procede do corpo falante \u2013 isso que Miller destrincha ao dizer que \u201ca palavra passa pelo corpo e, de retorno, afeta o corpo que \u00e9 seu emissor\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 a virada da primazia do Outro da dimens\u00e3o da verdade e do desejo para a primazia do <em>H\u00e1 Um<\/em> \u2013 \u00e9 a entrada no campo <em>Uniano<\/em>, que existe a partir da incorpora\u00e7\u00e3o do significante <em>Um<\/em> que passa a ser parte constitutiva e integrante do corpo.\u00a0 Aqui, Lacan identifica duas materialidades: a sonora do significante e a f\u00edsica do corpo biol\u00f3gico, condi\u00e7\u00e3o que nos direciona para a cl\u00ednica do real. O <em>H\u00e1 Um<\/em> \u00e9 distinto do atributo de uma classe, portanto, n\u00e3o tem nada com o universal; \u00e9 o Um que comanda e cria o ser,<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[3]<\/a> que varre a ideia do dois da rela\u00e7\u00e3o sexual, fazendo prevalecer a dimens\u00e3o do real. Nesta dire\u00e7\u00e3o, a via do <em>Um-sozinho<\/em> do gozo nos leva a questionar: Quais consequ\u00eancias podemos extrair desta mudan\u00e7a? Como intervir a partir do real e n\u00e3o mais se referenciar do desejo?<\/p>\n<p>As nossas armas s\u00e3o outras para enfrentar o Outro da tecnologia \u2013 que concebe o corpo a partir do saber da biologia e da medicina que desprezam as brechas de saber que o corpo manifesta \u2013 para enfrentar o mestre que, em estrita obedi\u00eancia a suas ordens, faz o mundo funcionar. Este funcionamento \u00e9 consequente aos discursos \u2013 excluindo-se a\u00ed o anal\u00edtico \u2013 que funcionam aprisionando os corpos. O exemplo <em>princeps<\/em> \u00e9 o do discurso do mestre que afeta e petrifica o corpo do sujeito.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[4]<\/a> A no\u00e7\u00e3o mesma de discurso implica a domina\u00e7\u00e3o porque se prop\u00f5e a organizar o mundo e todos caminharem no mesmo passo, tarefa que n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3pria da psican\u00e1lise, que n\u00e3o ignora as travessuras do real.\u00a0 O nosso desafio \u00e9 enfrentar o real para possibilitar ao ser falante encontrar uma forma menos perturbada de se haver com seu corpo e modificar seu programa singular de gozo, que tem como efeito o sintoma.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o cl\u00ednica que seguimos, com entusiasmo, para responder \u00e0 desordem do real produzido pela ci\u00eancia, principalmente pelo discurso capitalista e pela religi\u00e3o que fracassam ao tentar tratar o desamparo humano \u00e9 orientar-se pela defesa do real sem lei e fora de sentido; \u00e9, portando, pela via do sem sentido, de privar o sintoma de sentido. \u00c9 justamente por saber que o real n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever e, por isso mesmo, n\u00e3o h\u00e1 um para todos iguais, tampouco um algoritmo que nos oriente na cl\u00ednica, que com os instrumentos que dispomos \u2013 a interpreta\u00e7\u00e3o, o corte e o ato \u2013 seguimos o caminho da conting\u00eancia que pode levar o sujeito, ao desarticular a rela\u00e7\u00e3o entre S<sub>1<\/sub>-S<sub>2<\/sub>, a interromper a repeti\u00e7\u00e3o e poder inventar algo que o leve a ser mais amigo da vida.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[1]<\/a> Conforme o argumento do XXV EBCF.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[2]<\/a> Miller, J-A. \u201cHabeas corpus\u201d.\u00a0<em>In:\u00a0<\/em><strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><strong>:<\/strong> Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n.73, ago. 2016, p. 31-37.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[3]<\/a> Lacan, J. (1971-1972) <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 214.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[4]<\/a> Idem, p 220.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Otoni Brisset, F. \u201cO imposs\u00edvel de dominar e a presen\u00e7a do analista\u201d. In: <em>Variedades<\/em>. N.3. Dez\/2023. Revista do Instituto de Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana de Santa Catarina. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.varidade.com.br\/index.php\/o-impossivel-de-dominar-e-a-presenca-do-analista#:~:text=A%20presen%C3%A7a%20do%20analista%20%C3%A9,o%20come%C3%A7o%20de%20uma%20an%C3%A1lise\">https:\/\/www.varidade.com.br\/index.php\/o-impossivel-de-dominar-e-a-presenca-do-analista#:~:text=A%20presen%C3%A7a%20do%20analista%20%C3%A9,o%20come%C3%A7o%20de%20uma%20an%C3%A1lise<\/a>. Acesso em 30 de setembro de 2024.\u00a0\u00a0<\/span>[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>Quando algu\u00e9m me procura no meu consult\u00f3rio pela primeira vez e eu escando nossa entrada na hist\u00f3ria com algumas entrevistas preliminares, o importante \u00e9 a confronta\u00e7\u00e3o de corpos. \u00c9 justamente por isso partir desse encontro de corpos que este n\u00e3o entra mais em quest\u00e3o, a partir do momento em que entramos no discurso anal\u00edtico.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"color: #333399;\"><strong>O que n\u00e3o se compartilha<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Silvia Sato (EBP\/AMP)<\/p>\n<p>A tentativa de dizer algo sobre a confronta\u00e7\u00e3o dos corpos na cena anal\u00edtica me levou \u00e0 experi\u00eancia no teatro enquanto expectadora. Seja o teatro dos grandes cen\u00e1rios e figurinos, que montam a personagem para a representa\u00e7\u00e3o da cena, onde os atores frente a frente ou corpo a corpo d\u00e3o voz aos personagens, seja o teatro onde a atriz se aproxima do p\u00fablico e contracena com ele. Foi assim em \u201c<em>Eu de voc\u00ea\u201d<\/em>, pe\u00e7a interpretada por Denise Fraga onde em determinado momento o corpo a corpo \u00e9 feito num improviso calculado com algu\u00e9m da plateia.<\/p>\n<p>Segundo Denise, com as palavras de Simone de Beauvoir, \u201cos artistas compartilham essas experi\u00eancias para que o p\u00fablico reconhe\u00e7a nos sofrimentos individuais, o consolo da fraternidade\u201d.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que podemos dizer que na experi\u00eancia anal\u00edtica haveria um consolo da fraternidade nessa irmandade, j\u00e1 que \u201csomos filhos do discurso\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, como disse Lacan?<\/p>\n<p>Talvez seja um dos sentidos que podemos dar para a import\u00e2ncia da confronta\u00e7\u00e3o dos corpos nas entrevistas preliminares, onde estariam analisando e analista numa submiss\u00e3o dos corpos a algo comum, \u00e0 entrada nessa fraternidade que n\u00e3o se d\u00e1 para todos, j\u00e1 que demanda um consentimento do analisando, uma abertura ao inconsciente e inscreve uma perda.<\/p>\n<p>Nesse primeiro confronto dos corpos, os dados s\u00e3o jogados, os lugares estabelecidos dentro do tabuleiro discursivo que tem como pe\u00e7a fundamental a fala, o dito e o dizer.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, o corpo vivo de cada um, analisando e analista, \u00e9 o suporte<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, como disse Lacan. O corpo \u00e9 o suporte e, dessa confronta\u00e7\u00e3o dos corpos, abre-se uma fronteira entre o que seria da ordem do eu e do outro, para o que se presentifica sob transfer\u00eancia, do sujeito e do Outro, incluindo um imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual presentificado na separa\u00e7\u00e3o dos corpos.<\/p>\n<p>Assim, a psican\u00e1lise enquanto um la\u00e7o social se distingue da arte, ao menos ao modo como disse Simone de Beauvoir, citada por Denise Fraga: \u201ca arte serve para superar a solid\u00e3o comum a cada um de n\u00f3s e que, no entanto, faz com que nos tornemos estranhos uns aos outros\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, haveria uma diferen\u00e7a entre a arte e a psican\u00e1lise no modo como afetam a solid\u00e3o, j\u00e1 que numa an\u00e1lise n\u00e3o se trata do compartilhamento das experi\u00eancias, mas sim que em cada experi\u00eancia anal\u00edtica, desde a confronta\u00e7\u00e3o dos corpos com a delimita\u00e7\u00e3o das fronteiras entre analista e analisando, visa-se tocar no real dessa solid\u00e3o singular a cada um, tocar no modo de gozo que n\u00e3o se compartilha.<\/p>\n<p>Diferente do teatro, o corpo n\u00e3o \u00e9 meio de representa\u00e7\u00e3o, mesmo que sirva \u00e0 cena numa an\u00e1lise, onde se atualiza a realidade sexual do inconsciente<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> pela fala endere\u00e7ada ao analista. O corpo muda seu estatuto, indo al\u00e9m da imagem de si, articulando-se ao ser, podendo assim, como efeito dessa parceria sintom\u00e1tica, dar corpo ao ser.<\/p>\n<p>Ao dar corpo ao ser, ao entrar numa outra cena onde se inclui aquilo que lhe \u00e9 desconhecido e estranho, ou inconsciente, como podemos dizer, um corpo falante pode ent\u00e3o prescindir do corpo a corpo e se deitar no div\u00e3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1971-72).\u00a0<strong><em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em><\/strong>: \u2026ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 220.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem<em>, <\/em>p.226.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem<em>,<\/em> p. 217.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p.147.<\/p>\n<hr \/>\n<blockquote><p>Chegamos enfim ao n\u00edvel do discurso do analista. Naturalmente, ningu\u00e9m assinalou &#8211; \u00e9 muito curioso que o que ele produz nada mais seja do que o discurso do mestre, j\u00e1 que S1 \u00e9 o que vem no lugar da produ\u00e7\u00e3o. E, como eu dizia a \u00faltima vez, quando deixei Vincennes, talvez seja do discurso do analista, se fizermos esses tr\u00eas quartos de giro, que possa surgir um outro estilo de significante-mestre.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"color: #333399;\"><strong>Somos filhos do discurso<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Nancy Greca Carneiro (EBP\/AMP)<\/p>\n<p>No pen\u00faltimo cap\u00edtulo do Semin\u00e1rio \u201cO Avesso da Psican\u00e1lise\u201d, Lacan se refere ao discurso anal\u00edtico lan\u00e7ando a quest\u00e3o que lemos na cita\u00e7\u00e3o acima. E responde a sua quest\u00e3o com a pergunta: \u201cSer\u00e1 que acentuo o bastante a relev\u00e2ncia da impossibilidade de sua posi\u00e7\u00e3o, na medida em que o analista se coloca em posi\u00e7\u00e3o de representar, de ser o agente, a causa de desejo?\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Neste Semin\u00e1rio, apresenta-se o gozo em sua forma discursiva, como o que n\u00e3o \u00e9 nome\u00e1vel; e \u00e9 na sua interdi\u00e7\u00e3o que se fundam estas estruturas.<\/p>\n<p>Estamos, justamente, na aula intitulada por Miller de \u201cA impot\u00eancia da Verdade\u201d, onde Lacan inicia por destacar, como marca de seu ensino, o convite ao analista de \u201cestar \u00e0 altura de uma experi\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[3]<\/a>. E com \u201cduas pontinhas de futuro\u201d destaca o essencial do que transmitir\u00e1 neste momento: os poderes dos imposs\u00edveis e a impot\u00eancia da verdade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-607 size-full\" src=\"http:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/matema.png\" alt=\"\" width=\"281\" height=\"179\" \/><\/p>\n<p>Lacan enfatiza que um discurso n\u00e3o poder\u00e1 estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o daquilo que cai como sua produ\u00e7\u00e3o com a verdade, pois esta est\u00e1 protegida pela impot\u00eancia. O real, como imposs\u00edvel, introduz nos discursos uma muta\u00e7\u00e3o: nada de verdade. Ao fracasso de cada discurso \u2013 governar, fazer desejar, analisar e ensinar \u2013, prop\u00f5e que, ao assumir seu imposs\u00edvel, nos livramos da impot\u00eancia, nos protegemos da estupidez.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que articula o discurso da Universidade como um novo discurso do mestre, Lacan anuncia que a jun\u00e7\u00e3o entre o mais-de-gozar e a verdade do mestre, promovida pelo discurso capitalista, esvazia o discurso da impot\u00eancia e promove a demiss\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p>Se no <em>Semin\u00e1rio 17<\/em>, Lacan responde aos estudantes que \u201cest\u00e3o procurando um novo mestre\u201d, no <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, ele aponta a emerg\u00eancia do discurso anal\u00edtico como sendo aquilo que talvez traga \u201co germe de alguma revolu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[4]<\/a>, e apresenta o campo Uniano \u2013 o que tende a aglutinar \u2013 como n\u00e3o mais centrado no Outro, mas como algo que n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de inscri\u00e7\u00e3o, o que ele apresenta como \u201cH\u00e1 um\u201d [<em>Yad\u2019lun<\/em>].<\/p>\n<p>Lacan afirma que o que Plat\u00e3o procedeu foi afirmar que a rela\u00e7\u00e3o senhor-escravo n\u00e3o tinha nada a ver com a rela\u00e7\u00e3o \u201cess\u00eancia-senhor\u201d e \u201cess\u00eancia-escravo\u201d, que o escravo nunca \u00e9 escravo sen\u00e3o da ess\u00eancia do senhor<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[5]<\/a>. Aqui se abre o caminho desde a ontologia \u00e0 henologia, ou seja, do ser ao existir. Assim, conclui sobre o Um: o que s\u00f3 existe ao n\u00e3o ser<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Se no <em>Semin\u00e1rio 18,<\/em> Lacan suspira por um discurso que n\u00e3o fosse do semblante, no <em>Semin\u00e1rio 19,<\/em> convida os analistas a \u201cabra\u00e7ar esse imposs\u00edvel no qual se re\u00fane o que \u00e9 para n\u00f3s, no discurso anal\u00edtico, fundament\u00e1vel como real\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>O que comanda \u00e9 o Um! E como anterioridade l\u00f3gica, o Um constitui o ser. Lacan afirma o gozo como um fundamento que est\u00e1 no corpo, inapreens\u00edvel, inarticul\u00e1vel como verdade. Esta verdade n\u00e3o pode ser dita, ela n\u00e3o pode se dizer. Mas o gozo existe e do gozo \u00e9 poss\u00edvel que possamos falar dele<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[8]<\/a>. E acabar\u00e1 por afirmar que \u201co discurso como tal \u00e9 sempre discurso do semblante\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Gira, oscila, pode ser contornado a partir do momento em que o tocamos. E gira em torno de qu\u00ea? A ess\u00eancia do discurso gira em torno de um corpo. O gozo, a verdade, o semblante e o mais-de-gozar giram em torno do que acontece no n\u00edvel do corpo \u2013 suporte de onde surge todo o sentido.<\/p>\n<p>Lacan finaliza: \u201cse existe algo que se chame discurso anal\u00edtico, \u00e9 porque o analista como corpo, com toda a ambiguidade motivada por esse termo, instala o objeto <em>a<\/em> no lugar do semblante\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">10]<\/a>. Assim, a presen\u00e7a do analista e de seu ato fazem ressoar em seu corpo o que \u00e9 o pr\u00f3prio objeto <em>a<\/em>. Para tornar presente este gozo n\u00e3o simbolizado, o analista comparece com seu corpo. Caber\u00e1 ao analisante interpretar: onde estou no meu dizer?<\/p>\n<p>Para encerrar, retomo a aposta de Lacan no <em>Semin\u00e1rio 17<\/em> de que \u201ctalvez seja do discurso do analista (&#8230;) que possa surgir um outro estilo de significante mestre\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[11]<\/a> e estendo esta presen\u00e7a do analista no tratamento anal\u00edtico para a presen\u00e7a do analista no mundo.<\/p>\n<p>A partir da \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro\u201d \u2013 quando Lacan funda sua Escola como um lugar para que os analistas estivessem \u00e0 altura de fazer existir a Psican\u00e1lise no mundo \u2013, poder\u00edamos pensar que \u00e9 a presen\u00e7a do analista no mundo, um ato pol\u00edtico? Seria a presen\u00e7a do analista, na cena do mundo, uma abertura poss\u00edvel para que se suspenda, tamb\u00e9m na vida cotidiana, nas institui\u00e7\u00f5es, nas cidades, a repeti\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao inconsciente e este irrompa em sua fun\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[1]<\/a> Lacan, J. (1969-70). <em>O Semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: o avesso da Psican\u00e1lise. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992, p. 168.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[2]<\/a> Idem, p.168.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[3]<\/a> Idem<em>,<\/em> p.156.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[4]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 124.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[5]<\/a> Idem, p. 127.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[6]<\/a> Miller, J. A. (2010-2011) <em>Curso da Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana: O Um sozinho<\/em>. In\u00e9dito. Obs: Onde Miller ir\u00e1 distinguir a doutrina do ser do n\u00edvel da exist\u00eancia, onde a exist\u00eancia precede a ess\u00eancia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[7]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 213.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[8]<\/a> Idem, p. 218.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[9]<\/a> Idem, p. 218.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[10]<\/a> Idem, p. 222.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[11]<\/a> Lacan, J. (1969-70). <em>O Semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: o avesso da Psican\u00e1lise. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992, p. 168.[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>A consequ\u00eancia mais surpreendente extra\u00edda por Lacan \u00e9 que \u201cs\u00f3 h\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o sexuada de um lado\u201d, e esse \u00e9 o lado feminino, n\u00e3o-f\u00e1lico: \u201cTodas essas identifica\u00e7\u00f5es est\u00e3o do mesmo lado. Isto quer dizer que s\u00f3 uma mulher \u00e9 capaz de faz\u00ea-las\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. S\u00f3 uma, n\u00e3o todas, uma por uma, e sempre n\u00e3o-toda. A f\u00f3rmula \u00e9 fulgurante e n\u00e3o deixa outro lugar para a identifica\u00e7\u00e3o sexuada, n\u00e3o sexual, que a posi\u00e7\u00e3o feminina, singular, exce\u00e7\u00e3o sem regra, obje\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio \u00e0 l\u00f3gica f\u00e1lica dos universais. Dito de outro modo: s\u00f3 desde a posi\u00e7\u00e3o feminina se escolhe e se consente com uma identifica\u00e7\u00e3o sexuada. Resta desdobrar, aqui, as consequ\u00eancias dessa nova l\u00f3gica lacaniana da sexua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(Miquel Bassols \u201cFundamentos da sexua\u00e7\u00e3o em Lacan\u201d. In: <em>Latusa 26: binarismo em crise \u2013 g\u00eanero e sexo nos tempos que correm<\/em>. Rio de Janeiro: EBP-Rio, n. 26, 2022, p. 42)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O feminino em n\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><em>Cristiane Grillo (EBP\/MG)<\/em><\/span><\/p>\n<p>No livro <em>La diferencia de los sexos no existe en el inconsciente<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, Miquel Bassols argumenta, seguindo Lacan, que h\u00e1 uma primeira l\u00f3gica, a da diferen\u00e7a relativa entre os significantes, que funda a linguagem. O inconsciente \u00e9 estruturado como linguagem, e o sujeito do inconsciente \u00e9 representado por um significante para um outro significante. As diferen\u00e7as relativas entre um significante e outro se desdobram nos bin\u00f4mios homem-mulher, h\u00e9tero-homo, bin\u00e1rio-n\u00e3o bin\u00e1rio etc. O binarismo resultante da diferen\u00e7a entre os significantes estrutura a linguagem. Esta l\u00f3gica universal mostra sua vertente segregativa, por mais (e quanto mais) que se tente escapar dela.<\/p>\n<p>O axioma \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d inaugura uma nova l\u00f3gica, uma vez que, aqui, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a relativa entre os sexos. Passamos do campo do Um com o Outro para o campo do Um sem o Outro.<\/p>\n<p>Nessa esfera de uma alteridade radical, se h\u00e1 um Outro, \u00e9 o corpo, habitado por um gozo autista:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 dois. O \u201cdois\u201d n\u00e3o est\u00e1 no mesmo n\u00edvel que h\u00e1 Um (il y a de l\u2019Un), o \u201cdois\u201d est\u00e1 no n\u00edvel do del\u00edrio. N\u00e3o h\u00e1 dois, n\u00e3o h\u00e1 mais que Um que se repete na itera\u00e7\u00e3o. E ainda acrescentaria uma terceira f\u00f3rmula: h\u00e1 o corpo. Nesse n\u00edvel, est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o os dois \u201ch\u00e1\u201d que devem ser pensados. N\u00e3o s\u00e3o os dois sexos, e sim o Um e seu corpo.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Essa nova l\u00f3gica \u00e9 a l\u00f3gica da letra, do objeto <em>a<\/em>, do feminino. L\u00f3gica que introduz a diferen\u00e7a absoluta, a singularidade, uma vez que n\u00e3o estamos mais no campo da diferen\u00e7a relativa e do universal do significante.<\/p>\n<p>Seguindo Lacan, vemos que \u201c<em>A<\/em> mulher, insisto, essa que n\u00e3o existe, \u00e9 justamente a letra \u2013 a letra como significante de que n\u00e3o h\u00e1 Outro\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Passamos da l\u00f3gica bin\u00e1ria do falo para o uniano do gozo, tomando essa express\u00e3o de Laurent<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>O recha\u00e7o \u00e0 alteridade, ao feminino, pode provocar uma multiplica\u00e7\u00e3o de semblantes, de identidades, visando a borrar o infinito entre 0 e 1, entre centro e aus\u00eancia. Aqui, vemos o abeced\u00e1rio dos g\u00eaneros, sempre insuficiente para se nomear o gozo opaco, o gozo sempre <em>queer<\/em>. Esse abeced\u00e1rio se contrap\u00f5e ao de uma letra s\u00f3.<\/p>\n<p>Diante do real do gozo, da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, resta a cada um forjar uma solu\u00e7\u00e3o <em>sinthom\u00e1tica<\/em>: a inven\u00e7\u00e3o de uma borda, de um nome singular para o gozo. A face real do objeto se escreve e o escrito tece a borda do real<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>E, ao autorizarmos o feminino em n\u00f3s, podemos nos autorizar como seres sexuados e eventualmente como analistas, n\u00e3o sem alguns outros.<\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> J. Lacan. (1973-1974). <em>Le s\u00e9minaire, livre XXI: Les non-dupes errent, <\/em>(n\u00e3o publicado)<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Bassols, M. <em>La diferencia de los sexos no existe en el inconsciente<\/em>. Olivos: Grama Ediciones, 2021.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J.-A. <em>El ser y el uno<\/em>. Olivos: Grama, 2016, p. 246.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. (1971). <em>O Semin\u00e1rio, livro 18: de um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 102.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Laurent, \u00c9. <em>El unarismo lacaniano y lo m\u00faltiple de las conductas sexuales<\/em>. Dispon\u00edvel em: https:\/\/zadigespana.com\/2021\/01\/05\/el-unarismo-lacaniano-y-lo-multiple-de-las-conductas-sexuales\/ (acesso em 10\/07\/24).<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> J. Lacan. (1973-1974). <em>Le s\u00e9minaire, livre XXI: Les non-dupes errent, <\/em>(n\u00e3o publicado).<\/span>[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>Em Joyce, s\u00f3 h\u00e1 uma coisa que exige apenas sair, ser largada como uma casca. (&#8230;) Essa repulsa refere-se, em suma, a seu pr\u00f3prio corpo. \u00c9 como algu\u00e9m que coloca entre par\u00eanteses, que afasta a lembran\u00e7a desagrad\u00e1vel. Ter rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio corpo como estrangeiro, \u00e9 certamente, uma possibilidade, expressada pelo fato de usarmos o verbo ter. Tem-se seu corpo, n\u00e3o se \u00e9 ele em hip\u00f3tese alguma. (&#8230;) Mas a forma de Joyce deixar cair a rela\u00e7\u00e3o com o corpo pr\u00f3prio \u00e9 totalmente suspeita para um analista, pois a ideia de si como um corpo tem um peso. \u00c9 precisamente o que chamamos de ego.<\/p>\n<p>(Lacan, J. (1975-1976). <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 146)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong><em>Guarde os pensamentos sobre o meu corpo para si mesmo!<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>#vempterapiavctb #liberte-se<\/em><\/strong><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><em>Veridiana Marucio (EBP\/AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p>Essa publicidade, encontrada nas redes sociais, mostra como est\u00e1 dif\u00edcil de nos arranjarmos com o nosso corpo hoje em dia. J\u00e1 que n\u00e3o podemos nos libertar do corpo que temos, pelo menos podemos fazer uma terapia para nos libertarmos da press\u00e3o social de buscar o corpo perfeito. Venha para a terapia voc\u00ea tamb\u00e9m, n\u00e3o fique de fora, e liberte-se do que voc\u00ea pensa que o outro pensa sobre seu corpo.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o que vemos na nossa cl\u00ednica psicanal\u00edtica s\u00e3o casos extremos dessa dificuldade: dores intensas, anorexia, bulimia, automutila\u00e7\u00e3o, cicatrizes, al\u00e9m de problemas no sistema digestivo, no sistema respirat\u00f3rio, no sono, nos intestinos, na bexiga e na sexualidade.<\/p>\n<p>Nesse sentido, ao valorizar a pluralidade do corpo, a psican\u00e1lise se mostra essencial para entender esses fen\u00f4menos. Ent\u00e3o, o que a psican\u00e1lise nos ensinou sobre o corpo?<\/p>\n<p>Se falamos do corpo, \u00e9 porque o temos, mesmo que em alguns casos isso seja t\u00e3o insuport\u00e1vel, a ponto de querermos nos libertar dele. Lacan insiste na dimens\u00e3o do \u201cter\u201d ligada ao corpo. Temos um corpo, n\u00e3o somos o corpo. Ao que isso se refere? Ao amor-pr\u00f3prio, \u00e0 mentalidade como consist\u00eancia mental e essa, especifica Lacan<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, \u00e9 a raiz do imagin\u00e1rio. \u00c9 uma \u201cesp\u00e9cie de amor prim\u00e1rio, n\u00e3o pelo Outro, mas por si mesmo, um culto\u201d <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, acrescenta Jacques-Alain Miller.<\/p>\n<p>A mentalidade consiste, portanto, em adorar seu corpo, e essa \u00e9 \u201ca \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que o falasser tem com seu corpo\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Miller diz que a rela\u00e7\u00e3o, cuja inexist\u00eancia Lacan formulou no n\u00edvel sexual, ele a reencontra no n\u00edvel corporal e, de certa forma, Joyce nos serve de exemplo: existe uma rela\u00e7\u00e3o corporal<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Essa adora\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo, que n\u00e3o passa pelo Outro do significante, \u00e9 uma nova rela\u00e7\u00e3o com o corpo. O corpo de que se trata no \u00faltimo ensino de Lacan \u00e9 \u201co corpo na medida em que ele se goza\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>No mesmo curso, Miller acrescenta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) h\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o corporal joyceana que \u00e9 distinta, pois o que est\u00e1 no centro n\u00e3o \u00e9 a adora\u00e7\u00e3o do corpo, \u00e9 a ideia de si mesmo como corpo. E parece-me que seria necess\u00e1rio opor a\u00ed a adora\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio corpo e a &#8216;moisa\u00e7\u00e3o&#8217; do pr\u00f3prio corpo, se posso dizer assim. A primeira rela\u00e7\u00e3o de adora\u00e7\u00e3o permanece uma rela\u00e7\u00e3o de ter, enquanto a outra \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de ser.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Por isso podemos falar de uma doen\u00e7a da mentalidade para Joyce, com esta f\u00f3rmula substitutiva: <em>ele n\u00e3o tem um corpo, ele \u00e9<\/em>.<\/p>\n<p>Uma cena de \u201cRetrato do Artista Quando Jovem\u201d \u00e9 comentada por Lacan para elucidar a doen\u00e7a da mentalidade de Joyce. Trata-se da briga que surge entre Stephen e H\u00e9ron, a respeito do poeta Byron. H\u00e9ron e seus camaradas se jogam sobre Stephen, encurralando-o contra uma cerca de arame farpado e o espancando. Retomamos aqui essa passagem:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Enquanto ainda repetia o <em>Confiteor <\/em>em meio ao riso indulgente de seus ouvintes e enquanto as cenas daquele episo\u0301dio maligno passavam ainda viva e rapidamente diante de sua mente ele se perguntava por que agora na\u0303o guardava rancor (<em>malice<\/em>) contra aqueles que o haviam atormentado. Na\u0303o esquecera nem um pouquinho a covardia e a crueldade deles mas a lembranc\u0327a daquilo na\u0303o lhe despertava nenhuma raiva. Todas as descric\u0327o\u0303es de amor e o\u0301dio ferozes que encontrara em livros lhe haviam parecido por conseguinte irreais. Mesmo naquela noite enquanto tropec\u0327ava pela Jone\u2019s Road em direc\u0327a\u0303o a sua casa sentira que alguma forc\u0327a o estava despojando daquela raiva subitamente tecida ta\u0303o facilmente quanto um fruto maduro e\u0301 despojado de sua casca madura e macia.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Lacan extrai desse testemunho que n\u00e3o se trata apenas da rela\u00e7\u00e3o com o corpo, mas que o elo imagin\u00e1rio se rompe para Joyce<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. N\u00e3o h\u00e1 adora\u00e7\u00e3o ao corpo, n\u00e3o h\u00e1 mentalidade. Para ele, n\u00e3o h\u00e1 mais corpo. Lacan diz que Joyce metaforiza sua rela\u00e7\u00e3o com seu corpo: como uma casca. Ele n\u00e3o tem o corpo, o que indica a aus\u00eancia de amor-pr\u00f3prio, mas ele o \u00e9 pelo processo de metaforiza\u00e7\u00e3o, que Jacques-Alain Miller chama de \u201cmoisa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Essa perturba\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com o corpo para o sujeito Joyce elucida a cl\u00ednica contempor\u00e2nea. Finalizo esse breve coment\u00e1rio com uma quest\u00e3o, a partir do trabalho de Ram Mandil intitulado \u201cJames Joyce e a ideia de si como corpo\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>: Onde estaria o suporte para a ideia que algu\u00e9m faz de si como corpo? De que maneira podemos distinguir as ideias que se sustentam da imagem do corpo pro\u0301prio, daquelas que buscam outras vias de sustentac\u0327a\u0303o?<\/p>\n<hr \/>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1975-1976).\u00a0<em>O semina\u0301rio livro 23<\/em>: <em>o sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p.131.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Miller, J.-A<em>. <\/em>\u201cPe\u00e7as avulsas \u2013 coment\u00e1rio sobre Le Sinthome\u201d<em>.\u00a0<\/em>In:\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>. N. 45. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia, 2006, p.15.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. (1975-1976). <em>Op. cit.<\/em>, p. 64.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J.-A. \u201cPe\u00e7as avulsas \u2013 coment\u00e1rio sobre Le Sinthome\u201d<em>. <\/em><em>Op. cit.<\/em>pg. 13<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A.\u00a0(2010-2011). <em>O Um sozinho<\/em>.\u00a0In\u00e9dito.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. \u201cPe\u00e7as avulsas \u2013 coment\u00e1rio sobre Le Sinthome\u201d<em>. Op. cit<\/em>., pg. 14.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Joyce, J. <em>Um retrato do artista quando jovem<\/em>. Sa\u0303o Paulo: Siciliano, 1992, p. 87.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Lacan, J. (1975-1976). <em>Op. cit.<\/em>, p. 145.<\/span><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Mandil, R. J<em>ames Joyce e a ideia de si como corpo<\/em>. XI Congresso Internacional da ABRALIC. 13 a 17 de julho de 2008 USP \u2013 Sa\u0303o Paulo, Brasil. Dispon\u00edvel em: \u00a0<a href=\"https:\/\/abralic.org.br\/eventos\/cong2008\/AnaisOnline\/simposios\/pdf\/005\/RAM_MANDIL.pdf\">https:\/\/abralic.org.br\/eventos\/cong2008\/AnaisOnline\/simposios\/pdf\/005\/RAM_MANDIL.pdf<\/a> (acesso em 21\/07\/2024)<strong>.<\/strong><\/span>[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>No momento final de seu ensino, o imagin\u00e1rio define-se pela cren\u00e7a de que o ser falante possui um corpo \u2013 ou seja, o imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo que se acredita existir. Uma coisa, por\u00e9m, \u00e9 a cren\u00e7a em se ter um corpo; outra \u00e9 o corpo propriamente dito. O corpo do ser falante n\u00e3o \u00e9 o cad\u00e1ver. O corpo do cad\u00e1ver \u00e9 consistente e n\u00e3o se evapora quando de sua consuma\u00e7\u00e3o. O corpo vivo do ser falante \u00e9 evanescente e inconsistente, escapa-lhe a todo o tempo.<\/p>\n<p>(Santiago, J. \u201cO novo imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo\u201d. In: <em>Derivas anal\u00edticas<\/em>. Revista digital de psican\u00e1lise e cultura da EBP-MG. Belo Horizonte: EBP, mar\u00e7o de 2024. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/corpo2#:~:text=No%20momento%20final%20de%20seu,falante%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20o%20cad%C3%A1ver\">aqui.<\/a>)<\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>O Novo Imagin\u00e1rio e o enodamento poss\u00edvel<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Marcelo Magnelli (EBP\/AMP)<\/p>\n<p>Lacan, no in\u00edcio de seu ensino, reduz o Imagin\u00e1rio a <em>i(a)<\/em>. Com a topologia do n\u00f3 borromeano, Real, Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio ganham independ\u00eancia e perdem hierarquia entre si. J\u00e9sus Santiago<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> parte destes pontos para chegar \u00e0 cita\u00e7\u00e3o destacada. \u00c9 a partir da perspectiva de que o objeto <em>a<\/em> curto-circuita a rela\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria que Lacan \u201cesburaca\u201d o imagin\u00e1rio, chegando \u00e0 no\u00e7\u00e3o de que o corpo que interessa \u00e0 psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 o correlato \u00e0 imagem narc\u00edsica, esf\u00e9rica e imaculada. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um corpo \u201ccorpsificado\u201d (cadaverizado) pela a\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Seu caminho vai, ent\u00e3o, da esfera ao toro, chegando ao n\u00f3 borromeano. O corpo do falasser \u00e9 vivo porque dele transborda gozo e sempre escapa \u00e0 imagem especular.<\/p>\n<p>O Imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo na medida em que \u201c\u00e9 cont\u00edguo ao real do gozo\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, sustentando a imagem por meio dos restos do real do gozo. Esta dimens\u00e3o do Imagin\u00e1rio caminha, <em>pari passu<\/em>, \u00e0 no\u00e7\u00e3o de corpo destacada por Jacques-Alain Miller em seu curso <em>O Um sozinho<\/em>: um corpo estrangeiro, um <em>corpo gozante<\/em>, um corpo que <em>se<\/em> goza<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Ou seja, um corpo que goza sozinho, sem fazer la\u00e7o, e que corresponde ao <em>autoerotismo<\/em> freudiano.<\/p>\n<p>\u201cUOM, UOM de base, UOM kitemum corpo e s\u00f3-s\u00f3 Teium [<em>nan-na Kum<\/em>]. H\u00e1 que dizer assim: ele teihum&#8230;, e n\u00e3o: ele \u00e9um&#8230; (corp\/aninhado). \u00c9 o ter, e n\u00e3o o ser, que o caracteriza. (\u2026) UOM\u00a0<em>tem [a]<\/em>, no princ\u00edpio. Por qu\u00ea? Isso se sente e, uma vez sentido, demonstra-se\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao modo da escrita joyceana, Lacan aponta que se trata de ter \u2013 e n\u00e3o de ser \u2013 um corpo. Laurent destaca que esta \u00e9 a \u201cter\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, ocorrida primeiro para que o gozo possa se inscrever nele. Primeiro se experimenta o gozo para depois poder produzir-se um saber significante sobre o corpo. Ou seja, desse corpo marcado pelo gozo de lal\u00edngua, vir\u00e3o efeitos de acontecimento que possibilitar\u00e3o a constitui\u00e7\u00e3o do inconsciente articulado como um saber.<\/p>\n<p>Podemos dizer que o \u201caprisionamento\u201d do corpo \u00e9 \u201cn\u00e3o-todo\u201d, comportando algo da dimens\u00e3o do for\u00e7amento, ao introduzir uma diferen\u00e7a quantitativa de gozo. Estamos na cl\u00ednica do acontecimento de corpo, partid\u00e1ria da no\u00e7\u00e3o de foraclus\u00e3o generalizada. Assim, importa mais uma muta\u00e7\u00e3o de gozo do que um franqueamento<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Nesse sentido, cada falasser precisa se haver com o gozo como tal, corporal, experimentado como fen\u00f4meno. Interessa-nos o modo como o falasser faz, do fen\u00f4meno, um acontecimento de corpo, constituindo, assim, um <em>sinthoma<\/em> enquanto um quarto n\u00f3, que tem efeito de enodar os tr\u00eas registros, de modo a reparar o lapso, desestabilizante, no mesmo ponto onde ocorre. O <em>sinthoma<\/em>, ent\u00e3o, \u00e9 um acontecimento de corpo, contingente, que d\u00e1 lugar ao sentido<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Nesta perspectiva, n\u00e3o se trata de revelar algo, mas de aparelhar gozo. Estaria a\u00ed um dos modos de tratarmos a dificuldade com o termo \u201caprisionar\u201d, tomando-o a partir da no\u00e7\u00e3o de enodamento, sinthom\u00e1tico, cujos restos n\u00e3o cessam de reiterar?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer que o EGO de Joyce, sinthomatizado por sua escrita \u2013 que visava a manter os universit\u00e1rios ocupados por 300 anos \u2013, enoda os tr\u00eas registros <em>sem<\/em> o recurso de uma imagem corporal <em>i(a)<\/em>, auxiliando no ordenamento de seu circuito de gozo, ao promover seu aparelhamento \u201csem ceder ao sentido\u201d, como diz Miller<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>? Nesse caso, parece que temos um nome (EGO) no lugar do corpo (enquanto imagem corporal, ego).<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Santiago, J. \u201cO novo imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo\u201d. In: <em>Derivas anal\u00edticas<\/em>. Revista digital de psican\u00e1lise e cultura da EBP-MG. Belo Horizonte: EBP, mar\u00e7o de 2024. Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/corpo2#:~:text=No%20momento%20final%20de%20seu,falante%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20o%20cad%C3%A1ver\">aqui<\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J.-A. (2010-2011) <em>Curso da Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana: O Um sozinho<\/em>. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. \u201cJoyce, o Sintoma\u201d. In: <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 561.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Laurent, \u00c9. <em>O avesso da biopol\u00edtica<\/em>: <em>uma escrita para o gozo<\/em>. Rio de Janeiro: Contracapa, 2016, p. 57.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Miller, J-A. \u201cMutaciones de goce\u201d. In: <em>Sutilezas Anal\u00edticas<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011, p. 163-180.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>Miller, J-A. (2010-2011). <em>Op. Cit<\/em>. Destaco o trecho: \u201cO <em>sinthoma<\/em> \u00e9 definido como um acontecimento de corpo que evidentemente d\u00e1 lugar ao sentido. A partir desse acontecimento uma sem\u00e2ntica dos sintomas se desenvolve, mas, na raiz dessa sem\u00e2ntica h\u00e1 um puro acontecimento de corpo\u201d (tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Miller, J-A. \u201cLacan com Joyce\u201d. In:\u00a0<em>Correio<\/em>. N. 65. S\u00e3o Paulo: EBP, abril de 2010, p. 58.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>El cuerpo siempre ha sido alterado por rituales impuestos por el discurso social. Eso no es una novedad de la \u00e9poca. Lo que es una novedad de la \u00e9poca es que esas alteraciones no son ahora reguladas, pautadas, ritualizadas por ese discurso [social]. Esa es a mi juicio una caracter\u00edstica in\u00e9dita de nuestra \u00e9poca. La tecnologia y el mercado han entendido que es necess\u00e1rio para los seres parlantes marcar, modificar, alterar sus cuerpos, sea por motivos psicopatol\u00f3gicos, est\u00e9ticos o de goce. Y tienen mucho para ofrecer&#8230; El cuerpo, para ser um cuerpo, siempre es alterado.<\/p>\n<p>(Tarrab, M. \u201cEsplendor de los cuerpos y de los discursos\u201d. In: <em>El decir y lo real<\/em>. Olivos: Grama Ed, 2023, p. 67-82)<\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000080;\"><strong>Perda de rumo e foraclus\u00e3o das coisas do amor<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Elizabete Siqueira (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>A passagem destacada de Maur\u00edcio Tarrab me fez pensar, acompanhando suas proposi\u00e7\u00f5es, que o corpo tem ocupado um lugar central ao longo dos tempos e \u00e9 um dos temas prediletos no discurso contempor\u00e2neo das sociedades ocidentais. Essa paix\u00e3o irrefre\u00e1vel pelo corpo \u00e9 uma das consequ\u00eancias da estrutura\u00e7\u00e3o individualista de nossa sociedade, a ponto de \u00c9ric Laurent afirmar, sem meias palavras: \u201cO corpo humano \u00e9 um Deus&#8230; Ele \u00e9 suposto ser o fundamento de uma ci\u00eancia da felicidade\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o que se nos apresenta \u00e9 que a contemporaneidade \u00e9 ambivalente em rela\u00e7\u00e3o ao corpo. Por um lado, h\u00e1 uma vis\u00e3o do corpo como esplendoroso, corpo glorioso que pode ser totalmente reciclado pela tecnoci\u00eancia, lugar de resist\u00eancia, ve\u00edculo e recept\u00e1culo de sensa\u00e7\u00f5es e gozo. Por outro lado, h\u00e1 um \u00f3dio e o corpo \u00e9 esvaziado de qualquer valor, encarnando a parte mal\u00e9fica que deve ser corrigida. H\u00e1 um discurso que o menospreza e o abomina por sua vulnerabilidade, precariedade e finitude, percebendo-o como um corpo entrave<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>O corpo se tornou objeto de uma busca cont\u00ednua, infinita, que fala da necessidade de se encontrar uma ancoragem de si. Na contemporaneidade, ele se apresenta como um corpo que se modela e que tende a se metamorfosear em roupa de carne, que se gerencia, e se muda \u00e0 vontade. Em suma, um neg\u00f3cio que se domina. Em outras palavras, o corpo significa algo a se fazer moldar, a se renovar, a se transformar. \u00c9 um corpo dispon\u00edvel a qualquer coisa, corpo mercantilizado, marcado, pressionado de formas t\u00e3o fortes quanto contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Haber e Renault prenunciaram que o mercado da forma e da sa\u00fade orientaria a economia do s\u00e9culo XXI para a biotecnologia<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Para eles, o neoliberalismo n\u00e3o perdoa os corpos, haja vista a exist\u00eancia de todo um mercado de consumo dirigido ao corpo, provocador de identidades em ruptura, encenadas nas perturba\u00e7\u00f5es corporais. Destacam a exist\u00eancia de batalhas com e pelo corpo, atualizadas sob a forma de m\u00faltiplas ideologias que avalizam viol\u00eancias simb\u00f3licas sobre ele, com fins de naturalizar opress\u00f5es invis\u00edveis que o mercantilizam e de ocultar domina\u00e7\u00f5es subliminares. Podemos deduzir que h\u00e1 um canibalismo disfar\u00e7ado que devora o corpo, modificando-o e maltratando-o.<\/p>\n<p>Tal voracidade dirigida ao corpo \u00e9 o signo de que, nesta civiliza\u00e7\u00e3o do consumo, o gozo est\u00e1 solto, sem r\u00e9deas, buscando uma plenitude imagin\u00e1ria inexistente e imposs\u00edvel, de um gozar at\u00e9 n\u00e3o poder mais, em uma rela\u00e7\u00e3o direta com o objeto. Em resumo, a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental e capitalista provoca a troca da dial\u00e9tica do desejo pelo gozo autoer\u00f3tico. Tal oferta produz sujeitos incapazes de lidar com a falta e, consequentemente, com as coisas do amor. Por tudo isso, \u201c\u00e9 um erro acomodar-se \u00e0 perda de rumo da \u00e9poca\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><span class=\"wpex-text-sm\">[1]<\/span><\/a><span class=\"wpex-text-sm\"> Laurent, \u00c9. <em>Entrevista para o Jornal La naci\u00f3n<\/em>. Exibi\u00e7\u00e3o em 9 de julho de 2008<em>. <\/em>Divulga\u00e7\u00e3o pela mala-direta da EBP-Veredas, em 01\/08\/2008. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, 2008.<\/span><\/h6>\n<h6><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Siqueira, E. R.A. <em>Muralhas da inibi\u00e7\u00e3o. <\/em>Curitiba: CRV, 2018.<\/span><\/h6>\n<h6><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Haber, S. &amp; Renault, \u00c9. <em>Cuerpos dominados, cuerpos en ruptura. <\/em>Buenos Aires: Nueva Visi\u00f3n, 2007.<\/span><\/h6>\n<h6><span class=\"wpex-text-sm\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Tarrab, M. \u201cEsplendor de los cuerpos y de los discursos\u201d <em>Op. cit.<\/em>, p. 67-82.<\/span><\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>O que distingue o discurso do capitalismo \u00e9 isto: a <em>Verwerfung<\/em>, a rejei\u00e7\u00e3o para fora de todos os campos do simb\u00f3lico, com as consequ\u00eancias de que j\u00e1 falei \u2013 rejei\u00e7\u00e3o de qu\u00ea? Da castra\u00e7\u00e3o. Toda ordem, todo discurso aparentado com o capitalismo deixa de lado o que chamaremos, simplesmente, de coisas do amor, meus bons amigos. Como voc\u00eas veem, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, certo? (Lacan, J. <em>Estou falando com as paredes: conversas na Capela de Sainte-Anne<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 88.)<\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #333399;\"><strong>Certo, dr. Lacan, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Louise Lhullier (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Uma cat\u00e1strofe destr\u00f3i vidas, cidades e sonhos no Rio Grande do Sul. N\u00e3o foi surpresa. H\u00e1 muitos anos, v\u00e1rios estudos alertavam para o perigo. Uma enchente ocorrida seis meses atr\u00e1s anunciava o que viria. N\u00e3o foi suficiente. O \u201cn\u00e3o querer saber nada disso\u201d prevaleceu.<\/p>\n<p>J\u00falia Dantas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> descreve como ela e o marido continuaram \u201cconfiantes\u201d e \u201cotimistas\u201d mesmo quando andaram com \u00e1gua at\u00e9 os joelhos para ir \u00e0s compras no s\u00e1bado, e como tudo parecia \u201cabsolutamente normal\u201d no resto do bairro. Naquela noite a \u00e1gua come\u00e7ou a invadir seu apartamento. A for\u00e7a do desejo foi o motor de uma luta que se estendeu at\u00e9 o domingo, para salvar suas coisas, que \u201cnunca s\u00e3o apenas coisas\u201d. S\u00f3 desistiram quando \u201ctudo come\u00e7ou a ruir\u201d, com a \u00e1gua subindo pelos ralos, vertendo do ch\u00e3o e das paredes. Sa\u00edram com \u00e1gua pela cintura.<\/p>\n<p>A solidariedade fez chegar \u00e0s centenas de milhares de desabrigados um grande volume de doa\u00e7\u00f5es. Nesse cen\u00e1rio, o governador do Estado manifestou publicamente sua preocupa\u00e7\u00e3o com os preju\u00edzos que esse volume de donativos traria para os comerciantes ga\u00fachos, sugerindo que as doa\u00e7\u00f5es \u201cf\u00edsicas\u201d geravam um problema, pois as pessoas deixariam de comprar&#8230; Muito criticado, desculpou-se.<\/p>\n<p>\u201cToda ordem, todo discurso aparentado com o capitalismo deixa de lado o que chamaremos, simplesmente, de coisas do amor\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, disse Lacan h\u00e1 cinquenta anos. Nas palavras do governador, o verdadeiro Mestre<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> emergiu furando o semblante precariamente constitu\u00eddo no p\u00edfio agradecimento \u00e0 solidariedade que antecedeu seu apelo pelo redirecionamento das doa\u00e7\u00f5es. Ante a fome, o frio e o desamparo dos que viram tudo ruir, a solidariedade, dos que ainda n\u00e3o deixaram de lado as coisas do amor, se articulou pela via dos discursos, do que faz la\u00e7o. O apelo pela salva\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio foi na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, reduzindo a falta \u00e0 mera falta das coisas que circulam no Mercado, esse Mestre atual que desconhece a castra\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o faz barreira ao gozo e, portanto, n\u00e3o constitui o la\u00e7o social. Se revela a\u00ed uma variante do \u201cn\u00e3o querer saber nada disso\u201d.<\/p>\n<p>Tanto na invas\u00e3o das \u00e1guas quanto do gozo, as barreiras se mostram cada vez mais d\u00e9beis em sua fun\u00e7\u00e3o de freio, deixando um rastro de destrui\u00e7\u00e3o em sua passagem para al\u00e9m do que organizava seus caminhos sob o comando dos ideais, dos significantes-mestres. O fluxo \u00e9 inexor\u00e1vel e acelerado, sem os limites da impossibilidade, do corte e da falta<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, a\u00ed onde a castra\u00e7\u00e3o foi forclu\u00edda. Haver\u00e1 resposta poss\u00edvel da psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Em tempos de queda dos significantes-mestres, sob o comando do objeto em alian\u00e7a com o \u201cn\u00e3o querer saber nada disso\u201d, tudo o que nos resta \u00e9 a palavra.\u00a0 Em um texto de Gil Caroz<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, encontro tr\u00eas refer\u00eancias, frutos de sua leitura de Lacan<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>: a aposta na ang\u00fastia como algo que pode fazer ponto de basta, o papel do psicanalista como aquele que se dedica a provocar a vergonha<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> e vergonha e responsabilidade como \u201cdois termos para designar posi\u00e7\u00f5es subjetivas que fazem barreira \u00e0 puls\u00e3o de morte\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>.\u00a0 Talvez se pudesse acrescentar, com Guimar\u00e3es Rosa, a coragem, \u201caquilo que a vida quer da gente\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003https:\/\/juliaydantas.substack.com\/p\/a-casa-alagada<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u2003Lacan, J. <em>Estou falando com as paredes: conversas na Capela de Sainte-Anne<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 88.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u2003Vide Fabi\u00e1n Fajnwaks em https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/2022\/08\/16\/o-discurso-capitalista-e-o-impossivel\/<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u2003Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u2003Caroz, G. \u201cL\u2019\u00c9re de irresponsabilit\u00e9\u201d. In: <em>Mental<\/em>, n.39, juillet 2019, p. 26. (Tradu\u00e7\u00e3o da autora)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>\u2003Lacan, J. <em>O triunfo da religi\u00e3o precedido de discurso aos cat\u00f3licos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u2003Caroz, G. <em>Op. cit.<\/em> (Tradu\u00e7\u00e3o da autora)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>\u2003Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>\u2003Rosa, J. G. <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>Notem, por outro lado, que se h\u00e1 algo que at\u00e9 hoje deu um enquadre ao circuito do supereu na hist\u00f3ria humana, \u00e9 o que Lacan chamou Discurso do Mestre, o qual n\u00e3o \u00e9 um movimento perp\u00e9tuo, e permite uma produ\u00e7\u00e3o e uma separa\u00e7\u00e3o do mais de gozar, do gozo suplementar. De fato, o discurso do mestre captou o termo subjetivo e esse elemento de gozo suplementar que chamamos a, e os enquadrou a fim de limitar estritamente sua c\u00f3pula. Por isso, [esse discurso] \u00e9 eminentemente civilizador: rompe o circuito, se estabelece sobre uma quebra, [faz] uma barreira entre o sujeito e esse gozo suplementar, e corrige, pois, este impasse crescente da nossa civiliza\u00e7\u00e3o. (Miller, J.-A. <em>El banquete de los analistas<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011, p. 307. Tradu\u00e7\u00e3o nossa.)<\/p><\/blockquote>\n<h3><span style=\"color: #000080;\"><strong>Este impasse crescente da nossa civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Cleyton Andrade (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Enquanto escrevo, o desastre no Rio Grande do Sul ainda est\u00e1 em curso. H\u00e1 muito sofrimento e perdas envolvidas. Por\u00e9m, infelizmente, muitos o transformam em palco para mais uma das numerosas opera\u00e7\u00f5es que resultam em impasses para a no\u00e7\u00e3o de verdade. Defender a verdade parece algo antiquado (Miller, 2011) e muitas vezes, in\u00fatil. Afinal, o mecanismo em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas sobre a mentira e nem sobre o falso como oposi\u00e7\u00e3o ao verdadeiro. Dizer ostensivamente que n\u00e3o h\u00e1 Estado, que n\u00e3o h\u00e1 institui\u00e7\u00f5es, nem organiza\u00e7\u00f5es, com afirma\u00e7\u00f5es perempt\u00f3rias de a\u00e7\u00f5es supostamente exclusivistas dos civis que salvam civis, diante da alegada ina\u00e7\u00e3o do Estado e at\u00e9 de dificuldades impostas por ele, se apresenta como um dos nomes reeditados do sujeito liberal. Esse mesmo sujeito \u00e9 central e fundamental no capitalismo, por ser ele mesmo uma express\u00e3o de uma vontade que transborda barragens e inunda de gozo seu circuito. Esse senhor do capitalismo, que reaparece nos movimentos radicais e reacion\u00e1rios de extrema direita, nos ajuda a entender um trecho do curso <em>O Banquete dos analistas<\/em>, de Miller. E ambos nos permitem atualizar uma leitura sobre como o capitalismo n\u00e3o s\u00f3 absorve, como retroalimenta os impasses da civiliza\u00e7\u00e3o, num movimento perp\u00e9tuo.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, temos a demonstra\u00e7\u00e3o de como uma face do capitalismo se alia muito bem ao fascismo n\u00e3o apenas pela monetiza\u00e7\u00e3o vinda destes movimentos, mas, sobretudo, por uma identidade conceitual que sobrep\u00f5e uma vers\u00e3o do sujeito liberal do capitalismo ao homem de bem, com sua p\u00e1tria, sua fam\u00edlia, seu Deus, e sua liberdade. Lendo Miller, temos a psican\u00e1lise como oposi\u00e7\u00e3o, como um caminho contr\u00e1rio a esse fundamento perverso da civiliza\u00e7\u00e3o (Miller, 2011). Cabe \u00e0 psican\u00e1lise estar contra qualquer mecanismo que se coloque como uma volatiza\u00e7\u00e3o do real (Miller, 2011) desencadeada por um mestre moderno e liberal acoplado ao mais-de-gozar, ao <em>a<\/em>, a ponto de transformar o real de uma forma que n\u00e3o ocorrera enquanto imperava a a\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria do Discurso do Mestre. Hoje estamos confrontados cotidianamente com uma jun\u00e7\u00e3o do extremismo\/radicalismo com o capitalismo. N\u00e3o \u00e9 mais uma novidade nas m\u00e3os do psicanalista a percep\u00e7\u00e3o de que o desejo \u00e9 um efeito que depende de uma articula\u00e7\u00e3o entre S1 e S2 (Miller, 2011). O outro lado da partida a ser jogada tamb\u00e9m sabe muito bem disso e traduz sob diversas formas de rentabilidade, seja monet\u00e1ria, financeira ou pol\u00edtica, com efeitos devastadores no empreendimento civilizat\u00f3rio. Manipulam isso muito bem, na condi\u00e7\u00e3o de que tudo vale para as n\u00fapcias desse sujeito com o gozo suplementar.<\/p>\n<p>Tratemos aqui, a partir de Miller, de algumas premissas: 1) o mal-estar na Cultura \u00e9 chamado de <em>impasses da civiliza\u00e7\u00e3o\/Cultura<\/em>; 2) isso se refere a um circuito do Supereu, uma vez que, para Freud, a Cultura se orienta pela \u00e9tica do Supereu; 3) h\u00e1 uma antinomia entre psican\u00e1lise e Cultura, posto que n\u00e3o seguem a mesma \u00e9tica.<\/p>\n<p>Em poucas palavras: para viver em sociedade seria necess\u00e1rio ceder em seu desejo como uma forma de renunciar ao gozo da puls\u00e3o; contudo, essa separa\u00e7\u00e3o exigida com rela\u00e7\u00e3o ao mais-de-gozar, <em>a<\/em>, n\u00e3o apazigua o Supereu, uma vez que ele se apropria desse gozo, fomentando um circuito infernal de retroalimenta\u00e7\u00e3o. Se a figura do casamento foi essencial a Freud por indicar esse circuito intermin\u00e1vel, a ruptura com o casamento parecia um caminho vislumbrado. O problema \u00e9 que o gozo a que se renuncia serve ao Supereu. Ele goza da ren\u00fancia ao gozo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um circuito que vai da incid\u00eancia do Supereu sobre a puls\u00e3o, exigindo que abdiquemos de uma satisfa\u00e7\u00e3o, produzindo e separando o objeto <em>a<\/em>; e depois, um retorno dessa produ\u00e7\u00e3o que foi separada, para o mesmo Supereu. Aquilo que foi separado retorna tamb\u00e9m como gozo. Esse \u00e9 o car\u00e1ter perp\u00e9tuo do movimento constante da Cultura. A vontade moral se encontra com a vontade de gozo \u2013 \u00e9 por onde se pode ler algo da pervers\u00e3o na civiliza\u00e7\u00e3o, sob o imperativo <em>Goze!<\/em><\/p>\n<p>A diferen\u00e7a a ser introduzida sobre essas vontades sobrepostas passa pelo conceito de discurso, sobretudo como algo oposto a esse movimento perp\u00e9tuo. Ou seja, o conceito de discurso, necessariamente, implica a ideia de <em>barragem, barreira, limite, conten\u00e7\u00e3o, ruptura.<\/em> Por exemplo, o Discurso do Analista imp\u00f5e um obst\u00e1culo intranspon\u00edvel entre o S1 e S2 que ocupam respectivamente o lugar da produ\u00e7\u00e3o e o lugar da verdade, impedindo um retorno ao come\u00e7o do circuito. Esse \u00e9 o modo do Discurso do Analista sustentar uma barragem que impe\u00e7a o transbordamento da vontade de gozo.<\/p>\n<p>O que operou um limite na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o foi o Discurso do Mestre, que captou tanto o sujeito quanto o gozo e sustentou uma barreira, um limite para ambos. Essa \u00e9 a dimens\u00e3o civilizat\u00f3ria do Discurso do Mestre: impedir a c\u00f3pula entre $ e <em>a.<\/em> H\u00e1 uma impossibilidade de passagem entre produ\u00e7\u00e3o e verdade. Contudo, o surgimento do capitalismo parece ter desestabilizado essa fun\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria do Discurso do Mestre ao retomar um caminho que reitera o circuito perp\u00e9tuo da Cultura, restabelecendo o acesso entre <em>a <\/em>e $, conectando-os. Por isso o capitalismo n\u00e3o \u00e9, de fato, um discurso, posto que falta a ele um elemento fundamental: entre produ\u00e7\u00e3o e verdade, por defini\u00e7\u00e3o, deve haver uma impossibilidade (DM e DA) ou impot\u00eancia (DH e DU). No capitalismo o mais-de-gozar n\u00e3o est\u00e1 na realidade transformada em fantasia, mas sim como algo sustentado na pr\u00f3pria realidade, por isso ele pode se valer muito bem do negacionista, das fake News, e das demais estrat\u00e9gias de movimentos extremistas e reacion\u00e1rios, todos nesse caminho contr\u00e1rio \u00e0 psican\u00e1lise, com suas formas de um mais-de-gozar desregulado.[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p>\u201c<em>Estou falando da vari\u00e1vel aparente. A vari\u00e1vel aparente\u00a0x\u00a0constitui-se de que o\u00a0x\u00a0marca um lugar vazio naquilo de que se trata. A condi\u00e7\u00e3o para isso funcionar \u00e9 que coloquemos exatamente o mesmo significante em todos os lugares reservados vazios. Essa \u00e9 a \u00fanica maneira da linguagem chegar a alguma coisa. E foi por isso que me expressei nesta formula\u00e7\u00e3o:\u00a0n\u00e3o existe metalinguagem<\/em>\u201d (Lacan, J. [1971-1972] <em>O semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 12).<\/p><\/blockquote>\n<h6>Romildo do R\u00eago Barros (AME da EBP\/AMP)<\/h6>\n<h4><strong><em>O sintoma, entre o sim e o n\u00e3o<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>Come\u00e7o lembrando uma resposta dada por Ariano Suassuna, bem \u00e0 sua maneira, para algu\u00e9m que estranhava o seu medo de avi\u00e3o:<\/p>\n<p>Ariano, dizia esse amigo, carro \u00e9 muito mais perigoso do que avi\u00e3o&#8230; Se numa curva\u00a0topa com\u00a0um buraco pode sofrer um acidente, muitas vezes fatal.<\/p>\n<p>E avi\u00e3o, respondeu Ariano com outra pergunta, que para onde vai leva embaixo dele um buraco\u2026?<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed, temos uma boa anedota, feita para rir,\u00a0como todo sintoma neur\u00f3tico quando \u00e9 usado como argumento.\u00a0Torna-se um pouco mais sisuda se acrescentarmos uma conclus\u00e3o: o buraco onipresente sob o avi\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o do voo.\u00a0N\u00e3o h\u00e1 voo sem buraco. Enquanto o carro na curva depende da conting\u00eancia de haver ou n\u00e3o um buraco (nunca \u00e9\u00a0garantido\u00a0que haja), o voo do avi\u00e3o tem o buraco como necessidade, uma vez que surge justamente na separa\u00e7\u00e3o entre a massa do avi\u00e3o e o solo. Suassuna, talvez sem querer, aponta para um al\u00e9m do vazio, para um ponto em que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 uma piada, mas condi\u00e7\u00e3o da linguagem e do sintoma.<\/p>\n<p>Lacan diz, na sua frase, que \u201cA vari\u00e1vel aparente\u00a0x\u00a0constitui-se de que o\u00a0x\u00a0marca um lugar vazio naquilo de que se trata\u201d.<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>Ou seja, aquilo de que se trata (\u201c<em>ce dont il s\u2019agit<\/em>\u201d \u2013 express\u00e3o francesa dif\u00edcil de\u00a0se\u00a0encontrar\u00a0um\u00a0correspondente\u00a0elegante\u00a0em portugu\u00eas), s\u00f3 opera se houver um lugar vazio, marcado por Lacan com um x.<\/p>\n<p>Como no argumento f\u00f3bico de Ariano, o negativo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o do positivo. \u00c9 a partir da\u00ed que surge um terceiro termo como defesa sintom\u00e1tica: a esperan\u00e7a de percorrer uma estrada sem rupturas, para o carro, ou a defesa que o f\u00f3bico encontra no\u00a0pr\u00f3prio\u00a0medo, para o avi\u00e3o.<\/p>\n<p>O terceiro termo, naturalmente, \u00e9 vari\u00e1vel. Pode-se ter medo de carro, assim como se pode ser\u00a0mais ou menos\u00a0indiferente \u00e0s incertezas do avi\u00e3o. O que se pode dizer \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 linguagem sem\u00a0o\u00a0vazio\u00a0que Lacan representou com a inc\u00f3gnita.<\/p>\n<p>Essa discuss\u00e3o se torna particularmente importante nos nossos tempos, quando a civiliza\u00e7\u00e3o, e nossa cl\u00ednica em consequ\u00eancia, p\u00f5e em confronto o desejo e o gozo, o que altera muitas vezes o estatuto do sintoma.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Para aproveitar a anedota contada por Ariano Suassuna, n\u00e3o vou distinguir neste coment\u00e1rio o vazio do buraco.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_separator color=&#8221;blue&#8221;][vc_empty_space][vc_column_text]\n<blockquote><p><em>\u201cMas persiste o fato de que, no n\u00edvel em que funciona o discurso que n\u00e3o \u00e9 o discurso anal\u00edtico, coloca-se a quest\u00e3o de como esse discurso conseguiu aprisionar <\/em>[attraper]<em> corpos. No n\u00edvel do discurso do mestre\/senhor, (&#8230;) voc\u00eas, como corpos, est\u00e3o petrificados <\/em>[p\u00e9tris]<em>\u201d<\/em> (Lacan, J. [1971-1972] <em>O semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 220).<\/p><\/blockquote>\n<h6>Maria Helena Barbosa (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Quando Lacan afirma que \u201cNo n\u00edvel do discurso do mestre\/senhor, voc\u00eas, como corpos, est\u00e3o petrificados\u201d, est\u00e1 aludindo a uma certa homologia que ele produziu a respeito da estrutura entre Michelangelo e sua obra, e o discurso do mestre\/senhor.<\/p>\n<p>Lembramos da famosa frase dita por Michelangelo ao ser indagado por Leonardo Da Vinci quando do t\u00e9rmino da escultura de Davi: \u201cEu apenas tirei da pedra de m\u00e1rmore tudo que n\u00e3o era Davi\u201d.<\/p>\n<p>Lacan, na introdu\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo XVI do <em>Semin\u00e1rio 19: &#8230;ou pior<\/em>, aborda o escultor e sua obra para apontar que, at\u00e9 para Michelangelo, a obra sempre vem sob um comando. \u201cO que comanda \u00e9 o Um. O Um cria o Ser. (&#8230;) o Um n\u00e3o \u00e9 o Ser, ele <em>constitui<\/em> [<em>fait<\/em>] o Ser\u201d (p. 214).<\/p>\n<p>Ele segue dizendo que: \u201cA rela\u00e7\u00e3o do homem com um mundo seu (&#8230;) nunca foi mais que uma presun\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o do discurso do mestre\/senhor\u201d (p. 215).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale lembrar outra das principais obras do artista, abordada por Freud em um extenso artigo de 1914. Conta-se que ao terminar de esculpir a est\u00e1tua de Mois\u00e9s, Michelangelo, fascinado diante da beleza da imponente escultura, bateu com um martelo no joelho direito dela produzindo uma fratura no m\u00e1rmore e gritou: \u201cParla!\u201d [Fala!]\n<p>Michelangelo \u00e9 um dos grandes nomes do Renascimento italiano que despontou no s\u00e9culo XV, caracterizando uma nova concep\u00e7\u00e3o sobre a vida humana. Sua forma\u00e7\u00e3o humanista e a forte influ\u00eancia da cultura cl\u00e1ssica se refletem na produ\u00e7\u00e3o de suas pinturas e esculturas.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]A Comiss\u00e3o de Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas vem selecionando diversas passagens extra\u00eddas de livros e artigos orientadores para as pesquisas em torno do tema do XXV EBCF: Corpos aprisionados pelo discurso &#8230;e seus restos. Algumas dessas passagens, comentadas por colegas que gentilmente toparam o desafio de avan\u00e7ar um pouco mais ou de nos provocar com novas quest\u00f5es,\u00a0&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":28,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"class_list":["post-282","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/282","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=282"}],"version-history":[{"count":25,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/282\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":774,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/282\/revisions\/774"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/28"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/encontrobrasileiroebp2024.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}